Sistema Indústria já sonda o que vem por aí

SESI e SENAI estudam o impacto da indústria 4.0 sobre o perfil do trabalhador para redesenhar a oferta de cursos enquanto a CNI indica o cenário econômico mais provável até 2022
"Nossos cursos e serviços têm se adaptado às transformações em curso" - Lucchesi

As entidades do Sistema Indústria têm hoje, como um de seus principais desafios, entender os impactos que a fusão entre os mundos real e virtual trará ao setor produtivo, a seus empresários e trabalhadores. “Hoje é possível desenhar, projetar e imprimir um protótipo antes de entrar no mundo real e isso reduz custos. Mas é importante ir além desse achado já conhecido”, afirma o diretor-presidente do Conselho Técnico-Administrativo da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), Carlos Américo Pacheco.

Já é possível vislumbrar vários impactos a partir das transformações digitais que são visíveis, diz ele.  “Será possível, por exemplo, conectar as empresas diretamente com toda a cadeia produtiva e com os consumidores finais, permitindo acompanhar os hábitos das pessoas e saber como estão usando os produtos em seu cotidiano”, estima. 

Segundo o pesquisador, essas mudanças vão ganhar uma profundidade gigantesca nos próximos dez anos. "Essa nova revolução industrial terá impacto sobre todo o setor produtivo. Haverá uma mudança nos modelos de negócios das próprias empresas, que aproximará a indústria do setor de serviços. Haverá a agregação de um conjunto de serviços, de forma crescente e de várias naturezas, ao seu produto”, avalia.

Ao invés de vender uma turbina de avião, uma empresa vai vender um serviço que inclui a turbina e sua manutenção, exemplifica. “A turbina continua sendo sua e você presta um serviço de atendimento àquela empresa, mas deixa de entregar o produto”, afirma Pacheco.

A tendência, segundo ele, é que, no futuro, vários segmentos deixem de vender definitivamente uma mercadoria e passem a fazer um contrato de prestação de serviços, que fidelize o cliente. “Isso será muito mais vantajoso porque a empresa passa a ter uma  receita recorrente. Não apenas vende um produto, mas continuamente atende um cliente”. Segundo Pacheco, esse processo impacta não só a indústria, mas a vida em geral.

No âmbito educacional, a visão é muito parecida. Segundo o diretor-geral do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI), Rafael Lucchesi, a quarta revolução industrial vai reconfigurar todo o processo de produção das principais cadeias produtivas. Por isso, diz ele, a entidade estuda essas mudanças para avaliar como isso pode alterar as competências e habilidades dos trabalhadores da indústria.

“Temos feito um esforço grande em compreender como nosso portfólio de cursos e serviços pode se adaptar às transformações em curso”, afirma Lucchesi.

NOVA REVOLUÇÃO INDUSTRIAL - Lucchesi lembra que a primeira revolução industrial foi marcada pela introdução da máquina a vapor e da mecanização do trabalho manual no século 19. Depois, no século 20, a produção em massa, com a utilização de equipamentos eletrificados, definiu a segunda revolução industrial.

A terceira revolução ocorreu mais recentemente, a partir do uso de eletrônicos e da tecnologia computacional para a produção e para a automação da produção. Agora, na quarta revolução, o que se destaca são os avanços tecnológicos como inteligência artificial e big data.

Ainda com o objetivo de antecipar tendências e preparar o Brasil para a manufatura avançada, Lucchesi citou a criação dos institutos de inovação e de tecnologia do SENAI. “A educação assume papel central no mundo da indústria 4.0. Por isso, a inovação é uma constante nas salas de aula do SESI e do SENAI para formar o profissional do futuro e prepará-lo para lidar com um mundo dinâmico de constantes e rápidas transformações”, afirma Lucchesi, que também é diretor-superintendente do Serviço Social da Indústria (SESI).

Com o mesmo objetivo de sondar permanentemente as transformações do contexto econômico e do sistema produtivo, a Confederação Nacional da Indústria (CNI) lançou, neste ano, o Mapa Estratégico da Indústria 2018- 2022. Elaborado com a participação de líderes empresariais, o estudo é uma agenda para o Brasil, pois visa à construção, nos próximos quatro anos, de uma economia mais eficiente, inovadora e integrada ao mercado internacional. Para atingir esse objetivo, o mapa busca o alinhamento das políticas industrial, de inovação e de comércio exterior.  

O desafio, segundo Carlos Américo Pacheco, da FAPESP, é garantir competitividade à indústria brasileira frente a uma transformação que já ganha corpo na Europa e nos Estados Unidos, dando mais eficiência e flexibilidade a linhas de produção e reduzindo custos. A expectativa da CNI é que, com o avanço da indústria 4.0 no Brasil, o país eleve sua inserção nas cadeias globais de valor e amplie a participação no comércio mundial de bens e serviços. Afinal, o ambiente do mercado internacional estimula a busca pela competitividade e pela inovação.

De acordo com Pacheco, a Mobilização Empresarial pela Inovação (MEI) e a CNI fincaram uma bandeira importante nessa direção: a agenda da inovação passou a ser uma agenda da indústria e não apenas de universidades e centros de pesquisa. “Durante muito tempo essa agenda estava restrita ao mundo acadêmico e ao governo. Houve uma mudança de postura importante da CNI ao mostrar que a sobrevivência das empresas depende da inovação”, diz o pesquisador.

Ele também ressalta a necessidade de aumentar a inserção comercial do Brasil e avançar nas reformas estruturais.

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