Como levar equidade e inclusão para a prática em sala de aula?

No encerramento do 4º Seminário Internacional de Educação Inclusiva do SESI, educadores vivenciaram oficinas que mostraram como pequenas mudanças podem transformar a realidade nas escolas

Participantes utilizaram vendas durante uma atividade de pintura para experimentar os desafios da percepção sem a visão e refletir sobre estratégias de inclusão em sala de aula. Foto: Leudo Lima / CNI

Fortaleza (CE) – O 4º Seminário Internacional de Educação Inclusiva do SESI encerrou a programação, nesta sexta-feira (31), com um circuito de oficinas pedagógicas. Ao longo da tarde, professores, gestores e profissionais de educação viveram experiências desenvolvidas para mostrar como a inclusão pode chegar à sala de aula.

As oficinas foram conduzidas por profissionais do Serviço Social da Indústria (SESI) e diferentes estados brasileiros, selecionados por meio de edital promovido pela Federação das Indústrias do Estado do Ceará (FIEC). As propostas foram submetidas nas modalidades de relatos de experiência e oficinas pedagógicas, com o objetivo de compartilhar práticas inovadoras, fortalecer a cultura inclusiva e ampliar a troca de experiências entre profissionais da educação.

As propostas contemplaram quatro eixos temáticos: Formação Docente e Cultura Inclusiva; Atendimento Educacional Especializado (AEE); Articulação Intersetorial entre Educação e Saúde; e Inovação e Tecnologia Assistiva. Divididos por cores de pulseiras, os participantes passaram por 3 oficinas ao longo da tarde. As atividades tiveram duração de 50 minutos e foram repetidas pelos mesmos oficineiros para garantir que todos os participantes tivessem acesso às experiências.

O primeiro passo é enxergar o outro

A primeira oficina, "No meu lugar – Vivências pela Inclusão", foi conduzida pela psicóloga escolar do SESI Santa Catarina, Juacély Raquel Cruz Sanches, e reuniu cerca de 50 participantes em uma sala organizada como qualquer outra sala de aula. Sobre as mesas, apenas uma folha de papel, uma caneta e uma venda. O público, por alguns minutos, voltou a ocupar o lugar de estudantes.

Em duplas, um participante era vendado enquanto o outro precisava conduzi-lo utilizando apenas comandos de voz durante um pequeno percurso. As instruções pareciam simples. "Vire para o lado." Qual lado? "Ande para frente." Quantos passos? O que parecia um trajeto de poucos metros rapidamente se transformou em um desafio.

Os participantes também precisaram identificar cheiros, fazer leitura labial e desenhar utilizando a boca ou os pés. Situações que fazem parte da rotina de muitas pessoas com deficiência passaram a ser experimentadas pelos próprios educadores. A proposta não era reproduzir exatamente a vivência dessas pessoas, mas criar oportunidades para refletir sobre as barreiras que elas enfrentam diariamente.

"Quando a gente vive algum momento como essas pessoas vivem, isso abre a nossa mente para se colocar no lugar do outro. Muitas vezes é fácil falar como elas vivem, mas experimentar isso é bem diferente", explicou.

Segundo Juacély, muitas dessas atividades podem ser levadas para dentro das escolas como forma de sensibilizar estudantes e construir ambientes mais acolhedores.

A dinâmica convidou os participantes a percorrer pequenos trajetos vendados, guiados por um colega, para refletir sobre os desafios enfrentados por pessoas com deficiência visual no dia a dia. Foto: Leudo Lima / CNI

Quem cuida também precisa ser cuidado

Dessa vez, a sala era diferente. As cadeiras formavam um círculo. As luzes permaneciam apagadas. Uma música ambiente ocupava o espaço. O convite foi para fechar os olhos. Vieram três respirações profundas. Depois, as mãos entrelaçadas. Um carinho no próprio rosto. Um abraço em si mesmo.

"Eu me acolho. Eu me respeito. Eu estou aqui. Cuidar de mim é um ato de merecimento."

Assim começou a oficina "Entre o cuidado e o cansaço: quem sustenta a inclusão? Autorregulação emocional e fortalecimento socioemocional de educadores em contextos inclusivos", conduzida por Dalmo Araújo dos Santos, coordenador de Educação Especial do SESI Bahia e estudante de psicologia. 

Em seguida, Dalmo fez um novo convite. Quem quisesse poderia levantar para abraçar outra pessoa da sala. Por alguns segundos, ninguém se moveu. Os olhares tímidos se cruzaram até que uma participante deu o primeiro passo. Aos poucos, toda a sala se levantou. Ao longo da oficina, o educador conduziu reflexões sobre saúde mental, autocuidado e a importância de estabelecer limites em uma profissão marcada pelo cuidado constante com o outro.

"O 'não' é libertador. A pessoa que diz 'sim' para todo mundo não diz 'sim' para ela mesma. Ela vive em função do outro, se anula. Até que ponto o seu corpo consegue ir? Estabelecer limites não é ofender o outro. É amadurecer. Se você está aqui, é porque é bom. É porque precisa estar aqui", defendeu. 

 Ao som de uma música, todos começaram a dançar de olhos fechados. A música parou, mas a orientação era continuar dançando. Ela voltou. Parou novamente. Foi então que Dalmo lançou uma pergunta: "Você está dançando no seu ritmo ou no ritmo que colocam para você?" 

Por último, cada participante recebeu uma bexiga e escreveu nela aquilo que estava causando ansiedade, incômodo ou sofrimento. Depois, quem terminou ficou de pé e duplas foram formadas entre pessoas que, muitas vezes, nunca haviam conversado antes. Cada um segurou o balão do outro, um último convite foi feito: estourá-lo.  Alguns participantes choraram, outros se abraçaram. A atividade mostrou que dividir o peso também faz parte do cuidado.

