CNI lidera debate sobre implementação da agenda ESG na indústria brasileira

Evento em SP reúne lideranças para discutir como relatos de sustentabilidade e taxonomia fortalecem a competitividade e o acesso ao crédito

Confederação Nacional da Indústria (CNI) reuniu, nesta quarta-feira (1º), em São Paulo, lideranças do setor produtivo e financeiro para debater o futuro da agenda de sustentabilidade no Brasil.

O evento “ESG na Indústria: aprendizados e perspectivas”, consolidou o entendimento de que a pauta de sustentabilidade, o ESG (sigla em inglês para Environmental, Social, and Governance – ou Ambiental, Social e Governança), deixou de ser apenas uma promessa para se tornar uma realidade de implementação prática, focada em relatos de sustentabilidade e transparência auditável para fortalecer o ambiente de negócios.

Para os líderes presentes, a sustentabilidade integra agora o núcleo das decisões corporativas. Ricardo Mussa, chair da Sustainable Business COP (SB COP), destacou que o cenário global, marcado por questões de segurança energética e climática, mudou a percepção das empresas. " O Brasil possui vantagens competitivas enormes, como o excesso de energia, e deve ser protagonista e exemplo de soluções que unem sentido econômico à redução de impacto ambiental”, afirmou.

O superintendente de Meio Ambiente e Sustentabilidade da CNI, Davi Bomtempo, enfatizou a necessidade de preparar a mão de obra e garantir financiamento para essa agenda prioritária, que envolve mercado de carbono e taxonomia. Ele destacou a missão da entidade em apoiar todos os portes de empresa. "O papel da CNI é mobilizar os setores industriais para que, juntos, possamos engajar todos os segmentos e, de certa forma, facilitar o acesso e a utilização de recursos financeiros", destacou.

Bomtempo demonstrou especial preocupação com as micro e pequenas empresas, sugerindo o desenvolvimento de mecanismos de garantias coletivas para facilitar o fluxo de capitais para esses negócios.

Relatos de sustentabilidade como ferramentas de gestão

Mais do que prestar contas à sociedade, os relatos de sustentabilidade se tornaram bússolas estratégicas para as empresas. Hoje, eles servem para direcionar a tomada de decisão interna, mapear desafios operacionais e antecipar riscos regulatórios ou climáticos que afetam diretamente o caixa das empresas.

Essa mudança de patamar foi acelerada pela adoção global das normas IFRS S1 e S2 (padrões internacionais de relatório financeiro focados em sustentabilidade e clima), que no Brasil foram traduzidas e implementadas pelos pronunciamentos CBPS 01 e 02 (Comitê de Pronunciamentos de Sustentabilidade).

Vania Borgeth, vice-coordenadora de Relações Internacionais do Comitê Brasileiro de Pronunciamentos de Sustentabilidade (CBPS), explicou que o reporte deixou de ser um documento de marketing, o antigo "balanço social", para se tornar um instrumento financeiro de gestão de riscos.

“Os padrões IFRS são a metodologia escolhida globalmente para que a informação seja uniformizada, auditada, acompanhada e usada pelos tomadores de decisão para escolher as melhores opções de negócio”, reforçou.

A especialista explicou que a Resolução nº 244/2026, da CVM, que altera a Resolução nº 193/2023, revogou a exigência de que companhias abertas divulguem informações financeiras relacionadas à sustentabilidade em conformidade com as normas IFRS S1 e S2. A partir de agora, o reporte passa a seguir um modelo voluntário, sem prazo definido para eventual retomada de um regime obrigatório.

Para ela, a alteração é um retrocesso. “O Brasil foi pioneiro ao anunciar a obrigatoriedade. O recuo pode ser interpretado pelo mercado externo como uma perda de prioridade na agenda climática”, ressaltou.

No painel, empresas apresentaram casos de sucesso na implementação dos relatórios de sustentabilidade e seus desafios. Integraram a discussão Bruna César, líder de Inteligência de Sustentabilidade da Itaúsa; Letícia Rodrigues, coordenadora de Reportes Financeiros da Vale; Bruna Antunes, coordenadora de Sustentabilidade da Suzano e Luísa Rates, coordenadora de Sustentabilidade do IBRAM.

Taxonomia Sustentável Brasileira (TSB)

O evento também debateu a Taxonomia Sustentável Brasileira (TSB), que entrou em fase operacional este ano. O instrumento funciona como um "dicionário oficial" para definir quais atividades são de fato sustentáveis, ajudando a eliminar o greenwashing e a atrair investidores globais ao reduzir a assimetria de informações. A expectativa é que a TSB facilite o direcionamento de capital para projetos de descarbonização em larga escala.

