Todos contra a covid-19

Sistema indústria e fabricantes se mobilizam para ajudar no enfrentamento ao coronavírus, adaptando linhas de produção e dando suporte ao sistema de saúde
Mesmo com dificuldades, devido às restrições no fornecimento de matéria-prima ou ao deslocamento de pessoas, fábricas ajustaram sua produção para manter o abastecimento do país com alimentos, medicamentos e equipamentos hospitalares

A pandemia do coronavírus mudou a rotina dos brasileiros e levou a indústria – num esforço que une de pequenas a grandes empresas – a buscar diferentes soluções para enfrentar o vírus e seus efeitos sobre a saúde e a economia do país. Esse esforço inclui desde mudanças na linha de produção e organização das fábricas para aumentar a oferta de produtos que passaram a ser mais demandados, como sabonete e álcool em gel, ao treinamento de equipes para construírem e consertarem respiradores artificiais ou produzirem máscaras de proteção.

Em Santa Catarina, a WEG, fabricante de equipamentos eletroeletrônicos, passou produzir, no final de março, álcool em gel 70% para abastecer os hospitais públicos de Jaraguá do Sul e Guaramirim. A produção está sendo feita na fábrica de tintas e vernizes da companhia, que já detinha a tecnologia para fabricar o álcool em gel. “Nosso objetivo foi suprir as necessidades de alguns hospitais que já enfrentam problemas de abastecimento relacionados à alta demanda do produto”, afirma Manfred Peter Johann, diretor superintendente da WEG Automação. 

"Antes de tudo, somos cidadãos que devem oferecer a sua parte nesse esforço de guerra para vencermos essa situação delicada” Humberto Barbato presidente da Abinee

A empresa também passou a usar a estrutura das fábricas de Jaraguá do Sul (SC) para produzir ventiladores pulmonares a serem usados por pacientes com covid-19. Johann explica que foi assinado um acordo de transferência de tecnologia com a empresa Leistung Equipamentos, fabricante de equipamentos médico-hospitalares, o que permitirá produzir, inicialmente, 50 unidades por mês. “Apesar de estarmos trabalhando com uma certa redução de pessoas em algumas áreas, decidimos ajudar também na fabricação dos ventiladores pulmonares”, explica o executivo.

A exemplo do que foi feito nos Estados Unidos, montadoras de veículos no Brasil também poderão passar a produzir respiradores. Em nota oficial, a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) informou que 37 fábricas que estão paradas no Brasil poderão construir respiradores e outros equipamentos usados no tratamento da covid-19. Uma das ideias é usar impressoras 3D para fabricar peças de ventiladores. Em Minas Gerais, a construtora MRV e empresas do mesmo grupo destinaram R$ 10 milhões para a compra de respiradores mecânicos a serem destinados à rede hospitalar estadual.

Também com o objetivo de reforçar a oferta de respiradores artificiais e de outros produtos usados no combate aos sintomas da covid-19, as indústrias do setor eletroeletrônico decidiram redirecionar suas linhas de produção, segundo informação da Associação Brasileira da Indústria Eletroeletrônica (Abinee). Enquanto a Flex vai começar a produzir ventiladores pulmonares, a Positivo Tecnologia, num esforço conjunto com outras empresas do setor, se mobilizou para contribuir com a produção e o fornecimento de componentes necessários para a montagem desse tipo de ventilador.

Humberto Barbato, presidente da Abinee, afirma que o Brasil possui uma estrutura de fabricação local de alta tecnologia no setor eletroeletrônico e isso permite que as empresas possam adaptar suas linhas de produção para atender a demandas em caráter de urgência. “Antes de tudo, somos cidadãos que devem oferecer a sua parte nesse esforço de guerra para vencermos essa situação delicada”, lembra ele. O setor, que usa muitos insumos da China, estava com 24% de sua produção parcial ou totalmente paralisada no começo de abril devido à pandemia.

Monitoramento

Já a LG firmou parceria com o Hospital Israelita Albert Einstein para doar equipamentos eletrônicos aos hospitais de campanha construídos pela prefeitura de São Paulo. A Nokia criou o Epidemic Prevention System, sistema que permite que o governo federal, os estados e as prefeituras identifiquem áreas de aglomeração e pessoas vulneráveis e, com isso, controlem as quarentenas. Adotado na China para monitorar o isolamento social adotado para controlar a covid-19, essa ferramenta poderá ser implementada no Brasil por meio de parceria com operadoras de telecomunicações.

