Indústria automotiva brasileira busca adensamento produtivo para superar dependência externa

CNI reúne especialistas e gestores públicos para o debate sobre o fortalecimento da produção nacional

Especialistas, representantes da indústria e gestores públicos discutiram estratégias para fortalecer a cadeia automotiva nacional e reduzir a dependência de insumos importados

O setor automotivo brasileiro representa 4% de toda a indústria de transformação nacional e fatura cerca de R$ 222,6 bilhões anuais. No entanto, a cadeia automotiva enfrenta o desafio de reverter uma dependência estrutural de insumos estrangeiros. 

O tema foi debatido, nesta quinta-feira (11), na sede da Confederação Nacional da Indústria (CNI), com a presença de especialistas e gestores públicos que trouxeram para a discussão os gargalos do setor e detalharam estratégias para fortalecer a produção nacional.  

O Paradoxo da Balança Comercial 

Apesar da alta eficiência e de um investimento em Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) superior à média industrial (1,06% contra 0,62%), a cadeia de fornecedores do setor automotivo, por exemplo, opera com um déficit comercial projetado em US$ 67,7 bilhões para o biênio 2024-2025. Esse valor equivale a 83,6% do faturamento total da indústria de autopeças, evidenciando que o país ainda importa componentes de alta complexidade tecnológica, principalmente da Ásia e da Europa. 

As informações foram apresentadas pelo consultor da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL), professor e pesquisador do ITA, Thiago Caliari, que abordou o tema pela visão da cadeia de fornecedores do setor automotivo, apresentando um diagnóstico e caminhos para a transição tecnológica.  

Segundo ele, o entrave não é a falta de capacidade técnica da engenharia brasileira, mas sim um "paradoxo da escala". "Produzir localmente é possível, mas não se justifica economicamente" devido ao baixo volume da demanda interna por componentes avançados, o que encarece o produto final e empurra as empresas para a importação. 

Rota Tecnológica: O Híbrido-Flex como Ponte 

Thiago Caliari também reforçou que o Brasil possui uma rota tecnológica própria para a transição energética com a hibridização entre o etanol e a propulsão elétrica.  

“O motor híbrido-flex pode ser uma "ponte tecnológica" aproveitando a infraestrutura de biocombustíveis já existente, permitindo que a indústria nacional mantenha empregos e desenvolva competências enquanto o mercado global de baterias amadurece”, explicou.  

Atualmente, o país já soma cerca de R$ 95 bilhões em novos investimentos anunciados pelas montadoras para esta década, com foco crescente na eletrificação e em novas plataformas de mobilidade. 

Thiago Caliari, da CEPAL e do ITA, apresentou estudo sobre os desafios da cadeia automotiva brasileira e os caminhos para fortalecer a produção nacional

A Estratégia do Programa MOVER e a Nacionalização 

 O governo federal aposta no Programa Mobilidade Verde e Inovação, o MOVER, que prevê R$ 19 bilhões em créditos financeiros até 2028. O programa orienta a indústria em quatro pilares fundamentais: descarbonização, inovação tecnológica, adensamento da cadeia produtiva e segurança veicular. 

O coordenador-Geral de Desenvolvimento da Indústria Automotiva (CGIA) do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), Gustavo Duarte Victer, informou que um edital-piloto de nacionalização de autopeças está sendo elaborado e contará com a operacionalização do SENAI.  “As propostas serão selecionadas pelo mérito do impacto e exigirão o compromisso de aquisição de um lote das peças desenvolvidas pelas empresas participantes”, explicou.  

Com um aporte inicial de R$ 10 milhões, a chamada focará em itens críticos como componentes de ar-condicionado, caixas de marcha e blocos de motores.  

Representante do MDIC, Gustavo Duarte Victer detalhou estratégias do Programa MOVER e ações para ampliar a produção nacional de componentes automotivos

Capacidade produtiva e captura de valor no setor de baterias  

Outro tema abordado foi o futuro do setor de baterias. A CNI, em parceria com o Instituto E+ Transição Energética e o Net Zero Industrial Policy Lab, está produzindo um estudo sobre os minerais críticos e a transição energética no Brasil, com foco na capacidade produtiva e na captura de valor no setor de baterias.  

O objetivo é desenvolver uma análise das cadeias produtivas ligadas à descarbonização e elaborar propostas de políticas industriais capazes de transformar as capacidades latentes brasileiras no setor em desenvolvimento industrial efetivo.  

Os analistas da CNI Rodrigo Comini Curi e Felipe de Sá Carneiro apresentaram o status do estudo, em conjunto com a gerente de descarbonização industrial e minerais críticos da E+, Simone Klein; e a especialista em indústria da E+, Caroline Giusti.  

O levantamento está na fase de validação do diagnóstico com as empresas, especialistas e operadores da cadeia produtiva e, a partir disso, também será realizada a construção de uma agenda de recomendações ancorada nas capacidades reais da indústria brasileira e nas oportunidades concretas abertas pela transição energética.  

Na ocasião, também participaram o superintendente de Política Industrial da CNI, Fabrício Silveira, que realizou a abertura da reunião de trabalho, e o especialista da CNI Danilo Severian, que apresentou a metodologia do Observatório Nacional da Indústria (CNI).  

  • Confira todas as fotos da reunião: 
11 06 26 - Cadeias do Setor Automotivo

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