Com a missão de alavancar Projetos Tecnológicos de Alto Impacto (PTAI) no Brasil, a Mobilização Empresarial pela Inovação (MEI) - fórum da Confederação Nacional da Indústria (CNI) que reúne as empresas que mais investem em inovação no país - realizou a terceira e última edição do ano do Diálogos da MEI.
O debate, realizado nesta terça-feira (25) como parte da programação do encontro regional Nordeste da Jornada Nacional de Inovação da Indústria, tratou do tema com foco em duas agendas estratégicas para o Brasil: energia e saúde.
Os PTAIs são projetos de alto nível técnico que resultam em inovações de ruptura a partir de investimento público e privado e de consórcios formados por diferentes atores, como grandes, médias e pequenas empresas, startups, universidades e centros de pesquisa.
“O primeiro passo é reconhecer o desafio tecnológico de interesse nacional alinhado com áreas estratégicas para a indústria brasileira. Depois, estabelecer o consórcio e o financiamento, que deve ser público e privado de R$ 1 para R$ 1. E superar cultura do imediatismo, de buscar resultados em curto prazo. Um projeto tecnológico de alto impacto dura 3, 5 ou até 10 anos”, explicou o professor titular da Universidade de São Paulo (USP) Glauco Arbix.
Arbix, que também é conselheiro do Conselho Nacional de Projetos Tecnológicos de Alto Impacto (CNPTAI), instituído pelo Decreto nº 12.081 de junho de 2024, observou que hoje cada empresa ou pesquisador/universidade vai nas instituições de fomento, como a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), e pede o recurso para desenvolver seu projetos.
Os PTAIs invertem essa lógica, ao definir quais são os projetos importantes tanto para o país quanto para o setor produtivo e articular consórcios e recursos para o desenvolvimento das soluções disruptivas.
Ainda segundo o professor da USP, a iniciativa deve estar alinhada à Nova Indústria Brasil (NIB), seguindo a lógica de outros países, como Alemanha, Estados Unidos, Coreia e China. Nos últimos 15 anos, os países multiplicaram suas políticas industriais para fortalecimento de setores estratégicos: em 2010, havia 34 políticas industriais sendo implementadas ao redor do mundo, e, em 2023, já eram 2.049.
Exemplos de desafios e projetos
Na abertura do Diálogos da MEI, o vice-presidente da Federação das Indústrias do Estado da Bahia (FIEB), Carlos de Freitas Alfano Neto, falou da importância dos PTAIs para a competitividade e crescimento da indústria.
“Os projetos de alto impacto são fundamentais e estratégicos para o Brasil, já que buscam reduzir dependência tecnológica do país e conectar grandes, médias empresas com academia e startups”, reforçou Carlos de Freitas Alfano Neto.
Além da apresentação do Glauco Arbix, o evento contou com dois painéis, um sobre saúde e um de energia, moderados pelo superintendente de Projetos de Inovação da CNI, Carlos Bork, que destacou tecnologias em desenvolvimento no país. “Há enorme desconhecimento de oportunidades e do que já está sendo feito por empresas e pesquisadores brasileiros. Por isso, esse diálogo é tão importante, temos que ter união e complementaridade”, concluiu.
Arbix citou exemplos de soluções que poderiam ser desenvolvidas no modelo de PTAIs:
- Combustíveis do futuro
Desafio: produzir e aplicar, a preços competitivos internacionalmente, hidrogênio de baixo carbono com base no etanol
Já atuam na área: USP, Shell, Toyota, Petrobras, Cosan, Raízen
- Biotecnologia na saúde
Desafio: capacitar e desenvolver vacinas de mRNA em conjunto com a indústria farmacêutica
Já atuam na área: Fiocruz-Butantan
- iOceano
Desafio: utilizar potencial da área marítima sob jurisdição brasileira, chamada de Amazônia Azul, para energia renovável off-shore, tráfego marítimo e navegação autônoma
Já atua na área: UFRJ
No primeiro painel, de saúde, participaram Daniela Barreto Barbosa Trivella, coordenadora de Descoberta de Fármacos do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM); Lygia Pereira, CEO da Gen-t; Walker Lahmann, diretor executivo da Eurofarma, e Wanessa Bandeira, assessora técnica chefe e gestora de projetos da Fundação Bahiafarma.
Ao abordar o potencial brasileiro na área, os participantes afirmaram a necessidade de avanço na produção nacional de medicamentos. O setor de saúde responde por cerca de 10% do Produto Interno Bruto (PIB) e por aproximadamente 1/3 da pesquisa científica do país, mas produz somente 45% dos medicamentos consumidos.
Já o segundo painel, de energia, contou com a participação de Alexandre Breda, gerente de tecnologia em baixo carbono da Shell Brasil; José Luis Gonçalves de Almeida, gerente executivo do Senai-Cimatec; e Hugo Ferreira, chefe de engenharia da Windey Energy. A discussão teve foco combustíveis sustentáveis, como hidrogênio de baixo carbono e SAF (Combustível de Aviação Sustentável) a partir do etanol, e energia eólica.
Ao fim do debate, ficou clara a convergência entre os setores. Em ambos os segmentos, energia e saúde, o Brasil tem como principal diferencial competitivo a rica biodiversidade, que deve ser melhor estudada e utilizada na produção de insumos biotecnológicos, da produção de medicamentos aos combustíveis.
Confira um resumo do evento Regional Nordeste da Jornada de Inovação da Indústria:



