CNI defende posição unificada para avançar na descarbonização do transporte marítimo

Brasil tem oportunidade de ampliar protagonismo dos biocombustíveis, especialmente etanol, como alternativa para reduzir emissões nesse tipo de modal, mas transição deve ser gradual e equilibrada

Foto: Gilberto Sousa/CNI

A regulamentação internacional da descarbonização do transporte marítimo, em discussão na Organização Marítima Internacional (IMO), representa uma oportunidade estratégica para o Brasil fortalecer sua competitividade e consolidar o protagonismo dos biocombustíveis na transição energética global. Com uma nova etapa decisiva das negociações prevista para dezembro de 2026, representantes do governo, da indústria, do setor produtivo e da navegação defenderam, nesta terça-feira (4), a construção de uma posição nacional unificada para influenciar o debate internacional.

O assunto foi tema do Diálogo sobre a Descarbonização do Transporte Marítimo, Competitividade e Sustentabilidade da Indústria Brasileira, evento promovido pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), em parceria com o Ministério da Defesa e a Bioenergia Brasil. O encontro reuniu dirigentes da indústria, representantes do Conselho Temático da Agroindústria (Coagro), integrantes de diversos ministérios e lideranças empresariais para discutir iniciativas e políticas públicas voltadas à redução das emissões de gases de efeito estufa no transporte marítimo.

Ao longo do encontro, houve consenso entre governo e iniciativa privada de que o Brasil reúne condições para liderar a transição energética no transporte marítimo, desde que a regulamentação internacional reconheça o potencial dos biocombustíveis e assegure uma transição justa, gradual e competitiva.

Como cerca de 96% das mercadorias brasileiras exportadas, em toneladas, são transportadas por via marítima, a definição das futuras regras internacionais poderá impactar diretamente a competitividade da economia nacional. Por isso, o Brasil tem acompanhado ativamente as negociações na IMO, por meio da atuação do Ministério da Defesa, da Marinha do Brasil e do Ministério das Relações Exteriores, buscando garantir que as características da economia brasileira sejam consideradas na construção do novo marco regulatório.

Na visão da CNI, a transição energética no transporte marítimo precisa ser conduzida de forma gradual, racional e economicamente sustentável, preservando a competitividade da indústria brasileira e reconhecendo o papel estratégico dos biocombustíveis produzidos no país. Para a instituição, o processo de descarbonização deve promover ganhos ambientais sem criar barreiras comerciais ou ampliar desigualdades entre países. Além de reduzir emissões, a regulamentação internacional necessita incentivar soluções tecnológicas capazes de aproveitar as vantagens competitivas brasileiras, especialmente na produção de combustíveis renováveis.

Voz única do Brasil

Na abertura do evento, o diretor de Relações Institucionais da CNI, Roberto Muniz, ressaltou a importância da articulação entre governo e setor produtivo para consolidar uma estratégia nacional. Segundo o dirigente, o debate reúne diferentes segmentos da cadeia produtiva — produtores, exportadores, armadores, consumidores e fabricantes de equipamentos — e exige uma atuação coordenada. “O mais importante neste momento é a articulação para que possamos representar uma voz unificada do Brasil”, disse. 

Muniz destacou ainda que discutir o transporte marítimo significa discutir o futuro da competitividade brasileira. Para ele, o país precisa demonstrar ao mundo que a expansão da produção de biocombustíveis pode ocorrer de forma sustentável, sem pressão sobre o desmatamento e com sistemas de rastreabilidade já consolidados em diferentes cadeias produtivas.

Presentes na mesa da abertura, o ministro da Defesa, José Múcio Monteiro, classificou a iniciativa como inovadora e estratégica para ampliar a competitividade do país; o comandante da Marinha, Almirante Marcos Sampaio Olsen, defendeu a construção de uma posição nacional coesa para promover prosperidade econômica e sustentabilidade ambiental; e o presidente do Coagro, Pedro Robério Nogueira, destacou que a agenda transcende governos e deve ser tratada como uma política de Estado.

Veja as fotos do evento:

04 07 26 - Descarbonização do Transporte Maritimo

Etanol desponta como alternativa imediata

Representantes da cadeia produtiva do etanol defenderam o combustível como uma solução pronta para contribuir com a descarbonização da navegação. O presidente da Bioenergia Brasil, Mário Campos, destacou quatro pilares considerados essenciais para o avanço da agenda: regulação, infraestrutura, desenvolvimento de mercado e cenário geopolítico internacional. Segundo ele, o setor produtivo brasileiro está preparado para transformar o país em referência mundial no fornecimento de etanol para o transporte marítimo.

Na mesma linha, Tomas Manzano, CEO da Copersucar, afirmou que o Brasil já possui uma solução de aplicação imediata. Segundo ele, o etanol produzido no país pode reduzir em até 75% as emissões de carbono em comparação aos combustíveis fósseis utilizados atualmente na navegação.

Para Gustavo Leite, da Inpasa, o Brasil precisa atuar simultaneamente em diferentes frentes regulatórias para garantir a aprovação das regras internacionais. Ele destacou que já existem cerca de 440 navios aptos a operar com etanol, demonstrando que o mercado já começou a se estruturar. Na avaliação do executivo, o país deve construir uma narrativa unificada em defesa dos benefícios ambientais e econômicos dos biocombustíveis e buscar diálogo internacional para viabilizar um acordo na IMO.

Competitividade depende de regulação internacional

Os desafios da implementação das novas regras e seus impactos sobre a competitividade da indústria brasileira foram discutidos por representantes de empresas de transporte e logística. O head de vendas da Wärtsilä, Mario Barbosa, afirmou que testes realizados pela empresa apontam o etanol como uma das alternativas mais promissoras para a descarbonização do transporte marítimo. Segundo ele, um motor movido a etanol está em fase final de desenvolvimento no Complexo de Suape, em Pernambuco, mas a regulamentação internacional é fundamental para ampliar sua adoção pelos armadores.

O head de Relações Institucionais da Maersk, Danilo Veras, reforçou o interesse da empresa em ampliar investimentos no Brasil e informou que a companhia pretende operar, até 2030, uma frota de 40 navios aptos ao uso de etanol, destacando a relevância do país na construção dessa solução. Já Flávio Ribeiro, CEO da Bunker One, chamou atenção para a necessidade de o país avançar também na regulamentação doméstica do uso do etanol como combustível marítimo e para os desafios geopolíticos que envolvem a aprovação das novas regras.

Representantes da Vale, Santos Brasil, Suzano e MSC defenderam uma transição energética que preserve a competitividade da indústria e alertaram para os riscos de medidas unilaterais, como taxas ou sobretaxas regionais, que possam elevar custos e fragmentar a regulação internacional.

Brasil pode ser um dos principais beneficiados

O chefe da Divisão de Negociação Climática do Ministério das Relações Exteriores (MRE), Bruno Arruda, afirmou que há consenso internacional sobre a necessidade de descarbonizar o transporte marítimo, mas que o desafio está na construção de uma regulamentação equilibrada.

Segundo ele, uma transição gradual permitirá reduzir custos para exportadores e consumidores, ao mesmo tempo em que abrirá espaço para que países produtores de energia renovável, como o Brasil, sejam protagonistas na oferta de soluções para o setor.

O diplomata alertou que a ausência de um acordo global poderá resultar na adoção de normas diferentes por países e blocos econômicos, criando um ambiente regulatório fragmentado e aumentando a insegurança para o comércio internacional. Nesse contexto, reforçou que a participação ativa do setor privado será decisiva para a construção de uma posição brasileira forte nas negociações da IMO.

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