No setor de telecomunicações, as operadoras Algar, Claro, Oi, Tim e Vivo forneceram ao Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC) um pacote de dados para monitorar mobilidade populacional, deslocamentos e pontos de aglomeração e identificar situações de concentração de pessoas e risco de contaminação pelo novo coronavírus, arquivados em nuvem pública e organizados de forma agregada, estatística e anônima. As empresas irão, ainda, desenvolver um aplicativo para auxiliar os órgãos públicos no mapeamento da evolução da epidemia do novo coronavírus.

Alessandra Ribeiro (Tendências) estima uma retração de 4% do PIB no segundo trimestre

Novas vagas 

Como reação à pandemia, alguns setores têm registrado um aumento da demanda. É o caso da Weleda, fabricante de medicamentos e cosméticos naturais, que criou vagas temporárias e elevou o número de funcionários para ampliar a produção de remédios para gripes e resfriados, que tiveram maior  demanda devido à pandemia do coronavírus. A fábrica, que fica em São Paulo, também começou a funcionar aos sábados e domingos.

Maria Cláudia Pontes, diretora-presidente da Weleda no Brasil e CEO para a América Latina, explica que a empresa já vinha crescendo em torno de 30% ao ano e vinha se preparando, nos últimos três anos, para manter esse ritmo de crescimento, mas de modo sustentável. “De repente, com a pandemia, que nos pegou desprevenidos, vimos as nossas vendas triplicarem de um mês para o outro, e isso fez com que tivéssemos que nos adequar, criar uma força tarefa para a produção, principalmente para atender a essa demanda”.

Na mesma linha, a BRF, umas das maiores indústrias do setor de alimentos, anunciou a contratação de 2 mil funcionários para garantir a continuidade de sua produção no Brasil e em outros países onde opera. Além disso, a empresa, que tem 90 mil funcionários, se comprometeu a não fazer demissões até o final de maio e informou a doação de R$ 50 milhões em alimentos, insumos médicos e equipamentos hospitalares nas cidades em que atua.

Apesar dessas contratações emergenciais, a expectativa de analistas é de aumento no número de desempregados e de queda na produção industrial. Alessandra Ribeiro, diretora de macroeconomia e análise setorial da consultoria Tendências, estima que, no segundo trimestre deste ano, o Produto Interno Bruto (PIB) poderá ter uma retração de 4% na comparação com o mesmo período de 2019. Segundo ela, essa queda será influenciada, principalmente, pelo desempenho dos setores industrial e de serviços. “Pela nossa estimativa, o PIB industrial deve cair 2,5% em 2020”, diz a especialista.

Em seu último relatório, o Fundo Monetário Internacional (FMI) classificou a situação atual como a Grande Paralisação, que levará o mundo à mais profunda recessão desde 1929.  As estimativas do FMI indicam que a economia global terá uma queda de 3% neste ano. Para o Brasil, a previsão é de que o Produto Interno Bruto (PIB) recue 5,3% e o desemprego alcance 14,1% da população.

Entre os setores que têm avançado em meio à crise, com as adaptações necessárias, está a indústria de alimentos, que ampliou as medidas de segurança para garantir a saúde dos funcionários e, ao mesmo tempo, a continuidade da produção. João Dornellas, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Alimentos (ABIA), afirma que o setor já adota rigorosos protocolos de segurança e higiene, exigidos pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e pelos ministérios da Saúde e da Agricultura, mas ressalta que, nesse período de pandemia, estes foram intensificados. “O que fizemos foi intensificar, dentro das fábricas, as medidas de segurança e de higiene que já existiam. Adotamos alguns cuidados adicionais, como campanha de comunicação ostensiva em todas as unidades sobre a lavagem correta das mãos e sobre o uso do álcool em gel. As pessoas entenderam realmente que esse é um momento de tomar muito mais cuidado”, diz Dornellas.

Se dentro das fábricas de alimentos o ajuste em função da pandemia foi rápido e sem grandes problemas, da porta para fora houve problemas que já estão sendo superados e que não tiveram grande impacto sobre a produção, conta o executivo da ABIA. “Nenhum estado é independente por si só em termos de produção e consumo de alimentos. Todos os estados se interdependem, ou seja, existe uma necessidade de locomoção tanto de matérias-primas quanto de produtos terminados e funcionários”,  explica.

No setor farmacêutico, além de adotar medidas para garantir a produção e o abastecimento de medicamentos, as empresas se engajaram nos esforços mundiais para o desenvolvimento de vacinas e remédios que possam ser usados contra o coronavírus. A farmacêutica EMS está apoiando o Hospital Albert Einstein e outras instituições de saúde na realização de dois estudos clínicos para avaliar a eficácia do medicamento hidroxicloroquina no tratamento da covid-19. 

