Projetos tecnológicos de alto impacto podem alavancar setores de saúde e energia no Brasil

Instituída por decreto, Iniciativa Nacional de Projetos Tecnológicos de Alto Impacto prevê inovações em áreas estratégicas a partir de consórcios e investimento público e privado

O painel sobre Projetos Tecnológicos de Alto Impacto (PTAI), fez parte da programação do encontro regional Nordeste da Jornada Nacional de Inovação da Indústria.
Foto: Gabriel Pinheiro/CNI

Com a missão de alavancar Projetos Tecnológicos de Alto Impacto (PTAI) no Brasil, a Mobilização Empresarial pela Inovação (MEI) - fórum da Confederação Nacional da Indústria (CNI) que reúne as empresas que mais investem em inovação no país - realizou a terceira e última edição do ano do Diálogos da MEI.

O debate, realizado nesta terça-feira (25) como parte da programação do encontro regional Nordeste da Jornada Nacional de Inovação da Indústria, tratou do tema com foco em duas agendas estratégicas para o Brasil: energia e saúde.

Os PTAIs são projetos de alto nível técnico que resultam em inovações de ruptura a partir de investimento público e privado e de consórcios formados por diferentes atores, como grandes, médias e pequenas empresas, startups, universidades e centros de pesquisa.

“O primeiro passo é reconhecer o desafio tecnológico de interesse nacional alinhado com áreas estratégicas para a indústria brasileira. Depois, estabelecer o consórcio e o financiamento, que deve ser público e privado de R$ 1 para R$ 1. E superar cultura do imediatismo, de buscar resultados em curto prazo. Um projeto tecnológico de alto impacto dura 3, 5 ou até 10 anos”, explicou o professor titular da Universidade de São Paulo (USP) Glauco Arbix.

Arbix, que também é conselheiro do Conselho Nacional de Projetos Tecnológicos de Alto Impacto (CNPTAI), instituído pelo Decreto nº 12.081 de junho de 2024, observou que hoje cada empresa ou pesquisador/universidade vai nas instituições de fomento, como a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), e pede o recurso para desenvolver seu projetos.

Os PTAIs invertem essa lógica, ao definir quais são os projetos importantes tanto para o país quanto para o setor produtivo e articular consórcios e recursos para o desenvolvimento das soluções disruptivas.

Ainda segundo o professor da USP, a iniciativa deve estar alinhada à Nova Indústria Brasil (NIB), seguindo a lógica de outros países, como Alemanha, Estados Unidos, Coreia e China. Nos últimos 15 anos, os países multiplicaram suas políticas industriais para fortalecimento de setores estratégicos: em 2010, havia 34 políticas industriais sendo implementadas ao redor do mundo, e, em 2023, já eram 2.049.

Exemplos de desafios e projetos

Na abertura do Diálogos da MEI, o vice-presidente da Federação das Indústrias do Estado da Bahia (FIEB), Carlos de Freitas Alfano Neto, falou da importância dos PTAIs para a competitividade e crescimento da indústria.

“Os projetos de alto impacto são fundamentais e estratégicos para o Brasil, já que buscam reduzir dependência tecnológica do país e conectar grandes, médias empresas com academia e startups”, reforçou Carlos de Freitas Alfano Neto.

Além da apresentação do Glauco Arbix, o evento contou com dois painéis, um sobre saúde e um de energia, moderados pelo superintendente de Projetos de Inovação da CNI, Carlos Bork, que destacou tecnologias em desenvolvimento no país. “Há enorme desconhecimento de oportunidades e do que já está sendo feito por empresas e pesquisadores brasileiros. Por isso, esse diálogo é tão importante, temos que ter união e complementaridade”, concluiu.

Arbix citou exemplos de soluções que poderiam ser desenvolvidas no modelo de PTAIs:

  • Combustíveis do futuro

Desafio: produzir e aplicar, a preços competitivos internacionalmente, hidrogênio de baixo carbono com base no etanol

Já atuam na área: USP, Shell, Toyota, Petrobras, Cosan, Raízen

  • Biotecnologia na saúde

Desafio: capacitar e desenvolver vacinas de mRNA em conjunto com a indústria farmacêutica

Já atuam na área: Fiocruz-Butantan

  • iOceano

Desafio: utilizar potencial da área marítima sob jurisdição brasileira, chamada de Amazônia Azul, para energia renovável off-shore, tráfego marítimo e navegação autônoma

Já atua na área: UFRJ

No primeiro painel, de saúde, participaram Daniela Barreto Barbosa Trivella, coordenadora de Descoberta de Fármacos do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM); Lygia Pereira, CEO da Gen-t; Walker Lahmann, diretor executivo da Eurofarma, e Wanessa Bandeira, assessora técnica chefe e gestora de projetos da Fundação Bahiafarma.

Ao abordar o potencial brasileiro na área, os participantes afirmaram a necessidade de avanço na produção nacional de medicamentos. O setor de saúde responde por cerca de 10% do Produto Interno Bruto (PIB) e por aproximadamente 1/3 da pesquisa científica do país, mas produz somente 45% dos medicamentos consumidos.

Já o segundo painel, de energia, contou com a participação de Alexandre Breda, gerente de tecnologia em baixo carbono da Shell Brasil; José Luis Gonçalves de Almeida, gerente executivo do Senai-Cimatec; e Hugo Ferreira, chefe de engenharia da Windey Energy. A discussão teve foco combustíveis sustentáveis, como hidrogênio de baixo carbono e SAF (Combustível de Aviação Sustentável) a partir do etanol, e energia eólica.

Ao fim do debate, ficou clara a convergência entre os setores. Em ambos os segmentos, energia e saúde, o Brasil tem como principal diferencial competitivo a rica biodiversidade, que deve ser melhor estudada e utilizada na produção de insumos biotecnológicos, da produção de medicamentos aos combustíveis.

Confira um resumo do evento Regional Nordeste da Jornada de Inovação da Indústria:

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