"A inclusão não se sustenta apenas em metodologias. Ela se sustenta em pessoas. E pessoas precisam ser acolhidas, respeitadas e cuidadas. Quando o professor encontra espaço para respirar, ele também encontra força para acolher seus estudantes", ensinou Dalmo. 

Em roda, educadores participaram de momentos de relaxamento, escuta e troca de experiências durante oficina voltada ao fortalecimento socioemocional e à saúde mental docente. Foto: Leudo Lima / CNI

Experimentar para incluir

Se nas oficinas anteriores os participantes foram convidados a vivenciar desafios enfrentados por pessoas com deficiência e refletir sobre o cuidado com quem ensina, a terceira experiência mostrou que a inclusão também começa no planejamento das atividades.

Conduzida por Nandara Maciel de Alencar, do SESI Mato Grosso, a oficina "A experimentação como estratégia pedagógica inclusiva nas diferentes áreas do conhecimento" transformou a sala em um laboratório. Em meio a conversas paralelas, pedidos de silêncio e grupos tentando encontrar respostas, a cena lembrava uma sala de aula comum. Mas logo veio a pergunta que guiaria toda a dinâmica.

"Uma atividade prática é automaticamente inclusiva?"

Enquanto realizavam os experimentos, os participantes eram convidados a identificar as barreiras que poderiam impedir a participação de um estudante e pensar em estratégias para superá-las.

"Quando a gente traz o experimento científico, com hipóteses, suposições e reflexão sobre os resultados, ele pode ajudar na aprendizagem. Mas o processo é tão importante quanto o resultado. O foco é pensar em processos pedagógicos inclusivos", explicou Nandara.

Para a professora de Linguagens do SESI-CE, Fernanda Paulino, a atividade mostrou que pequenas adaptações fazem diferença para ampliar a participação dos estudantes.

"A principal barreira que identificamos foi o material. Um prato pode quebrar e gerar frustração. O aluno pode desistir da atividade ou se desregular. Então pensamos em alternativas, como substituir materiais, adaptar ferramentas e fazer primeiro a demonstração. Às vezes, ver o professor realizando a atividade dá mais segurança para que o estudante tente também."

Ao final, a conclusão era compartilhada entre os grupos: uma atividade prática não é inclusiva apenas por ser diferente. Ela se torna inclusiva quando o professor antecipa barreiras, adapta recursos e cria oportunidades para que todos participem da aprendizagem.

Durante os experimentos, os grupos precisaram identificar possíveis barreiras à participação e adaptar materiais e estratégias para que todos conseguissem realizar a atividade. Foto: Leudo Lima / CNI

Abraçar a diversidade começa pelo acolhimento

Depois de uma tarde dedicada às oficinas, o encerramento do seminário voltou os olhares para quem, todos os dias, sustenta a inclusão dentro das escolas. Na palestra "Cuidar para Inspirar: A importância de acolher quem educa", o neurocientista, educador e escritor Fernando Lauria defendeu que uma educação inclusiva começa pelo acolhimento de quem ensina.

"Acolher não é consertar. Acolher é a possibilidade de deixar o outro ser como ele é. Mas, para deixar o outro ser quem ele é, preciso ter liberdade para ser quem sou", afirmou.

Para Lauria, educar vai além da transmissão de conhecimento. É um encontro entre pessoas. Em muitos casos, o professor se torna a principal referência de segurança e afeto na vida de uma criança.

"Dentro da sala de aula podemos transformar o cérebro desse estudante. Se eu não mudar meu olhar para abraçar a diversidade e receber quem é diferente, eu também deixo de crescer", disse.

Fernando Lauria destacou que construir uma cultura de inclusão também passa pelo cuidado com quem educa e pelo fortalecimento das relações dentro da escola. Foto: Leudo Lima / CNI

Ao defender que o cuidado precisa fazer parte da rotina das escolas, Lauria ressaltou que ele não se limita a momentos pontuais, mas deve orientar as relações entre educadores, estudantes e gestores.

"Quando encontro escuta, ofereço presença. Quando encontro confiança, ofereço segurança. Quando encontro apoio, ofereço disponibilidade. Quando encontro reconhecimento, ofereço encorajamento. Quando encontro pertencimento, eu tenho a possibilidade de oferecer um acolhimento transformador."

Segundo ele, fortalecer uma cultura inclusiva exige coerência entre o discurso e a prática.

"O cuidado não é um gesto eventual. Cultura só se constrói com aquilo que é praticado todos os dias. Estamos reunidos aqui para construir essa cultura de inclusão. Quando vocês voltarem para as escolas, coloquem a mão na massa."

Ao encerrar o seminário, a palestra reforçou uma das principais mensagens dos dois dias de programação: construir uma escola inclusiva exige novas estratégias de ensino, mas também passa pelo cuidado com as pessoas que fazem a educação acontecer todos os dias.

Quer conferir a palestra na íntegra? Assista à transmissão abaixo.

Sobre o seminário

Promovido pelo Serviço Social da Indústria (SESI), em parceria com a Federação das Indústrias do Estado do Ceará (FIEC) e o Conselho Nacional do SESI (CN-SESI), o 4º Seminário Internacional de Educação Inclusiva reuniu, em Fortaleza (CE), mais de 600 educadores, gestores, pesquisadores e especialistas de todo o país. Ao longo de dois dias, o evento promoveu palestras, mesas-redondas, relatos de experiência e oficinas voltados ao compartilhamento de práticas e estratégias para fortalecer uma educação mais acessível, equitativa e inclusiva.

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