Indústria de alimentos intensificou medidas de higiene, diz João Dornellas (ABIA)

Mais respiradores

O laboratório EMS também anunciou a doação de R$ 1 milhão ao governo estadual de São Paulo, onde fica a sede da empresa, para compra de respiradores, monitores e insumos. Doações em dinheiro e em produtos e equipamentos médicos e hospitalares também foram feitas por diversas indústrias dentro do esforço, coordenado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), para que o sistema de saúde pública possa atender, da melhor maneira, as pessoas infectadas com o coronavírus. Em São Paulo, a Ambev, a Gerdau e o Hospital Albert Einstein se aliaram à Prefeitura de São Paulo para construir um novo Centro de Tratamento para a covid-19, com 100 leitos que atenderão exclusivamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

Nelson Mussolini,  presidente do Sindicato da Indústria Farmacêutica do Estado de São Paulo (Sindusfarma), explica que  algumas empresas criaram turnos de revezamento para manter a produção sem colocar em risco a segurança dos trabalhadores. “Nossos funcionários normalmente já trabalham com máscaras e aventais e há uma forte higienização para evitar qualquer tipo de contaminação cruzada. Esse tipo de proteção aumentou muito agora, ficou muito mais efetiva”, diz. Segundo ele, “o setor vem enfrentando algumas dificuldades com a falta de matéria-prima, importada principalmente da China e da Índia, mas a produção continua a todo vapor, apesar dessas condições”.

Outros esforços importantes foram feitos pela Petrobras e pela Vale, que compraram e doaram testes para diagnóstico do novo coronavírus, importados dos Estados Unidos e da China. Enquanto a Petrobras anunciou a doação de 600 mil testes para a Secretaria de Saúde do Rio de Janeiro, a Vale comprou 5 milhões de kits de testes rápidos, dos quais já foram entregues 500 mil, em março, ao governo federal. Os 4,5 milhões de unidades restantes estavam previstos para serem entregues pelo fornecedor ao longo do mês de abril. Toda a logística de distribuição dos kits no Brasil ficará sob responsabilidade do governo federal.

A Vale informou, ainda, que, como reforço à saúde pública no sudeste do Pará, onde tem atuação importante, foi investido R$ 1,5 milhão na reforma e ampliação de uma ala de internação do Hospital Municipal de Parauapebas. A ação possibilitará o acréscimo de 40 novos leitos de unidade semi-intensiva, aptos a receberem pacientes com sintomas graves da covid-19. Além disso, a empresa doou ao governo do Pará uma carga de 100 toneladas de insumos, como álcool em gel 70%, sabão e detergente líquido, e antecipou o pagamento de cerca de R$ 160 milhões para pequenas e médias empresas.

Álcool e máscaras

“No momento em que o país passa por uma grande incerteza, usaremos nossa rede de distribuição, presença na base da cadeia produtiva e capacidade de mobilização para ajudar os nossos fornecedores a enfrentarem os impactos dessa pandemia, sempre primando pela saúde e segurança das pessoas”, afirma Alexandre Pereira, diretor-executivo de Suporte ao Negócio. Segundo informações divulgadas pela empresa, essa medida deverá beneficiar mais de mil fornecedores em todo o país. A empresa anunciou, ainda, redução em até 85% no prazo de pagamento de serviços e materiais de empresas de pequeno e médio porte, beneficiando cerca de 3 mil fornecedores.

Os esforços da indústria contam, também, com ações de produção e doação de equipamentos de proteção individual, material hospitalar descartável e ajustes nas fábricas para produção de álcool em gel, cuja demanda em hospitais, empresas e residências aumentou muito. Além disso, o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI) e o Serviço Social da Indústria (SESI) estão participando desse esforço com ações diretas desenvolvidas nas suas unidades e no apoio técnico às empresas.

Para a produção de máscaras, a Bonfio/Kalina, de Americana (SP), doou linhas e fios que foram usados na fabricação de 600 mil unidades, dentro de uma campanha coordenada pelo SENAI/SP. As máscaras serão distribuídas aos hospitais públicos do estado e às comunidades mais carentes de proteção social. Na Bahia, o SENAI Cimatec montou, em apenas 36 horas, uma linha de envasamento de álcool líquido 70% toda em inox, a pedido do governo estadual, com um tanque de recebimento de 2 mil litros.

“O Brasil atravessa uma situação grave. Estamos diante de uma pandemia, e o SESI e o SENAI não têm medido esforços para atender à população e à indústria brasileira neste momento”, registra Rafael Lucchesi, diretor-geral do SENAI e superintendente do SESI. 

A Indústria contra o coronavírus: vamos juntos superar essa crise

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