Secas prolongadas, inundações, ondas de calor e escassez hídrica deixaram de ser riscos distantes e já afetam cidades, empresas, trabalhadores e cadeias produtivas no Brasil. Para discutir caminhos de adaptação e prevenção, a Confederação Nacional da Indústria (CNI) realizou, nesta quinta-feira (9), em Brasília, o evento Indústria Resiliente: Estratégias de Adaptação à Mudança do Clima. Na oportunidade, a instituição também lançou o Guia de Adaptação Climática que apresenta recomendações práticas para fortalecer a resiliência das cadeias produtivas diante dos riscos climáticos.
O encontro reuniu governo, indústria, associações setoriais, empresas e instituições parceiras em uma programação com palestras e painéis sobre como transformar a adaptação à mudança do clima em estratégia empresarial. A iniciativa ainda contou com apoio do Ministério do Meio Ambiente da Alemanha e da Agência Alemã de Cooperação Internacional (GIZ).
Para o gerente de Recursos Naturais da CNI, Mario Augusto Cardoso, a resposta aos impactos climáticos precisa deixar de ser apenas emergencial e integrar o planejamento permanente das empresas.
“A mudança climática deixou de ser uma preocupação distante ou restrita ao campo ambiental. Hoje, ela se manifesta de forma concreta no cotidiano das empresas, das cidades e das cadeias produtivas. Falar de adaptação é falar de gestão de riscos, produtividade, segurança hídrica e energética, planejamento de longo prazo e competitividade”, afirmou.
Impactos climáticos já afetam produção, água e empregos
A dimensão social e econômica da crise climática foi um dos pontos centrais do encontro. Dados apresentados na palestra de abertura realizada por Márcio Rojas, coordenador-geral de Ciência do Clima do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), reforçaram que os eventos extremos estão mais frequentes e intensos, impactando as áreas de infraestrutura, produção, abastecimento de água e energia, cadeias de suprimentos e biodiversidade.
Segundo ele, o custo da inação pode superar, em muito, os investimentos necessários em adaptação e mitigação. “Durante muito tempo, as estimativas para investimentos em adaptação causavam incômodo porque envolviam cifras significativas. Hoje, já estamos convencidos de que o impacto da inércia é muito maior. Este custo pode resultar, até 2050, em perda de R$ 17,1 trilhões no PIB brasileiro e eliminação de aproximadamente 4,4 milhões de empregos”, alertou.
As chuvas que afetaram o Rio Grande do Sul em 2024 foram apontadas como exemplo da urgência de ações preventivas. Tiago Pereira Neto representante da Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Sul (FIERGS), lembrou que, nos últimos cinco anos, o estado enfrentou estiagens severas e uma cheia histórica, com reflexos sobre municípios, unidades produtivas, sistemas logísticos e infraestrutura.
“A adaptação climática precisa ser vista como uma agenda de competitividade. No Rio Grande do Sul, somente as estiagens geraram estimativas de mais de R$ 300 bilhões em prejuízos. Nas inundações, mais de 90% dos municípios estiveram em situação de emergência ou calamidade, com colapso logístico e unidades produtivas comprometidas”, disse.
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Segurança hídrica aparece como um dos principais gargalos
A disponibilidade de água foi apontada como um dos principais desafios para a indústria. Tibério Pinheiro, superintendente adjunto de Estudos Hídricos e Socioeconômicos da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), apresentou projeções sobre os efeitos do aumento da temperatura e da evapotranspiração na disponibilidade hídrica, especialmente em regiões produtivas como o Centro-Oeste.
Segundo ele, os cenários avaliados pela ANA indicam que, mesmo sem um aumento mais agressivo da temperatura, já é possível observar redução relevante de água. “Mesmo em um cenário sem aumento tão agressivo da temperatura, já se observa, no horizonte de 2040, uma redução drástica da disponibilidade hídrica em diversos territórios brasileiros. Isso exige dados, planejamento e ferramentas que ajudem gestores e empresas a tomar decisões considerando a realidade de cada bacia”, destacou.
Governo e cooperação internacional defendem integração na agenda de adaptação
A articulação entre setor produtivo e poder público foi apontada como condição para ampliar a capacidade de resposta do país aos impactos da mudança do clima. Um dos instrumentos citados no debate foi o Plano Clima Adaptação, estratégia nacional que organiza diretrizes e ações para preparar setores, cidades e territórios para eventos extremos, como secas, enchentes, ondas de calor e escassez hídrica.
O plano reúne objetivos nacionais e orienta 16 planos setoriais e temáticos, em áreas como indústria, energia, transportes, recursos hídricos, agricultura, saúde, cidades e gestão de riscos. Embora não tenha caráter regulatório, funciona como referência para que União, estados, municípios, empresas e sociedade civil incorporem o risco climático ao planejamento de longo prazo.
Inamara Melo, diretora de Políticas para a Adaptação e Resiliência à Mudança do Clima do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), afirmou que a agenda precisa ser tratada como uma política de Estado e contar com participação ativa do setor empresarial.
“Não há adaptação eficaz no país sem o setor empresarial, assim como não é possível para o setor empresarial atuar em um ambiente que não esteja preparado para a adaptação. Essa é uma agenda de absoluta necessidade para a lógica das empresas, para a competitividade e para o desenvolvimento do país”, afirmou.
A relação do plano com a indústria foi detalhada por Ana Carolina Câmara, diretora de Projetos da Agência Alemã de Cooperação Internacional (GIZ). Segundo ela, além de aparecer em um plano setorial específico, a indústria também se conecta a temas transversais, como recursos hídricos, agricultura, transportes e justiça climática.
“O papel do Plano Clima é oferecer ao setor industrial diretrizes para internalizar essa agenda e atuar de forma estratégica, somando-se aos esforços dos atores públicos. A adaptação precisa convergir entre políticas públicas, setor produtivo e territórios”, explicou a diretora.
Na prática, essa convergência significa incorporar riscos climáticos às decisões sobre investimentos, infraestrutura, logística, uso da água, fornecedores e operação industrial. Para os participantes, a adaptação só ganha escala quando planejamento público, dados territoriais, financiamento e estratégias empresariais caminham na mesma direção.
CNI lança guia para apoiar empresas na adaptação climática
A partir dos temas discutidos durante o evento, a CNI apresentou o Guia da Indústria para Adaptação à Mudança do Clima, publicação que reúne caminhos para que empresas incluam a adaptação climática nas decisões de negócio, investimento e operação.
O guia da CNI propõe que a adaptação climática seja incorporada às estratégias empresariais e às decisões de investimento. A publicação está organizada em três subsetores prioritários — óleo e gás, alimentos e têxtil — considerando a exposição geográfica, a dependência de recursos naturais sensíveis ao clima e a complexidade das cadeias de suprimentos.
As recomendações estão estruturadas em cinco eixos: eficiência de recursos, fontes de energia, produtos e serviços, mercados e resiliência. Entre as medidas apontadas estão reúso de água, eficiência energética, diversificação de fontes renováveis, agricultura regenerativa, infraestrutura resiliente, rastreabilidade de fornecedores, economia circular e planos de contingência.



