Ex-docente do SENAI é referência em empreendedorismo e inovação

Trajetória da professora baiana Mel Campos mostra que a educação deve ser o ponto de partida para a transformação social
Mel (a esquerda com as duas mãos na cintura) começou no SENAI como uma professora temporária

Educar é a missão do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI). Antes mesmo de definir qual área seguir, Mel Campos, 39 anos, sentia que também tinha um papel a cumprir. “Desde muito cedo, eu sabia que queria compartilhar conhecimento. E achava que tinha habilidade para ensinar pessoas”. Em 2012, essas duas histórias se encontraram. Além da formação profissional e da qualificação para o mercado de trabalho de centenas de estudantes, motivaram os alunos a acreditarem e buscarem um futuro melhor.

No Dia da Consciência Negra - comemorado em 20 de novembro - a trajetória de Mel como docente das unidades de Dendezeiros, Lapinha e Lauro de Freitas, em Salvador, mostra que a educação deve ser o ponto de partida para a transformação social. “Mulher, negra, mãe, impulsionadora do empreendedorismo feminino e preto”, como ela mesmo se define, a ex-docente nunca parou de se qualificar. Para um público diverso de jovens e adultos, com idade entre 16 a 60 anos, foi professora e inspiração.

Atualmente, é subcoordenadora da In pacto, incubadora de negócios sociais do governo municipal. Função que concilia com a de designer na própria empresa, a Duma Estúdio Criativo, a de diretora de arte audiovisual freelancer e a de diretora da Associação dos Designers Gráficos (ADG Brasil). Sem contar a organização e participação em eventos e desafios, como o Bahia Faz Design, de um coletivo de designers, realizado em parceria com o SENAI Cimatec.

Na próxima semana, ela compõe a mesa redonda Perfil do profissional inovador, na Semana SENAI de Inovação - evento on-line e gratuito que acontece simultaneamente em todos os 26 Estados e no DF, com rodadas de negócios e premiações.

A vontade de trabalhar no SENAI existia desde a faculdade

A professora saiu de Teixeira de Freitas, que fica a 854 km da capital, ainda na barriga da mãe. Ambas moraram em um orfanato de Salvador e, enquanto a mãe trabalhava como empregada doméstica, Mel estudou em colégios internos e escolas particulares com bolsas para alunos da periferia. Em 2010, antes mesmo de se formar como designer no Centro Universitário Jorge Amado (Unijorge), por meio do ProUni, ela fez um primeiro teste para docente do SENAI. 

“Desde muito cedo, eu sabia que queria compartilhar conhecimento" - Mel Campos

“Surgiu oportunidade de professora temporária, no curso de Comunicação do SENAI. Fiz algumas especializações, abri agência de design, e continuei com as aulas por demanda. Depois, fui contratada como professora efetiva”, lembra.

Começou com as disciplinas de Design, Comunicação Visual e Rede de Computadores, incluindo Percepção visual, História da arte, Ferramentas gráficas, Teoria da cor, Projetos Gráficos, Embalagem, Metodologia de projeto e Projeto de Final de Curso.

A partir de um MBA, começou a trilhar o caminho da inovação e do empreendedorismo, temas dos cursos técnicos mediados por tecnologia que ministrou também no SENAI. Um universo do qual nunca mais saiu e que, em sua visão, precisa se diversificar.

Representatividade e decisão


“Ainda é um campo muito branco por conta do acesso às tecnologias na base da educação, de poder conhecer, estudar, até mesmo falar outras línguas, porque os materiais e ferramentas são em inglês”, observa.


A ausência ou pouca representatividade em lugares de decisão também é chave. “Me percebi nesses espaços e perguntando como eu mudo isso. É ocupando, porque as pessoas é que transformam. Se não estão nesses espaços, as soluções não vêm preparadas para esse grupo. Tem que oportunizar para as pessoas crescerem”, diz, com a experiência de quem passou pelo extinto Conselho Nacional de Política Cultural (CNPC) e criou um Grupo de Trabalho de designers pretos na ADG Brasil.

Avanços que começam em sala de aula. Ao lembrar que as barreiras para estudantes negros passam ainda por questões de classe social, gênero e sexualidade, Mel reforça que a conscientização das desigualdades e as oportunidades não devem se restringir à data de 20 de novembro.

Outro ponto para o qual chama atenção é que os alunos precisam se fortalecer não só do ponto de vista de formação, mas também psicologicamente. “Quando ouviam minha história, se identificavam e sentiam empatia. Sonho com o dia em que vamos falar só empreendedorismo, não empreendedorismo preto. Que a diversidade esteja tão bem aplicada que não exista essa separação”, vislumbra.

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