O crescimento do El Niño nos próximos meses pode impactar severamente o setor produtivo no Brasil, principalmente nas regiões Norte e Sul. O tema foi discutido nesta terça-feira (27), durante a reunião conjunta entre os Conselhos de Meio Ambiente e Sustentabilidade (Coemas) e de Infraestrutura (Coinfra) da Confederação Nacional da Indústria (CNI).
Dados científicos que apontam para a elevada probabilidade de um El Niño histórico em 2026/2027 foram apresentados pelo coordenador-geral de Ciência do Clima no Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), Márcio Rojas da Cruz. Segundo ele, anomalias térmicas podem superar os 2,5º C no Pacífico Equatorial com a possibilidade de um Super El Niño.
Ao avaliar o cenário climático e a necessidade de planejamento, Rojas enfatizou o papel da evidência científica na gestão pública.
“A ciência é necessária no processo de tomada de decisão, mas não é suficiente. Ela faz parte de um ciclo com questões políticas e sociais. O desafio do clima fica concreto quando falamos de eventos extremos e eles estão se mostrando mais frequentes e intensos”, destacou.
O especialista adiantou ainda que o ministério lançará em breve uma cartilha sobre o fenômeno para orientar gestores e a sociedade sobre os impactos dos novos eventos climáticos extremos.
Lideranças defendem integração entre infraestrutura e sustentabilidade
Durante os debates, as lideranças da CNI reforçaram a necessidade de soluções institucionais céleres.
O presidente do Coinfra, Alex Carvalho, ressaltou que a infraestrutura hidroviária precisa avançar com base em evidências técnicas. Segundo ele, temas como navegação e dragagem do leito dos rios, principalmente na Amazônia, necessitam de integração entre governo e setor produtivo e do entendimento da importância da navegabilidade com aspectos econômicos, sociais e ambientais.
“O que queremos propor é uma agenda com todos os elementos de natureza ambiental e científica para que possamos construir coletivamente algo necessário: a infraestrutura das hidrovias precisa evoluir, permitindo maiores investimentos para que tenhamos um ganho sensível”, destacou Alex Carvalho.
O diretor de Relações Institucionais da CNI, Roberto Muniz, defendeu a sinergia entre as pautas ambientais e de infraestrutura. Para ele, essa integração permite entender o que é desenvolvimento sustentável.
Ele também lembrou que, em agosto, o Coinfra, manifestou preocupação com a decisão do governo federal de não autorizar a dragagem emergencial no Rio Tapajós. A CNI alertou que o adiamento dessa providência preventiva e tecnicamente delimitada, voltada para enfrentar pontos críticos sem custos para o poder público, amplia o risco de interrupção da navegação em um corredor logístico estratégico em um "Super El Niño".
“É uma coalizão importante entre Coemas e Coinfra, pois são agendas complementares e não conflitantes. Precisamos olhar a agenda do amanhã. Precisamos usar o benefício da tecnologia e da ciência em favor do estado. Precisamos acreditar que o El Niño é capaz de causar estragos em todo o país e que ele também vai acontecer no Tapajós. Temos números, indicadores, as consequências, e ainda assim não conseguimos antecipar essa mitigação", ressaltou Muniz.
O presidente do Coemas, Marcelo Thomé, chamou a atenção para a necessidade de um instrumento de resposta sobre esses indicadores para os setores produtivos. Segundo ele, apenas os setores de seguros e o financeiro conseguiram avançar na pauta.
"Isso é risco para a vida das pessoas, desabastecimento, impacto social e econômico. Precisamos pensar em como podemos ajudar os setores, criar um mecanismo para ter uma resposta mais rápida de retroalimentação aos setores econômicos, inclusive industriais, bebendo da fonte da ciência, porque está evidente que em ciclos mais curtos o El Niño impactará cada vez mais”, salientou.
El Niño pode ter pico histórico entre novembro e dezembro
A análise dos impactos econômicos e setoriais foi detalhada pelo economista e especialista Julio Cesar da Cunha Lopes, do Banco do Brasil.
De acordo com os dados apresentados por Cunha Lopes, o atual episódio de El Niño demonstra uma velocidade de intensificação superior à registrada no evento de 2015/16, com anomalias térmicas no Pacífico variando entre 3,0 °C e 3,7 °C. Esse nível coloca o fenômeno em patamar de destaque na série histórica desde a década de 1950.
Segundo ele, o pico de intensidade do El Niño está previsto para acontecer entre novembro e dezembro. Por isso, os próximos dois meses serão decisivos para o planejamento das atividades produtivas em todo o país. Um fator positivo destacado pelo BB é que a umidade e o reservatório de água no solo estão em bons níveis na maior parte do Brasil, o que confere certa resiliência inicial para a arrancada do plantio.
Seca no Norte, chuvas no Sul
A previsão climática do BB aponta para um cenário mais quente e menor volume de chuvas na região do Matopiba (Maranhão, Tocantins, Piauí) e em partes do Centro-Oeste entre novembro e dezembro, com risco de frustração de safras de grãos, cereais e oleaginosas.
O setor de logística também enfrenta problemas com o rebaixamento dos rios amazônicos. A capacidade de carga dos navios nos rios do Norte sofreu queda expressiva. No Porto de Manaus, por exemplo, uma redução do calado de 11,5 m para 8,3 m em cenários severos representa uma perda de 55% na capacidade de transporte de contêineres e um aumento de até 147% no custo do frete marítimo.
No Rio Tapajós e no Rio Madeira, as vazões abaixo do normal dificultam o transporte de combustíveis, fertilizantes, milho e soja.
Enquanto o Centro-Norte sofre com o calor e a seca, a Região Sul, especialmente o Rio Grande do Sul, enfrentará um cenário oposto no final do ano, com chuvas volumosas acumuladas ao longo de vários dias.
O estudo do Banco do Brasil ainda alerta que a probabilidade de alagamentos municipais pode aumentar em mais de 4 pontos percentuais durante um Super El Niño.
“Esse excesso de chuva compromete diretamente a infraestrutura urbana e viária das cidades, provocando alagamentos, danos a pontes e interdições de rodovias, além de prejudicar o escoamento de safras aos portos de Paranaguá e Rio Grande”, afirmou Cunha Lopes.
Conheça o Guia da Indústria para Adaptação à Mudança do Clima: https://noticias.portaldaindustria.com.br/noticias/saude-e-qualidade-de-vida/el-nino-aumenta-risco-de-eventos-extremos-e-desafia-industria-no-brasil/



