Maior sistema público e um dos maiores mercados privados de saúde do mundo, o Brasil tem potencial para ser um grande player global em pesquisa clínica e desenvolvimento de medicamentos. As políticas e os investimentos de inovação industrial necessários para isso foram discutidos entre lideranças empresariais e o Ministério da Saúde nesta sexta-feira (24), no escritório da Confederação Nacional da Indústria (CNI) em São Paulo.
“Nosso sistema público é o que mais oferta vacina, medicamentos básicos e transplantes no mundo. E temos um mercado privado de cerca de 60 milhões de usuários de planos de saúde. O desafio é manter o compromisso de ampliar os recursos e usar ao máximo o tamanho desse mercado para atrair investimentos e estimular a inovação e a transferência de tecnologia no país”, reconheceu o ministro da Saúde, Alexandre Padilha.
Junto à secretária de Ciência, Tecnologia e Inovação em Saúde da pasta, Fernanda De Negri, Padilha falou sobre avanços recentes, como a redução das filas de avaliação de estudos clínicos e registro de produtos frutos da inovação na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Ele também citou o aumento das Parcerias para o Desenvolvimento Produtivo (PDPs) e da lei de pesquisa clínica, sancionada em maio de 2024.
“As PDPs foram essenciais para construir a base industrial forte que temos no Brasil hoje, com os genéricos e os fármacos biológicos, que há 10 anos não produzíamos. Se a gente não investir em inovação, capacidade endógena, estaremos sempre um passo atrás. Nosso objetivo é ir além da inovação incremental e desenvolver novos medicamentos”, afirmou Fernanda de Negri.
Setor farmacêutico é um dos que mais investem em P&D
Para abrir a segunda reunião de 2026 do Comitê de Líderes da Mobilização Empresarial pela Inovação (MEI), o coordenador do movimento e CEO da Viveo, André Clark, reconheceu a relevância dos setores farmoquímico e farmacêutico, que figuram entre os que mais investem em inovação no país.
“O desenvolvimento de glóbulos e moléculas é uma guerra global. Mas o jogo da inovação também é global e funciona em equipe. Somos uma potência de pesquisa clínica”, defendeu Clark.
A EMS, por exemplo, quase quadruplicou os investimentos em pesquisa e desenvolvimento (P&D) nos últimos cinco anos, indo de R$ 208 milhões em 2021 para R$ 770 milhões em 2026. “Os países desenvolvidos que são referência em inovação na saúde têm duas características: uma agência reguladora forte e alinhada com a indústria nacional e uma política de país olhada para o setor de saúde que busque independência fabril”, observou a diretora de relações institucionais da EMS, Juliana Megid.
Outra gigante do setor, a Eurofarma investiu R$ 700 milhões em inovação no ano passado, cerca de 7% da receita líquida da empresa, segundo o diretor executivo Walker Lahmann: “É muito complexo fazer um genérico com qualidade reconhecida, mas isso é resultado de uma política de longo prazo, anos de investimento e pesquisa”.
Políticas públicas
Ele lembrou que, atualmente, mais de 70% do volume de medicamentos que os brasileiros consomem é produzido no país, mais que o dobro dos Estados Unidos. O maior gargalo, porém, é o domínio de toda a cadeia, desde a matéria-prima, os chamados Insumos Farmacêuticos Ativos (IFAs), que o país importa mais de 90%.
O diretor da Eurofarma encerrou a apresentação com propostas de políticas públicas para fortalecimento da inovação na área da saúde:
- Financiamentos/subvenções: alinhar os programas do governo com as linhas de financiamento e subvenção;
- Impostos sobre serviços no exterior: reduzir impostos de serviços técnicos no exterior para inovação;
- Propriedade intelectual: suprir as necessidades orçamentárias e de autonomia do INPI;
- Regras de precificação de medicamentos no Brasil: retorno insuficiente sobre investimentos em inovação radical no Brasil;
- Brasil Farma 2035: estruturação de um programa nacional que posicione a indústria farmacêutica como pilar estratégico.
O vice-presidente da Bionovis, Thiago Mares Guia, e o presidente do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), Antônio José Roque, reforçaram o coro das políticas e falaram dos projetos de P&D das instituições.
Já o secretário executivo do Ministério da Fazenda Rogério Ceron de Oliveira apresentou os resultados do Eco Invest Brasil, programa criado em 2024 para mobilizar capital privado externo de longo prazo e ampliar investimentos em escala para projetos ecológicos.
Congresso de Inovação
Como complemento às discussões com o Ministério da Saúde, o diretor de Desenvolvimento Industrial Tecnologia e Inovação da CNI, Jefferson Gomes, falou da importância do diálogo entre diferentes atores do ecossistema de inovação.
“Uma pergunta comum que ouvimos é como o Brasil está entre os 15 países que mais publicam artigos científicos, ou seja, tem academia forte, mas figura em 52º no Índice Global de Inovação. No Congresso de Inovação, ouvimos as deep techs sobre como montar negócios a partir dessa bagagem acadêmica, lições que servem para o setor de saúde”.




