O Brasil se prepara para passar a presidência da 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP30) para a Turquia, que receberá a COP31. Como legado, a edição realizada em Belém retomou a confiança no diálogo entre as nações e trouxe avanços na implementação de compromissos.
A visão é da diretora-executiva da COP30, Ana Toni. Segundo ela, o consenso entre países e a articulação por meio de coalizões são passos importantes para transformar vantagem comparativa em competitividade. Um exemplo é a Sustainable Business COP (SB COP), lançada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), para articular ações de sustentabilidade do setor privado e apoiar as negociações climáticas da ONU.
Economista e doutora em Ciência Política, Ana possui uma longa trajetória direcionada ao fomento de projetos voltados à justiça social, à promoção de políticas públicas, à área do meio ambiente e mudanças climáticas. Ela foi Secretária Nacional de Mudança do Clima do Ministério do Meio Ambiente (2023-2025) e passou por instituições como o Greenpeace Internacional, ActionAid Brasil e integra a Rede de Mulheres Brasileiras Líderes pela Sustentabilidade.
A executiva foi uma das especialistas que fez parte da programação da São Paulo Climate Week, realizada entre os dias 3 e 5 de agosto, em São Paulo. Em entrevista à Agência de Notícias da Indústria, Ana Toni fala sobre os avanços na agenda climática, os desafios econômicos e qual a expectativa para a COP31.
AGÊNCIA DE NOTÍCIAS DA INDÚSTRIA - Como você enxerga a agenda climática no planejamento estratégico do Brasil?
ANA TONI - A gente está num bom momento. Construímos políticas públicas, regulamentação, temos a sociedade bastante mobilizada, instrumentos econômicos e uma visão de Brasil que veio com o Plano de Transformação Ecológica. Temos o Ecoinveste, o Fundo Clima, a taxonomia, o mercado de carbono, além do Plano Clima, o Plano da Nova Indústria Brasil (NIB) e os planos de biodiversidade. Mas eu acho que o maior avanço que tivemos no Brasil nos últimos anos foi reposicionar a agenda climática como uma agenda de desenvolvimento e competitividade. Conseguimos impor uma agenda não como um nicho, mas como desenvolvimento econômico sustentável dentro do governo, na sociedade e no setor privado. E o Brasil tem todas as vantagens comparativas que já cansamos de falar. Só que a vantagem comparativa brasileira não é destino, ela é a base. O que vamos fazer com essa base depende de cada um de nós. Para transformá-la em competitiva, precisamos de cooperação, de planejamento e de ação.
AGÊNCIA DE NOTÍCIAS DA INDÚSTRIA - Como construir pontes mais eficazes entre as decisões governamentais e o setor produtivo, que é quem executa a transição na ponta?
ANA TONI - Essa junção da política pública com o setor privado exige que façamos políticas públicas entendendo as dificuldades do setor privado. E, da mesma forma, o setor privado precisa fazer a implementação entendendo, também, as dificuldades do setor público. Alinhar o que os dois setores fazem é absolutamente fundamental para chegarmos na implementação.
Precisamos começar a estruturar essas cooperações por cadeias específicas para sermos mais concretos. Podemos, por exemplo, olhar para todos os problemas da agricultura, desde a regulamentação e metodologias de taxonomia até o pipeline de projetos, trabalhando junto com os bancos para uma cadeia específica. Também podemos focar em instrumentos econômicos específicos, como o Ecoinveste, mantendo uma comunicação fluida com o setor privado para entender como melhorá-lo e ampliá-lo para outros setores. Ou seja, o que eu quero dizer é que a nossa agenda climática não será resolvida só no privado ou só no público; temos que trabalhar juntos.
AGÊNCIA DE NOTÍCIAS DA INDÚSTRIA - Pensando no cenário global, o grande legado brasileiro para as próximas conferências é a agenda de implementação. Como garantir que as metas de financiamento internacional se traduzam em recursos reais para o Brasil?
ANA TONI - Na COP 30, o nosso grande legado foi colocar a "implementação" no centro do debate. Esse tema pegou no mundo inteiro. Agora, sob a presidência da COP, estamos dando continuidade ao instrumento de mobilização de US$ 1,3 trilhão (Baku a Belém). Para viabilizar esse volume, precisamos trabalhar muito mais próximos do setor privado, nacional e internacional. O acordo global conclama o setor privado para entrar junto, pois esse não é um trabalho que governos conseguirão fazer sozinhos.
Seria excelente termos contribuições do setor privado brasileiro sugerindo o que precisa acontecer para mobilizar esses recursos internacionais para países em desenvolvimento. Convido as nossas instituições financeiras a participarem ativamente desses debates internacionais de mobilização, como nos encontros formais e informais (Veredas da AOG e Xingu da AOG).
AGÊNCIA DE NOTÍCIAS DA INDÚSTRIA - O que o Brasil precisa apresentar para consolidar sua liderança quando passarmos o bastão para as próximas COPs?
ANA TONI - Temos uma oportunidade gigantesca de chegar na COP 31 e apresentaro que a gente efetivamente implementou. Mostrar quantos projetos foram financiados, onde eles estão na ponta e quanto conseguimos mobilizar. É provar que o Brasil, sim, é bom de implementação.
Queremos estruturar pavilhões dedicados totalmente à agenda de ação para mostrar o que o setor privado brasileiro conseguiu realizar. A Turquia manteve os nossos seis eixos de ação por cinco anos e escolheu focar em temas como eletrificação, economia circular e oceanos. O caminho para o Brasil se consolidar como esse grande provedor global de soluções climáticas é aumentar a escala, estreitar a relação público-privada e manter o pragmatismo para fazer o recurso e a tecnologia chegarem na ponta.


