Educação deve ter mais espaço para protagonismo do aluno e ênfase em exatas

Seminário no Rio de Janeiro discutiu a implementação e os desafios do STEAM na educação brasileira. SESI foi convidado a compartilhar a sua experiência no tema
Paulo Mól ponderou que o STEAM não significa apenas aumentar a carga horária das áreas de Ciências e Matemática no currículo escolar. Mas sim, um movimento de mudança de comportamento das escolas

Pesquisadores, professores e especialistas de todo Brasil se reuniram nesta segunda-feira (26/11) para discutir a inclusão do STEAM (sigla em inglês que denomina as áreas de conhecimento da Ciência, Tecnologia, Engenharia, Artes e Matemática) na educação brasileira. A discussão faz parte do seminário Educação 360, promovido pelos jornais O Globo e Extra e tem o Serviço Social da Indústria (SESI), como um dos parceiros. O evento ocorreu no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro.

O diretor de operações do SESI, Paulo Mól, abriu o seminário comentando sobre a experiência da rede de escolas do SESI na abordagem STEAM. Segundo ele, a conexão das escolas com as empresas colocou a rede no pioneirismo da metodologia no Brasil, por meio de projetos como a robótica e o programa Arte Contemporânea e Educação em Sinergia (Acesse), que mescla arte e ciência. A ideia do Acesse nasceu a partir da experiência com o Prêmio CNI SESI SENAI Marcantonio Vilaça para as Artes Plásticas

Durante a apresentação, Mól ressaltou que o STEAM é primordial para melhorar o capital humano brasileiro e que o aumento da inovação no Brasil está relacionado ao incremento dessas disciplinas. Destacou ainda que não há um antagonismo do STEAM com as matérias de outras áreas como humanas. “Temos que parar com esse FlaXFlu. Se um relatório, de qualquer área, estiver ruim, não funciona. Temos que pensar a educação de forma holística”.

Mól ponderou ainda que o STEAM não significa apenas aumentar a carga horária das áreas de Ciências e Matemática no currículo escolar. Mas sim, um movimento de mudança de comportamento das escolas. “Trabalhando com problemas, os alunos passam a ter um protagonismo enorme”, explica.

Maria Antônia Goulart, consultora do Acesse, apresentou o projeto na mesa sobre Cases, Ferramentas e o que vem por aí. Ela mostrou o trabalho piloto realizado nas escolas do SESI em quatro estados brasileiros e nove escolas. Segundo ela, a ideia do Acesse é mostrar que os conteúdos da vida se integram. “Com a arte, a gente pode mostrar princípios da geometria, podemos ensinar como funciona a incidência de luz, trazer conceitos de padronagens e fazer explorações. Tudo está relacionado”, defendeu. 

O pesquisador da Universidade de São Paulo e consultor da For Education Edtech, Gustavo Pugliese, afirmou que o STEAM não é somente uma metodologia ou atualização de currículo e que a abordagem surgiu na década de 1990, mas ganhou relevância a partir dos anos 2000, em especial com a política educacional norte-americana do então presidente Barack Obama. “O mundo ao redor da escola mudou e a escola precisa fazer parte deste mundo”, disse. “Não dá para ficar somente na aula de transmissão oral”, complementou. 

Em defesa do STEAM, o professor do Instituto de Informática da Universidade Federal do Rio Grande do Sul propôs o aumento de mais uma letra: o “E” de empatia. Em sua opinião, é importante que os profissionais do futuro tenham formação em ciência e matemática, entretanto, o ser humano deve estar no centro da tecnologia. “O aluno precisa ter habilidade de agir em prol de outra pessoa. Por isso, a educação precisa estimular comportamentos pró-sociais também”.

STEAM E LEGISLAÇÃO EDUCACIONAL - Como o símbolo de uma educação dinâmica, a preocupação de especialistas e professores é se a legislação educacional brasileira está apta a recepcionar o STEAM. Na análise dos especialistas, a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) moderniza as formas de ensino, entretanto, é preciso mais. O que inclui mais fôlego na formação de professores e em diminuir as desigualdades -raciais e de gênero - nas áreas contempladas pelo STEAM.

“Os professores precisam se enxergar nas propostas para se engajar nas mudanças”, concluiu Alexsandro Santos, especialista-consultor em educação do Instituto Unibanco. Alexsandro defendeu também ações afirmativas para a inclusão de negros e mulheres nas áreas de matemática, engenharia, ciência e tecnologia. “Não digo apenas cotas. Mas precisamos de políticas para que esses grupos ingressem nessas áreas e as torne mais diversas”. 

Maria da Conceição Caldeira, superintendente de educação do SESI em Minas Gerais, contou a experiência de mudança implementada da rede mineira, que conta com 38 escolas, mais de 15,3 mil alunos e 937 docentes. “Focamos no trabalho pedagógico, na inteligência de dados e na tecnologia. Para implementarmos um novo modelo, focado no STEAM, precisávamos de dados para tomar decisões mais seguras.

De acordo com Anna Penido, diretora do Instituto Inspirare, embora o novo ensino médio não tenha sido discutido na profundidade com que deveria, ela ressalta que as diretrizes homologadas na última semana trazem uma série de oportunidades que podem ser bem usadas nas educação brasileira, inclusive com o STEAM.

A pesquisadora e professora Joana D'Arc Félix já ganhou mais de 100 prêmios nacionais e internacionais. Aos 14 anos entrou na Universidade de Campinas (Unicamp) e, aos 25, concluía um P.H.D em Harvard

MULHERES NO STEAM - Um dos desafios do STEAM é trazer o feminino para o papel de destaque na ciência. Apenas 30% dos pesquisadores em todo o mundo são mulheres, de acordo com dados da Unesco. Além disso, 60% das mulheres que atuam na área de tecnologia afirmam terem sofrido algum tipo de assédio no ambiente de estudo e trabalho.

A pesquisadora e professora Joana D’Arc Félix narrou a sua trajetória de vida de uma família humilde - o pai trabalhava em curtume e a mãe era empregada doméstica - para se tornar uma referência em ciência e empreendedorismo no Brasil. Joana já ganhou mais de 100 prêmios nacionais e internacionais. Aos 14 anos entrou na Universidade de Campinas (Unicamp) e, aos 25, concluía um P.H.D em Harvard, nos Estados Unidos.

Ela conta que voltou ao Brasil e foi trabalhar em uma escola técnica em sua cidade natal, Franca (SP), conhecida pelos curtumes e produção de calçados. “Eu liguei para o meu orientador do P.H.D, dizendo que eu tinha vindo para o Brasil e que a escola onde eu estava trabalhando era em um região de vulnerabilidade social, não tinha laboratórios, não tinha estrutura e meus alunos eram desmotivados, vindos de uma região com muita prostituição e tráfico de drogas. Aí ele só me disse que era a chance para mudar”.

Márcia Barbosa, professora titular de física da UFRGS e diretora da Academia Brasileira de Ciências ressaltou que os avanços de inclusão da mulher ainda são pequenos, por isso, é preciso mais políticas de incentivo e de valorização da mulher na ciência. “Se você observa os gráficos, têm avanços. Mas eles ainda são tímidos. Vai demorar mais de um século para a real igualdade. Eu não quero esperar”.

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