Na Semana do Clima de SP, CNI destaca capacitação profissional verde e inovação industrial

Programação do setor produtivo segue até 5 de agosto com discussões que também abordam a preparação para a COP31

Foto: Gabriel Pinheiro/CNI

Líderes da indústria, representantes do governo e especialistas internacionais abriram, nesta segunda-feira (3), as discussões do setor produtivo na Semana do Clima de São Paulo, a São Paulo Climate Week (SPCW) 2026.  

A Confederação Nacional da Indústria (CNI) iniciou sua participação com uma agenda focada na preparação da força de trabalho para a transição climática e no fortalecimento do papel do setor privado rumo à 31ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP 31). As atividades ocorreram na sede da CNI em São Paulo, divididas entre debates de alto nível e a apresentação de um estudo inédito sobre o futuro profissional na indústria. A programação segue até o quarta-feira (5).  

“Começamos as discussões com a oportunidade de reunir stakeholders de alto nível para que possamos avançar em temas centrais como a capacitação profissional verde e a inovação industrial. A nossa participação na SPCW pretende alinhar os interesses da indústria brasileira com as metas climáticas mundiais”, destacou Davi Bomtempo, superintendente de Meio Ambiente e Sustentabilidade da CNI.  

Destaque da Manhã: Green Skills e Força de Trabalho 

A manhã foi marcada pela High-Level Roundtable on Green Skills and Jobs, iniciativa realizada em parceria com o Fórum Econômico Mundial (WEF) e a McKinsey Sustainability. O encontro reuniu cerca de 40 lideranças e tomadores de decisão para discutir como a requalificação (reskilling) e a atualização (upskilling) de trabalhadores são cruciais para a competitividade industrial em uma economia net-zero. 

A apresentação da empresa de consultoria global McKinsey & Company, realizada durante a mesa redonda de alto nível, destacou o potencial do Brasil para se tornar uma "potência verde global", centrando-se na oportunidade de transição climática e no planejamento da força de trabalho. 

Segundo a gerente de Engajamento da McKinsey Sustainability e pesquisadora do WEF, Rishika Daryanani, com base em dados do Relatório sobre o Futuro dos Empregos 2025 do WEF, estima-se que a transição verde gerará cinco vezes mais crescimento de empregos do que declínio. A lacuna de competências, porém, é tida como um entrave. Executivos preveem que 55% da força de trabalho precisará ser capacitada até 2030. 

“Queremos fornecer insights acionáveis para que líderes empresariais e governamentais colaborem no fechamento das lacunas de talento, tratando o capital humano como pilar essencial para a competitividade nas novas cadeias de valor verdes”, destacou Rishika. 

Também participaram das discussões Marcello Pio, especialista em Políticas e Indústria no SENAI; Tarini Fernando, líder de Transição Equitativa no Fórum Econômico Mundial; Marcus Frank, sócio da McKinsey em São Paulo; Júlia Cruz, Secretaria de Economia Verde, Descarbonização e Bioindústria do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC); Ricardo Mussa, chair da SB COP; Arthur Wong, vice-presidente de Marketing e Sustentabilidade da América do Sul da Schneider Electric.  

03/06/26 - CNI na São Paulo Climate Week 2026 (Dia 1)

Programação da Tarde: Liderança Empresarial e COP31 

À tarde, a agenda seguiu com o encontro da Sustainable Business COP (SB COP), ação coordenada pela CNI em parceria com o Instituto Amazônia+21 e a Facility de Investimentos Sustentáveis (FAIS). 

Intitulado "Liderança do Setor Privado para a COP31", o evento contou com discussões sobre as competências para a economia climática, além de financiamento climático e investimento.  

Liderança e Expansão Global 

Ricardo Mussa, chair da SB COP, destacou a força da coalizão do grupo, que já representa 45 milhões de empresas. Segundo ele, 68 países participam, e a SBCOP quer chegar a 100 até o final do ano.  

Mussa também explicou que o modelo de trabalho da SB COP foi alinhado às estruturas da agenda de clima da ONU para facilitar a interação entre as entidades e ampliar a capacidade de contribuições. Para ele, agora o foco é a implementação. "Queremos partir de exemplos concretos para construir recomendações que resultem em soluções e resultados".  

Marcelo Thomé, co-chair da SB COP e presidente do Instituto Amazônia+21, defende que as confederações são a espinha dorsal desta iniciativa empresarial, pois oferecem a legitimidade e a capilaridade necessárias para traduzir compromissos internacionais em oportunidades reais nos espaços de decisão. Ele enfatiza que o objetivo da coalizão não é apenas contribuir para o debate, mas focar na implementação da agenda climática na prática, ressaltando que, especialmente na Amazônia, o entrave não é a falta de recursos, mas a dificuldade em estruturar projetos aptos a receber financiamento.  

Complementando essa visão de ação, Carlos Silva Filho, representante dos High Level Climate Champions, destacou que uma nova transformação industrial já está em curso, com empresas redesenhando cadeias de suprimentos e governos adotando estratégias para estimular essas transições. Para ele, o propósito fundamental rumo à COP31 é garantir que a ambição encontre a implementação, convertendo compromissos em investimentos e inovações que tragam benefícios concretos para as comunidades. 

