Cada aumento de 0,1 °C na temperatura média global acrescenta R$ 5,6 bilhões aos prejuízos econômicos causados por desastres naturais no Brasil. O dado integra o Guia da Indústria para Adaptação à Mudança do Clima, documento que a Confederação Nacional da Indústria (CNI) lança nesta quinta-feira (9), durante o evento Indústria Resiliente: Estratégias de Adaptação à Mudança do Clima.
O guia mapeia os impactos da crise climática sobre as cadeias produtivas e apresenta um plano de ação para mitigar os riscos físicos e de transição que ameaçam a competitividade do setor industrial.
Para Roberto Muniz, diretor de Relações Institucionais da CNI, a adaptação climática precisa ser incorporada ao planejamento estratégico das empresas, especialmente diante do avanço dos eventos extremos e das novas exigências de uma economia de baixo carbono.
“Esta é uma iniciativa estratégica para fortalecer a resiliência da indústria brasileira diante dos impactos da mudança do clima e das exigências crescentes de uma economia de baixo carbono. O guia identifica riscos físicos, como secas, inundações, incêndios florestais e elevação do nível do mar, além de riscos de transição ligados a pressões regulatórias, mudanças tecnológicas e novos comportamentos do consumidor”, afirma Muniz.
Guia mostra como a indústria pode se adaptar
O avanço dos eventos extremos já aparece nas estatísticas nacionais. Entre 1991 e 2023, o Brasil registrou mais de 64 mil desastres no Brasil, segundo dados do Sistema Integrado de Informações sobre Desastres (S2iD). Só entre 2020 e 2023, o país registrou acima de 16 mil ocorrências, uma média próxima de 4 mil registros por ano. As secas (50%) responderam por metade dos casos, enquanto inundações, enxurradas e enchentes representaram 27% e as tempestades, 19%.
Em razão desses riscos, o documento concentra recomendações em três subsetores com base na exposição geográfica e na dependência de recursos naturais.
Veja abaixo:
O setor de óleo e gás concentra ativos de alto valor em áreas costeiras e marítimas, como plataformas offshore, refinarias, dutos e terminais portuários. Segundo o guia, tempestades, ressacas e a elevação do nível do mar podem comprometer estruturas, interromper operações e elevar custos de manutenção, seguros e adaptação.
Entre as medidas recomendadas estão o reforço da infraestrutura, a atualização de critérios de engenharia para eventos extremos, o reúso e dessalinização de água nas operações marítimas e de refino e a diversificação dos investimentos em fontes renováveis, como a energia eólica offshore.
A cadeia de alimentos é uma das mais sensíveis à mudança do clima por depender diretamente do regime de chuvas, da disponibilidade de água, da temperatura e da estabilidade da produção agropecuária. Secas prolongadas, inundações, ondas de calor e geadas fora de época podem reduzir safras, encarecer insumos, comprometer o transporte de produtos perecíveis e afetar tanto o abastecimento interno quanto as exportações.
Entre as recomendações do guia estão o estímulo à agricultura regenerativa, à conservação do solo e da água e ao uso de tecnologias capazes de aumentar a previsibilidade da produção. Ferramentas de meteorologia de precisão e agricultura digital podem apoiar decisões sobre plantio, colheita, irrigação e logística, reduzindo perdas diante de eventos extremos.
O documento também aponta a necessidade de modernizar a infraestrutura de armazenagem e distribuição, com silos, armazéns e centros logísticos mais preparados para variações de temperatura e interrupções no transporte. Na pecuária, medidas como sombreamento, manejo do estresse térmico e garantia de acesso à água limpa ajudam a preservar a produtividade em um cenário climático mais instável.
No setor têxtil e de confecção, os riscos climáticos aparecem em diferentes etapas da cadeia produtiva. A produção de fibras naturais, como o algodão, depende de água e de condições climáticas favoráveis, enquanto as fases de beneficiamento, tingimento, lavagem e acabamento consomem volumes expressivos de recursos hídricos e energia. Em regiões sujeitas à escassez de água, eventos extremos podem elevar custos, comprometer o fornecimento de insumos e afetar a continuidade das operações industriais.
O guia recomenda a adoção de tecnologias de reúso de água e tratamento de efluentes, a modernização de máquinas para maior eficiência energética e o uso de fontes renováveis, como solar e biomassa, nos processos produtivos. A digitalização da produção também aparece como estratégia para monitorar, em tempo real, o uso de recursos e antecipar riscos operacionais.
Outra frente apontada é a economia circular. A reutilização de resíduos têxteis, a reciclagem de peças pós-consumo, a rastreabilidade de fibras e a certificação ambiental de fornecedores podem reduzir a dependência de novas matérias-primas e fortalecer a competitividade do setor diante de consumidores e mercados cada vez mais exigentes.
Agenda de regulação
Além de mapear as ameaças físicas às fábricas, o Guia da Indústria para Adaptação à Mudança do Clima detalha os riscos de transição regulatória e comercial que reconfiguram o ambiente de negócios no país. O principal marco dessa mudança é a consolidação do Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE), instituído pela Lei nº 15.042/25.
A legislação estabelece limiares para a entrada de instalações produtivas no mercado regulado de carbono. Na prática, as indústrias que não cumprirem com as metas de descarbonização a serem estabelecidas pelo governo passarão a ter custos financeiros adicionais para comprar cotas de compensação, enquanto as empresas que atingirem suas obrigações de emissões poderão comercializar os créditos excedentes.
O guia da CNI orienta o setor produtivo a antecipar o inventário de emissões de Gases de Efeito Estufa para que possam traçar estratégias de mitigação e adaptação e se antecipar a novas realidades regulatórias e de mercado.
Consumidor e cadeias globais
Paralelamente à regulação jurídica, o estudo aponta mudanças no comportamento dos consumidores e nas exigências das cadeias globais de suprimentos. A demanda por transparência ambiental ao longo do ciclo de vida dos produtos cresce entre compradores, investidores e mercados internacionais.
Empresas que não conseguirem comprovar práticas sustentáveis podem perder participação de mercado (market share), enfrentar restrições no acesso a financiamento e encontrar barreiras comerciais em economias com regras ambientais mais rigorosas, como a União Europeia.
Na avaliação de Muniz, o guia funciona como um roteiro para transformar a adaptação climática em estratégia de resiliência e crescimento. “Mais do que um guia técnico, este plano é um instrumento de transformação, que posiciona a indústria brasileira como protagonista na agenda climática global, garantindo competitividade, segurança e sustentabilidade”, assegura o diretor da CNI.
A publicação também aponta oportunidades competitivas para o país, como o powershoring, conceito que associa a atração de investimentos industriais à ampla disponibilidade de energia limpa no Brasil. O documento incentiva ainda o uso de instrumentos financeiros verdes, como títulos vinculados a metas de sustentabilidade, para apoiar a modernização tecnológica do parque industrial nacional.
Indústria Resiliente: Estratégias de Adaptação à Mudança do Clima.
Data: 09 de julho de 2026
Horário: 09h00
Local: Confederação Nacional da Indústria (CNI), Brasília - DF
As inscrições podem ser feitas neste link.
O evento conta com o apoio do Ministério do Meio Ambiente; Ação Climática, Conservação da Natureza e Segurança Nuclear da Alemanha e Agência Alemã de Cooperação Internacional - Deutsche Gesellschaft für Internationale Zusammenarbeit (GIZ) GmbH.



