Fortaleza (CE) – O Teatro RioMar Fortaleza reuniu, nesta quinta-feira (30), educadores, pesquisadores e especialistas de todas as regiões do país para a primeira ativade do 4º Seminário Internacional de Educação Inclusiva do Serviço Social da Indústria (SESI). Realizado em parceria com a Federação das Indústrias do Estado do Ceará (FIEC) e o Conselho Nacional do SESI (CN-SESI), o evento, que segue até esta sexta-feira (31), tem como objetivo discutir caminhos para construir uma educação mais igualitária, acessível e inclusiva. A programação inclui muita troca de experiências e apresentações de iniciativas que mostram como a inclusão pode sair da teoria e ganhar forma no cotidiano das escolas.
Mais do que compartilhar projetos bem-sucedidos, os relatos reforçaram que incluir vai além de adaptar atividades ou desenvolver materiais específicos para um estudante. A ideia começa no planejamento e se concretiza na construção de ambientes de aprendizagem em que todos tenham oportunidades de participar, aprender e se desenvolver juntos.
O tema também ganha força com o avanço da educação inclusiva no país. De acordo com o Censo Escolar 2024, o Brasil alcançou 2,1 milhões de matrículas na educação especial, um crescimento de 58,7% em relação a 2020. Atualmente, 95,7% dos estudantes da educação especial entre 4 e 17 anos estão matriculados em classes comuns do ensino regular, o que reforça a necessidade de preparar escolas e professores para garantir não apenas o acesso, mas também a participação efetiva desses alunos.
Do laudo ao aluno
Quem abriu a programação de cases foi o professor André Schliemann, do Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB), com a palestra "Do laudo ao aluno: relato de uma trajetória na Educação Física com estudantes autistas".
Há mais de duas décadas, Schliemann atua na formação de professores e no desenvolvimento de estratégias voltadas à inclusão de estudantes com Transtorno do Espectro Autista (TEA). Integrante do Programa de Educação Paralímpica do CPB, o especialista participa de ações de formação continuada em parceria com instituições de ensino, entre elas o SESI, levando práticas baseadas em evidências para educadores de diferentes regiões do país.
"Não existe fórmula mágica para a inclusão. O caminho é investir na formação dos professores. Quanto mais preparados eles estiverem, mais ferramentas terão para contribuir com o desenvolvimento dos estudantes", afirmou.
Apoiar para promover autonomia
A importância de olhar para além do diagnóstico também norteou o relato de Georgine Fabrinne Vilhena Mouta, do SESI Maranhão. A professora apresentou a experiência do Atendimento Educacional Especializado (AEE) no processo de readaptação escolar de um estudante autista e destacou que o trabalho vai muito além do suporte pedagógico.
Segundo ela, um dos maiores desafios da educação inclusiva é evitar que o diagnóstico se torne a identidade do estudante dentro da escola. "Precisar de um apoio permanente não significa precisar de ajuda para sempre", afirmou.
Georgine explicou que o Atendimento Educacional Especializado deve fortalecer a autonomia dos estudantes, preparando-os para participar das atividades junto com a turma. Nesse processo, as adaptações precisam ampliar as possibilidades de participação, e não criar percursos paralelos. "Adaptar não é isolar", ressaltou.
Inteligência artificial amplia possibilidades, mas não substitui o professor
Se a inclusão passa por compreender as necessidades de cada estudante, como fazer isso em uma sala de aula com dezenas de alunos? Foi a partir dessa provocação que Henrique Pereira Guimarães Andras, da Bitlearn, apresentou como a inteligência artificial pode apoiar professores na adaptação de materiais didáticos e atividades pedagógicas.
O especialista chamou atenção para um equívoco comum sobre o uso da tecnologia. "Muitas pessoas acham que a inteligência artificial vai facilitar porque, com o diagnóstico, ela vai entender o problema e adaptar o material. Mas, mesmo com o mesmo diagnóstico, as diferenças são individuais", disse.
Para Henrique, o papel da IA não é substituir o professor, mas oferecer ferramentas que antecipem adaptações antes mesmo do início da aula. "Quando antecipamos a variabilidade, conseguimos preparar atividades para que o aluno participe junto com a turma."
A solução apresentada usa informações como a barreira enfrentada pelo estudante, a intensidade dessa dificuldade e o contexto em que ela ocorre para sugerir adaptações pedagógicas. A decisão final, entretanto, continua sendo do professor, que valida as recomendações de acordo com a realidade da sala de aula.
Entre os exemplos apresentados estão a reorganização de textos em tópicos, a adaptação de materiais didáticos para diferentes perfis de aprendizagem e a criação de recursos que favorecem a participação de todos os estudantes sem separá-los do restante da turma.
O banco de cases também contou com a participação de Alessandra Cristina Lopes, do SESI Santa Catarina, que apresentou a experiência da rede na construção de trajetórias de pertencimento e protagonismo de estudantes com deficiência. Já Josiane de Paiva Chagas, do SESI Distrito Federal, compartilhou práticas que unem literatura inclusiva, musicalização e inteligência artificial para ampliar a acessibilidade pedagógica.
Programação segue até sexta-feira (31)
O 4º Seminário Internacional de Educação Inclusiva do SESI continua nesta sexta-feira (31). As atividades serão realizadas no SESI Barra do Ceará, com oficinas formativas voltadas a educadores e profissionais da área. O encerramento será com a palestra "Cuidar para Inspirar: A importância de acolher quem educa", ministrada pelo professor Fernando Lauria, além de apresentações culturais.