Paul Polman, cofundador e presidente emérito da IMAGINE e ex-CEO da Unilever, provocou os participantes em sua fala gravada. Segundo ele, o setor privado não precisa de permissão para liderar e pediu que os líderes industriais “alinhem seus capitais com os novos desafios e os tornem em compromissos". 

"Onde a responsabilidade do setor privado está? É importante pensarmos nos compromissos. Se você direciona um capital para a descarbonização, esse é o compromisso. E, então, é preciso solucionar as opções de risco. O capital não vai se afastar do Brasil porque os projetos são ruins, mas porque os riscos são mal percebidos”, destacou Polman.  

O capital humano como motor da transição  

Conectando os temas da manhã com o painel da tarde, Liesbet Steer, diretora executiva Jobs and Skills for the new Economy e embaixadora do grupo de trabalho de empregos e inclusão produtiva da SB COP, defendeu que o desenvolvimento de habilidades deve ser visto como ativo estratégico. "O financiamento público precisa ver esse assunto como investimento e não como custo".  

Na ocasião, o especialista em Política e Indústria da CNI, Marcello Pio, apresentou o levantamento do Observatório Nacional da Indústria (ONI) que identificou 16 perfis profissionais alinhados às demandas da transição para uma economia de baixo carbono, e que permitirá ao Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI) atualizar seu portfólio de cursos para atendimento às necessidades deste setor. O mapeamento reúne novas ocupações e competências que passam a integrar funções já existentes, acompanhando a evolução tecnológica da indústria. 

“Embora a oferta de cursos no país tenha avançado em áreas como energias renováveis e gestão ESG, identificamos lacunas em áreas emergentes, mas fundamentais para a economia verde. Entre elas estão inteligência artificial aplicada à sustentabilidade, rastreabilidade ambiental, gestão de riscos climáticos, armazenamento de energia, hidrogênio de baixo carbono, mercados de carbono e economia circular”, disse Pio. 

Assista a momentos do 1º dia:

Do Brasil para a Turquia  

A transição entre a COP30 (Brasil) e a COP31 (Turquia) foi o fio condutor das falas de encerramento.  

Dan Ioschpe, Campeão Climático de Alto Nível da COP30, destacou a criação, em Belém (PA), do Acelerador Global de Implementação, um novo mecanismo que deverá operar em velocidade e escala entre a COP31 e a COP32 para destravar a agenda de ação climática global. O objetivo é auxiliar os países na implementação de suas Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs) e de seus Planos Nacionais de Adaptação (NAPs), em articulação com a Agenda de Ação. 

Apesar de reconhecer desafios estruturais como a formação de profissionais, financiamento e tecnologia, ele afirmou que, em breve, o mundo encontrará um equilíbrio e deixará de ser carbonizante já nas próximas décadas. 

Bruna Cerqueira, diretora da COP30, reforçou que a SB COP "está fortalecendo e olhando para a entrega de forma concreta". A especialista explica que o foco agora é entender os Planos de Aceleração de Soluções (PAS) para os resultados tangíveis e ratificou a importância da atuação da SB COP nesse processo. “Trazer as confederações do mundo todo para o processo mais estratégico faz muita diferença para acelerar as soluções. Além disso, precisamos de clareza sobre o que é possível fazer nível Brasil e o que precisamos de cooperação internacional para conseguirmos avançar em termos de competitividade”, ressaltou. 

O painel ainda contou com a participação de Arthur Wong, vice-presidente de Marketing e Sustentabilidade da América do Sul da Schneider Electric; Angela Pilath, diretora de Projetos da empresa federal da Alemanha GIZ; Ulas Yildiz, conselheiro da Organização Internacional dos Empregadores (OIE); e Thaís Ferraz, diretora programática do Instituto Clima e Sociedade (ICS).

Financiamento climático e mercados emergentes 

As discussões sobre o financiamento climático e a mobilização de capital para mercados emergentes fecharam o primeiro dia da programação da CNI na São Paulo Climate Week 2026.  

Os debatedores destacaram que o desafio não é apenas a disponibilidade de recursos, mas a superação de barreiras estruturais e de percepção de risco. 

Luciana Ribeiro, fundadora e CEO da Flying Rivers, enfatizou que, embora o Brasil tenha avançado em marcos regulatórios e no fortalecimento do Fundo Clima via Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), o capital nacional ainda é escasso e o país precisa superar barreiras geopolíticas e de comunicação para se inserir efetivamente na pauta global. Diogo Bardal, diretor da International Finance Corporation (IFC), complementou que, apesar da sofisticação do mercado brasileiro nos últimos cinco anos, a governança continua sendo uma preocupação central para os investidores de fora diante dos problemas de escala na descarbonização. 

No setor financeiro e de seguros, Cláudia Prates, diretora de Sustentabilidade da Confederação Nacional das Seguradoras (CNSEG) destacou que a sustentabilidade deixou de ser periférica para se tornar um eixo estratégico. Agora, análises de risco climático e monitoramento ambiental são fundamentais para decisões de crédito e cobertura de seguros, visando preparar os empreendimentos para eventos extremos.  

O painel contou com a moderação de Patricia Ellen, CEO da Systemiq para a América Latina. 

Acompanhe a CNI na São Paulo Climate Week.

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