O setor enfrenta, agora o detalhamento que comprove a conformidade com as regras e da integração dos sistemas internos para operacionalizar a taxonomia. Órgãos reguladores como o Banco Central e a CVM trabalham para integrar a TSB ao arcabouço normativo do país. 

Reforçando esse movimento de padronização, a Federação Brasileira de Bancos (Febraban) vai lançar uma nova taxonomia sustentável. Segundo Amaury Oliva, diretor-executivo de Sustentabilidade da entidade, o objetivo é atualizar o modelo criado pelos bancos em 2015, adaptando-o à taxonomia nacional instituída no fim de 2025.

Para Oliva, o foco é estabelecer um "sistema de classificação comum para que todos possam se entender e ter o mesmo olhar sobre a economia verde". Embora a adesão seja voluntária, o instrumento é considerado uma das chaves para a ampliação do financiamento climático.

A visão converge com a da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), que vê a taxonomia como a "caixinha" que viabiliza o financiamento de longo prazo. Luiz Pires, gerente de Sustentabilidade da associação, destacou que o país vive uma transição estrutural.

"O desafio do Brasil é fazer a transição de um modelo de mercado de capitais mais tradicional para um modelo que seja mais diversificado, com foco no impacto socioambiental. Para isso a taxonomia é fundamental. Ela vai permitir que a gente identifique atividades que precisam e merecem financiamento de longo prazo, que sejam focadas nos desafios de futuro", explicou Pires.

O papel estratégico do setor de seguros também foi destacado por Pedro Werneck, gerente de Sustentabilidade da CNSeg, que detalhou como a entidade está estruturando uma agenda robusta para consolidar a nova função do mercado segurador na economia verde.

As prioridades incluem a criação de uma taxonomia sustentável própria para o setor, alinhada à brasileira, além do uso de inteligência climática para precificar riscos e a inclusão do seguro como pilar nas políticas nacionais de adaptação climática. Segundo Werneck, o setor é peça-chave para garantir a resiliência econômica e social, indo além do suporte após desastres para atuar na organização preventiva

O painel também contou com uma sessão especial sobre a Facility de Investimentos Sustentáveis (FAIS), apresentado por Fernando Penedo, diretor de Operações e Projetos no Instituto Amazônia+21.

01/07/2026 - ESG na Indústria: aprendizados e perspectivas

Novas perspectivas para o crescimento industrial e a descarbonização

O encerramento do evento contou com a apresentação de um estudo inédito desenvolvido pelo Sustainability Research Institute (SRI) da Schneider Electric, em parceria com o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC).

A apresentação do estudo “Novas perspectivas sobre os caminhos do Brasil para o crescimento industrial e a descarbonização” foi conduzida por Mathieu Piccin, diretor da Schneider Electric Advisory Services. O executivo destacou que a transição energética brasileira deve ser vista como o motor de uma nova era industrial.

Piccin enfatizou que a agenda verde deixou de ser um encargo financeiro para se tornar o diferencial competitivo do país. "Sustentabilidade não é um custo. É uma oportunidade estratégica para o Brasil".

Embora o planejamento de longo prazo seja desafiador, o estudo detalha caminhos distintos para o desenvolvimento nacional até 2050. "É muito complexo saber como será o mundo da energia no Brasil em 2050, mas traçamos cenários como o 'Salto Verde', onde o país utiliza todo o seu potencial para reforçar uma indústria competitiva e ser uma economia de baixo carbono mundialmente", lembrou.

Um dos pontos centrais da sua apresentação foi a conexão entre a infraestrutura digital e a abundância de energia limpa no Brasil. "Um dos grandes indicadores da eletrificação do mundo são os data centers. Enquanto muitos países enfrentam disputas por energia elétrica para potencializar a inteligência artificial, o Brasil tem uma matriz extremamente limpa a seu favor", ressaltou.

O estudo apresentado reforça que o Brasil pode atingir a neutralidade de carbono até 2050 se acelerar a modernização de sua base elétrica. Com o cenário "Salto Verde", a participação da eletricidade no consumo industrial saltaria de 18% para 58%, permitindo que o país não apenas reduza emissões, mas atraia investimentos globais de alta intensidade tecnológica, como os grandes centros de processamento de dados. A Schneider Electric, foi nomeada a “ Empresa Mais Sustentável do Mundo 2026 ” pela TIME Magazine e pela Statista pelo terceiro ano consecutivo.

Acesse o estudo completo. 

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