Dia Mundial do Doador de Sangue: solidariedade que vence o medo e salva vidas

Celebrado em 14 de junho, data reforça importância da doação regular; entenda como funciona o processo, quem pode doar e como esse gesto salva vidas

Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

Dói? Quanto tempo leva? É seguro? Para quem nunca doou sangue, essas costumam ser as primeiras perguntas. Mas, para quem precisa de uma transfusão, a principal questão é outra: será que vai ter estoque disponível para mim?

Celebrado em 14 de junho, o Dia Mundial do Doador de Sangue convida as pessoas a refletir sobre essa outra perspectiva e reforça a importância de manter os estoques dos hemocentros abastecidos durante todo o ano. Dados do Ministério da Saúde apontam que em 2024, o Brasil registrou 3,31 milhões de coletas de sangue. Entre janeiro e outubro de 2025, foram contabilizadas outras 2,71 milhões, ainda em caráter preliminar. 

Os números ajudam a dimensionar uma rede que atende prontos-socorros, centros cirúrgicos, unidades de terapia intensiva, maternidades, enfermarias e serviços especializados. Para Monique Valerio, especialista em Medicina de Família e Comunidade do Serviço Social da Indústria (SESI), manter essa estrutura funcionando depende de doações regulares ao longo de todo o ano, inclusive em períodos de férias e feriados prolongados, quando o comparecimento costuma cair, mas a demanda dos hospitais continua. 

“O sangue é utilizado em diferentes etapas da assistência hospitalar. Pode ser necessário durante uma cirurgia de grande porte, no suporte a um transplante, em tratamentos contra o câncer, no cuidado de pessoas com anemias graves e leucemias ou no atendimento a vítimas de acidentes. Em muitas dessas situações, a transfusão contribui para estabilizar o paciente, manter o organismo funcionando adequadamente e permitir a continuidade do tratamento. A necessidade de sangue não acontece apenas em datas específicas ou emergências; ela é diária”, afirma a médica do SESI. 

Para quem ainda tem receio de doar, a médica reforça que o procedimento é seguro e que o organismo se recupera naturalmente após a coleta. “Todo o material utilizado é estéril e descartável, o que elimina o risco de contrair doenças durante a doação. O organismo repõe naturalmente o volume doado, sem prejuízos à saúde de quem foi considerado apto. Além disso, o sangue coletado é separado em diferentes componentes, o que permite atender necessidades específicas”, explica Valerio. 

Uma única doação pode ajudar até quatro pessoas 

Depois da coleta, o sangue passa por processamento e exames laboratoriais antes de ser liberado para transfusão. As análises permitem identificar possíveis infecções, determinar o tipo sanguíneo e o fator Rh, seguindo os protocolos de segurança dos serviços de hemoterapia. Na etapa de processamento, o sangue é separado em concentrado de hemácias, plaquetas, plasma e crioprecipitado. Segundo a especialista do SESI, cada componente possui uma função específica.

“As hemácias, por exemplo, auxiliam no transporte de oxigênio e podem ser utilizadas em casos de anemia, hemorragias e cirurgias; as plaquetas contribuem para a coagulação e são importantes para pacientes com risco de sangramento; e o plasma contém proteínas e fatores de coagulação usados em diferentes condições clínicas”.  

A médica ressalta que uma bolsa de sangue não é utilizada necessariamente por um único paciente. “Depois do processamento, os componentes são direcionados conforme a necessidade clínica e podem beneficiar até quatro pacientes. Isso amplia o alcance do gesto e mostra como um procedimento relativamente simples para quem doa pode ter um impacto muito maior dentro da rede de saúde”, assegura. 

A necessidade de reposição contínua dos estoques também está relacionada ao período de armazenamento. Segundo Monique, as plaquetas podem ser utilizadas por até cinco dias, o concentrado de hemácias por até 42 dias e o plasma por até 12 meses. A curta validade de alguns componentes, especialmente das plaquetas, exige que os hemocentros recebam doações regularmente. 

O medo costuma ser maior do que o desconforto 

Entre os receios mais comuns de quem vai doar sangue estão a dor, a possibilidade de passar mal e a sensação de fraqueza após a coleta. Monique explica que o desconforto da agulha é semelhante ao de um exame de sangue e que algumas pessoas podem apresentar tontura leve ou mal-estar passageiro. 

“A maioria se recupera rapidamente e retoma as atividades habituais. Para isso, é importante dormir bem, estar alimentado e hidratado e não comparecer em jejum. Depois da coleta, a orientação é manter a hidratação, alimentar-se normalmente e evitar esforços físicos intensos no mesmo dia”, orienta.

Conheça as orientações:

Pessoas que talvez nunca se conheçam, mas fazem parte da mesma história 

Marielle Leles e o marido, Yuri Deus, já eram doadores quando começaram a vivenciar também a perspectiva de quem precisa receber. Durante o tratamento de Yuri para um transplante de fígado, as transfusões integraram o suporte médico necessário. 

“Nós já sabíamos que doar sangue era importante, porque sempre estivemos do lado de quem doa. Quando passamos pela experiência de quem precisou receber, entendemos de forma ainda mais profunda o impacto que esse gesto pode ter”, relata Marielle. 

Yuri foi diagnosticado com hepatite aguda, que evoluiu rapidamente para um quadro fulminante e levou à necessidade do transplante. “Essas transfusões de sangue foram fundamentais para estabilizar o quadro dele, que era muito grave. Deram suporte ao organismo no momento mais crítico e, principalmente, ajudaram o novo fígado a se adaptar melhor ao corpo. Então, eu digo que as transfusões realmente representaram uma nova oportunidade de vida para o meu marido, além desse novo órgão que ele recebeu”, conta emocionada.

A experiência mostrou ao casal o alcance de uma decisão que contribuiu para a continuidade do tratamento. “Hoje, olhando para a recuperação dele, temos a certeza de que a generosidade das pessoas que decidiram doar sangue fez parte dessa trajetória. Nós estivemos na posição de doadores e, depois, passamos pela posição de quem precisou receber”, complementa a Leles. 

Para o casal, não é necessário esperar que um familiar ou amigo necessite de uma transfusão para compreender a importância de procurar um hemocentro. “A doação é um gesto simples para quem doa, mas pode significar tudo para quem recebe. Pode representar esperança, continuidade de um tratamento e uma nova oportunidade de vida.” 

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