Como integrar inovação, produção e políticas públicas para fortalecer a saúde no Brasil? Esse foi o ponto de partida das discussões que reuniram lideranças da indústria, do governo e de instituições de pesquisa em torno de um mesmo desafio: estruturar uma cadeia de valor mais conectada, eficiente e menos dependente de fatores externos.
O debate aconteceu nesta terça-feira (30), em Brasília, durante a reunião do Grupo de Trabalho (GT) Cadeia de Valor da Indústria da Saúde, iniciativa do Movimento Empresarial pela Saúde (MES), criado pelo Serviço Social da Indústria (SESI), e apoiado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) e Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI).
“Essa é a primeira reunião do GT e a ideia aqui é construir uma agenda mais propositiva. O setor ainda atua muito na reatividade, e esses canais vão continuar existindo, mas o foco agora precisa ser outro, olhar para o que é positivo e avançar de forma mais estruturada”, afirmou o superintendente de Saúde da Indústria, Emmanuel Lacerda.
Para o diretor geral do SENAI Nacional, Leone Andrade, o objetivo é consolidar uma matriz de prioridades que oriente as ações do grupo nos próximos ciclos. “Todos os temas que permeiam nossas reuniões - regulação, tributação, infraestrutura e inovação - são transversais e afetam diretamente a competitividade do setor. A ideia é ouvir quem está na ponta, reunir essas contribuições e transformar isso em ações concretas. Temos um desafio de produção e de tecnologia que é inerente a toda a cadeia de alta complexidade”, completou.
Ao discutir os principais desafios da cadeia produtiva da saúde, o superintendente de Inovação e Tecnologia do SENAI Nacional, Roberto Medeiros, destacou que os entraves enfrentados não são isolados, mas fazem parte de um ecossistema complexo, que exige visão sistêmica e coordenação entre diferentes atores.
“Temos um desafio de produção e de tecnologia inerente a toda cadeia de alta complexidade. Estamos lidando com um ecossistema que compartilha dificuldades comuns a outros setores, mas que também apresenta particularidades próprias desse nível elevado de complexidade”, afirmou Medeiros.
Segundo ele, fatores como riscos geopolíticos, concentração de capacidades produtivas e a necessidade de um ambiente regulatório eficiente reforçam a importância de olhar para toda a cadeia de forma integrada. A inovação, nesse contexto, depende da articulação entre pesquisa, desenvolvimento, produção e regulação.
A discussão trouxe contribuições da indústria sobre os entraves para o avanço da inovação no país. Representando a Roche Diagnóstica, gerente de Relações Governamentais, Valdir Gomes, destacou a necessidade de maior estabilidade regulatória e de um ambiente mais favorável aos investimentos.
“Precisamos de um marco legal sólido e estável, que não mude de forma repentina, para garantir segurança jurídica e permitir que as empresas invistam e tragam inovação para o Brasil”, mencionou o representante da Roche.
Ele também ressaltou que o fortalecimento da base do ecossistema é fundamental para que o país avance. “Não há como atrair inovação sem investir em formação de talentos, centros de pesquisa qualificados e em uma integração real entre governo, indústria e academia”, complementou Gomes.
Leticia Resende representante da Associação Brasileira da Indústria de Produtos para o Autocuidado em Saúde (ACESSA) apontou a regulação como um dos principais entraves concretos para o avanço da inovação, especialmente pela lentidão dos processos. Ela destacou a importância de organizar as demandas do setor e ampliar o diálogo com os reguladores.
“Um dos maiores entraves para investimento e inovação hoje é a regulação, especialmente a lentidão nas filas e precisamos trazer esses atores para a discussão para avançar”, afirmou Resende.
Ao trazer a perspectiva do impacto final dessas discussões, Greyce Guasselli, especialista de Desenvolvimento Industrial do SESI, destacou a importância de conectar as estratégias ao trabalhador.
“Precisamos pensar de forma estruturada em como tudo isso se traduz, na prática, para quem está na ponta - o trabalhador. É ele o verdadeiro beneficiário e o último elo dessa cadeia, e todo esse esforço só se justifica se for capaz de chegar até ele de maneira concreta, gerando impacto real”, concluiu.
Cadeia de Valor da Indústria da Saúde
Lançado em fevereiro deste ano, o grupo tem como missão ampliar a contribuição da indústria na formulação de estratégias para o fortalecimento do Complexo Econômico-Industrial da Saúde (CEIS), iniciativa de estado que busca conectar o sistema de saúde à base produtiva e tecnológica nacional, integrando desde a indústria farmacêutica até centros de pesquisa e serviços de saúde, incluindo o Sistema Único de Saúde (SUS).
A reunião integra a agenda contínua do MES, que atua na articulação entre indústria, inovação e saúde. O Complexo Econômico-Industrial da Saúde é um dos quatro eixos do movimento, ao lado de Dados e Inteligência em Saúde, Promoção da Saúde e Prevenção e Modelos Sustentáveis de Saúde Suplementar.



