No meio do 8º Festival SESI de Educação, entre robôs em movimento, cronômetros correndo e estudantes na torcida, uma rodada diferente chamou a atenção do público. Inspirada no tema da temporada, UNEARTHED (Desenterrado), que convida os jovens a olhar para o passado em busca de descobertas, a competição abriu espaço também para um reencontro literal com a própria história.
Nas arenas da FIRST LEGO League Challenge (FLLC), ex-competidores voltaram à mesa para disputar o Round da Saudade. A rodada não valia pontuação oficial, mas tinha um significado muito maior: permitir que antigos participantes revivessem, por alguns minutos, a experiência de competir na robótica.
A iniciativa surgiu quando a organização percebeu que muitos ex-competidores estavam presentes no evento acompanhando novas equipes, mas como técnicos, mentores ou árbitros voluntários.
''Sempre temos muitos ex-competidores aqui. É bonito ver como as pessoas se conhecem, se ajudam, muitos competiram juntos e se reencontram anos depois. Então pensamos: por que não dar a oportunidade de eles aprenderem e disputarem com tecnologias novas e viverem a competição do outro lado de novo? É a primeira vez que isso acontece em um torneio nacional", explicou o coordenador da FLLC e do STEM Racing pelo Serviço Social da Indústria (SESI), Marcos Sousa.
A disputa aconteceu nas arenas oficiais da competição. Não contou para a classificação do torneio, mas teve troféu para a maior pontuação. E, para completar o clima de nostalgia, quem arbitrou as partidas também foram ex-competidores ou ex-técnicos.
A emoção de comandar o primeiro round
A rodada também teve vencedor. A equipe RoboEcus, ligada ao técnico Vitor Ataíde Lopes, alcançou 470 pontos e levou o troféu do Round da Saudade, mas o que mais marcou não foi o placar. Vitor participou da robótica pela última vez em 2009. “Quando eu competia, nunca tinha comandado um robô num round. Sempre tinha alguém melhor nessa função”, contou rindo.
Lembrando o passado, a emoção também veio junto. Com lágrimas, ele descreveu a sensação de estar numa arena. “A mão treme, dá nervosismo. Como técnico a gente dá muito palpite, mas agora os alunos falaram: ‘agora vocês vão sentir como é estar lá dentro’.”
Depois de anos acompanhando as competições da arquibancada e, agora, da área técnica, ele finalmente esteve no comando da mesa. Até porquê, numa equipe de robótica, há muitas funções que não necessariamente envolvem estar na pista de competição. Hoje, ele teve uma estreia inesquecível. “Tem uma primeira vez para tudo”, ele brinca.
Para Vitor, a robótica representa muito mais do que uma competição. “Quando era adolescente, passei por momentos difíceis, de depressão e ansiedade, a robótica mudou minha vida e me salvou. Meu treinador foi uma pessoa incrível e lembro como isso me motivou a continuar, a melhorar. O robô é só um caminho, mas o que a gente aprende aqui é para a vida.”
Quem já competiu também apita o jogo
Antes mesmo dos robôs entrarem em campo, quem assume a mesa são os árbitros. Eles são os grandes “xerifes” da robótica, conhecem cada detalhe das regras, acompanham de perto as missões e são responsáveis por validar todas as pontuações das partidas. E, para muitos, grande parte desse conhecimento vem da própria experiência nas arenas.
Muitos árbitros já foram competidores ou técnicos e continuaram ligados à robótica anos depois. Esse é o caso de João da Silva, árbitro e antigo participante do torneio. Ele competiu entre 2010 e 2013 e hoje atua como voluntário no evento.
Segundo ele, a experiência na robótica ajudou diretamente na carreira profissional. “A robótica melhorou muita minha comunicação e trabalho em equipe. Hoje, eu sou gerente de projetos e muitas dessas habilidades começaram aqui.”
Entre os árbritos, existe até uma brincadeira para explicar essa ligação com a robótica. “A gente fala que, quando a pessoa é mordida pelo mosquito da robótica, é muito difícil sair.”
Quando os alunos viram professores
Se para os veteranos o momento era de nostalgia, para os estudantes também foi uma chance de inverter os papéis. Enquanto os ex-competidores tentavam se lembrar das marcações da arena e do posicionamento do robô, os alunos acompanhavam tudo de perto e, claro, se divertiam com a situação.
Laís Rezende, de 14 anos, da equipe Nano Masters, observava a cena com atenção. “Eles estão tentando lançar o round, mas faz anos que não fazem isso”, contou. “Como fomos nós que montamos e programamos o robô, eles estão tentando adivinhar o que ele faz. Está muito engraçado de ver.”
Segundo ela, o maior desafio está no posicionamento preciso do robô na mesa. “A parte mais difícil é alinhar o robô e a garra certinho nas linhas. Como normalmente somos nós que lançamos, para eles fica mais complicado.”
Mesmo assim, a torcida continua coletiva. “Eu torço para todo mundo ir bem. Se pudesse, todo mundo ia para o internacional.”
De volta ao passado: as memórias que nos fazem continuar
Para quem já viveu a experiência da robótica, voltar à arena pode despertar lembranças fortes. Foi o caso de Luísa Boselli, da equipe Red Rabbit, que competiu pela última vez em 2020 e retorna este ano ao torneio, seis anos depois.
“O torneio mudou muito as regras, mas a essência continua a mesma. Quando cheguei aqui na Bienal, me arrepiei, meus olhos já começaram a lacrimejar. Só quem vive a robótica sabe o que é essa emoção.”
Ela também reencontrou colegas de equipe, juízes e técnicos que fizeram parte da sua trajetória. Entre as memórias mais marcantes está a vitória brasileira no FIRST LEGO League World Festival de 2018. “Foi a primeira equipe brasileira a ganhar o World Festival. Foi uma temporada muito desafiadora, até porque foi a mminha primeira, mas inesquecível.”
Pra ela a experiência também foi nova. Até então, ela nunca tinha ido pra mesa da competição atual. Por isso, ela teve que pegar as dicas com os estudantes nos 30 minutos antes do round oficial. "Eu só digo pra quem entra aproveitar o primeiro torneio, porque é o mais memorável. Lembrar não só da disputa, mas também da energia e da únião", afirma.
Algumas experiências não se encerram quando a competição termina. Às vezes, tudo o que alguém quer é voltar só mais uma vez.
O 8º Festival SESI de Educação foi realizado pelo Serviço Social da Indústria (SESI), em parceria com o Conselho Nacional do SESI, entre 5 e 8 de março, em São Paulo.







