Indústria propõe regulamentação do reúso de água em documento a pré-candidatos à Presidência

Propostas reúnem medidas para garantir abastecimento de água e fortalecer competitividade do país na transição para economia de baixo carbono

Foto: Iano Andrade/CNI

Diante do salto de 500% na extração de matérias-primas nas últimas cinco décadas e do risco de desabastecimento em grandes centros urbanos, a Confederação Nacional da Indústria (CNI) apresenta a pré-candidatos à Presidência da República, no dia 22 de junho, um conjunto de propostas para tornar o desenvolvimento nacional mais eficiente e resiliente.

As medidas integram o documento Construindo o Brasil 2050 e defendem a regulamentação do reúso de água, a obrigatoriedade do sistema em novos empreendimentos urbanos, a criação de uma Política Nacional de Economia Circular e ações para consolidar o mercado de carbono, a infraestrutura digital verde e a transição energética. 

Para o setor produtivo, o atual modelo de gestão hídrica no país está defasado por seguir a lógica linear de captar, usar uma única vez e descartar. Enquanto capitais enfrentam ameaças severas de escassez, a maior parte dos efluentes produzidos deixa de ser reaproveitada, o que joga fora um insumo importante para a estabilidade do país. 

Levantamento inédito da CNI mostra que o reúso de efluentes tratados com objetivos industriais já traz viabilidade econômica. Na Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) Teotônio Vilela, em Alagoas, por exemplo, o custo da água reciclada foi calculado em R$ 4,14 por metro cúbico.

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A unidade fica em um ponto mais elevado que a fábrica atendida, o que reduz o gasto com bombeamento, além de estar próxima à planta, exigindo menos investimento em tubulações. 

O documento também aponta que a recirculação elimina custos ocultos para as empresas que captam água bruta diretamente, como despesas com produtos químicos, licenciamento e manutenção de equipamentos. Com isso, a CNI avalia que expandir o reúso industrial ajuda a transformar o esgoto sanitário em um ativo econômico, atraindo capital para a infraestrutura.

O reúso de efluentes tratados tem o duplo propósito de aumentar a segurança da operação do setor industrial e adaptar a produção à nova realidade climática, afirma o superintendente de Meio Ambiente e Sustentabilidade da CNI, Davi Bomtempo. 

A medida também busca vencer o "efeito eca", jargão para a resistência cultural ao uso de água reciclada, mesmo quando ela cumpre rigorosos padrões de qualidade. Segundo a entidade, o efluente tratado alcança níveis de segurança iguais ou superiores aos de certos mananciais que recebem esgotos sanitários sem qualquer tratamento.

Setor cobra marco legal para economia circular 

A extração de matérias-primas no Brasil saltou de 790 milhões de toneladas em 1970 para mais de 5 bilhões de toneladas em 2024. Por essa razão, a transição para modelos circulares virou prioridade na agenda industrial. 

Embora 57% das indústrias adotem práticas como reciclagem, como reaproveitamento de materiais e eco-design, a falta de uma lei que institua a Política Nacional de Economia Circular trava a coordenação entre estados e municípios e reduz a previsibilidade para investimentos de longo prazo. 

Entre as propostas estão:

  • criação de uma base nacional de dados sobre o tema, centralizando informações hoje dispersas em órgãos públicos; 
  • harmonização das regras fiscais de logística reversa, com a desoneração de tributos sobre a coleta, separação e triagem de resíduos; 

“A competitividade da indústria dependerá da capacidade de criar valor com menos recursos. A economia circular reduz custos, estimula a inovação, eleva a produtividade e insere o país em cadeias globais que exigem alto padrão socioambiental”, destaca Bomtempo. 

Mercado de carbono, infraestrutura verde e atração de capital 

O avanço da regulamentação do mercado de carbono no Brasil levou a CNI a apoiar medidas que garantam a transparência dos títulos climáticos do país e acelerem o aporte de capital na economia de baixo carbono. 

Umas das ações monitoradas é o Sistema Nacional de Mensuração, Relato e Verificação (MRV), para acompanhar e comprovar, com transparência, as emissões e reduções de gases de efeito estufa. A meta é dar segurança a investidores e parceiros internacionais no mercado regulado brasileiro. Atualmente, a CNI participa do Grupo de Trabalho Técnico de MRV (GTT MRV), criado pelo Ministério da Fazenda.

A CNI também defende posicionar o país como um polo global de powershoring – estratégia para atrair indústrias intensivas em energia para países que oferecem eletricidade limpa, abundante e competitiva. Nesse cenário, o Brasil reúne as condições ideais para se consolidar como o principal destino de data centers sustentáveis, infraestruturas que demandam alto consumo energético e que tenham compromisso com a neutralidade climática. 

O país atingiu a marca histórica de 50% de fontes renováveis na matriz energética total, impulsionado pelo crescimento acelerado da geração eólica, solar e de bioenergia. Houve avanço também na participação de renováveis na matriz elétrica nacional, atingindo 88,2%, colocando o território brasileiro muito à frente da média mundial, onde a presença de renováveis na matriz energética é de apenas 16% e de 32% na oferta de eletricidade. 

Transição energética: fim do desperdício

Apesar de o Brasil ter uma das matrizes elétricas mais limpas do mundo, o avanço rápido das fontes renováveis evidenciou desafios no escoamento dessa energia. O documento alerta para  o curtailment, quando a geração eólica e solar precisa ser cortada por limitações na rede de transmissão ou falta de armazenamento. Só em 2025, os cortes de energia equivaleram ao consumo mensal de todo o estado do Paraná, em média 3.060 GWh.

Para superar o problema, o setor defende expandir a capacidade de armazenamento do sistema, com incentivos a baterias de grande porte e hidrelétricas reversíveis. Segundo a CNI, a solução evita o desperdício de energia limpa, reduz custos e protege a competitividade da economia.

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