Políticas públicas e financiamento são essenciais para avanço da economia circular no Brasil

Tema foi debatido em seminário promovido pela CNI, em São Paulo. Caminho para a economia circular se tornar realidade passa pela integração de empresas, governo, academia e consumidor
O painel sobre financiamento reuniu representantes de instituições financeiras e de fomento, como o Banco Santander, o BNDES e a Finep

Um dos principais desafios ambientais do planeta é o atual modelo de produção-consumo-descarte, que tem elevado a cada ano o uso de recursos naturais e provocado o aumento do lixo em todo o mundo. O setor industrial avalia que o caminho para reverter esse cenário passa essencialmente pela economia circular, que é uma tendência mundial que engloba ações como reciclagem, reúso de água, logística reversa e medidas voltadas para o melhor aproveitamento de matérias-primas.

O tema foi debatido nesta terça-feira (24), em São Paulo, no Encontro Economia Circular e a Indústria do Futuro, promovido pela Confederação Nacional da Indústria (CNI). Na avaliação da diretora de Relações Institucionais da CNI, Mônica Messenberg, o avanço da economia circular no Brasil só será possível a partir do estabelecimento de um conjunto de políticas públicas e do aprimoramento de linhas de financiamento voltadas para estimular investimentos em inovação e novos negócios.

Mônica apontou como imprescindível a responsabilidade compartilhada entre setor produtivo, poder público, academia e consumidor. “As políticas públicas são essenciais para criarmos um ambiente propício aos negócios, com regras claras e segurança jurídica para investimentos em economia circular”, disse a diretora da CNI.

Para o primeiro-conselheiro da Delegação da União Europeia no Brasil, Rui Ludovino, o caminho para o país avançar em direção à economia circular começa pela ampliação da coleta seletiva e do tratamento de resíduos. “Se não fizermos esse elo, o resto do ciclo não vai girar. Queremos colaborar e trabalhar em cooperação com o Brasil em diversos temas, como a economia circular”, disse.

O coordenador-geral do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (Ibict), Tiago Braga, afirmou que a entidade tem trabalhado para adotar de forma estruturada a economia circular. “Essa discussão tem se organizado em quatro pontos: capacitação, infraestrutura informacional, financiamento e, por fim, temos trabalhado em um mapa com a perspectiva de como o Brasil pode caminhar para promover a economia circular”, detalhou.

A secretária Nacional de Desenvolvimento Regional e Urbano, Adriana Melo, destacou, por sua vez, que a economia circular precisará de instrumentos de financiamento para avançar no país. “Estamos trabalhando com o fortalecimento das capacidades e pretendemos estender para as organizações da sociedade civil e para pequenos municípios uma linha de ação que promova a aproximação das universidades e instituições de pesquisa. Assim, teremos a economia circular em projetos de áreas como saneamento básico. Esta é uma oportunidade para o governo federal”, afirmou.

Marcelo Prim avalia que o programa Brasil Mais Produtivo poderia ser adaptado também para a prática de economia circular

De acordo com o gerente-executivo de Inovação e Tecnologia do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI), Marcelo Prim, o programa Brasil Mais Produtivo – executado pelo SENAI em parceria com o governo federal - poderia ser adaptado também para a prática de economia circular. O Brasil Mais Produtivo leva processos de lean manufacturing e digitalização a pequenas e médias empresas. Já capacitou 3 mil indústrias, com ganho de produtividade médio de 52%.

FINANCIAMENTO – O gerente-executivo de Meio Ambiente e Sustentabilidade da CNI, Davi Bomtempo, destacou que existe uma série de linhas de financiamento para práticas sustentáveis, mas ponderou que não há uma integração que favoreça investimentos nos diferentes setores da indústria. “As queixas em relação à dificuldade de se obter financiamentos são principalmente em relação às exigências de garantias e de elaboração de projetos complexos”, pontuou Bomtempo.

O painel sobre financiamento da economia circular reuniu representantes de instituições financeiras e de fomento, como o Banco Santander, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep). O gerente de Química, Metalurgia e Materiais da Finep, Henrique Vasquez, defende que as empresas sejam cada vez mais apresentadas a instrumentos de financiamento, pois muitas deixam de investir por falta de conhecimento. “O que vejo é que falta às empresas, em geral, estabelecer uma governança, ter pessoal que trabalhe exclusivamente com inteligência e dedicação aos instrumentos de financiamento”, recomendou.

“Nossas ações focam em dar mais transparência ao nosso trabalho e à importância da destinação correta do alumínio" - Cláudia Leite

CASOS DE SUCESSO – Representantes de empresas que têm iniciativas de sucesso na área de economia circular debateram formas de o país ampliar ações voltadas ao uso mais eficiente dos materiais. O painel sobre modelo de negócios reuniu os casos da Nespresso Brasil, Instituto C&A, Braskem, ArcelorMittal, Flextronics no Brasil e Signify no Brasil (antiga Philips Iluminação).

O Centro de Reciclagem Nespresso, na Grande São Paulo, por exemplo, se dedica a reciclar as cápsulas de alumínio do café. A reciclagem do material é feita desde 2011 e conta com investimentos anuais de cerca de R$ 5 milhões. Mais de 80% dos consumidores têm acesso à reciclagem e o objetivo é alcançar 100% até 2020.

“Nossas ações focam em dar mais transparência ao nosso trabalho e à importância da destinação correta do alumínio, material infinitamente reciclável, e do pó de café, que se transforma em adubo”, explicou a gerente de Criação de Valor Compartilhado e Comunicação Corporativa da Nespresso no Brasil, Cláudia Leite.

O vice-presidente da Braskem, Edison Terra, contou que a empresa se dedica há anos a ações voltadas à sustentabilidade. “A gente comprova a pesquisa que a CNI divulgou hoje. Fazíamos algumas ações e nem desconfiávamos que aquilo era economia circular”, disse Terra, referindo-se à pesquisa segundo a qual 70% das empresas não conheciam o termo economia circular, embora mais de 76% adotem em seus processos alguma prática de economia circular, como reciclagem, reúso de água e logística reversa.

O diretor-geral da Signify no Brasil, Sergio Baptista, resumiu a importância que a economia circular ganhou no dia a dia das empresas. “Em um passado remoto a economia circular poderia ser encarada como uma agenda de marketing, mas hoje cada vez mais se transforma em uma agenda de negócios”, afirmou.

A escritora canadense, Lorraine Smith, especialista em Economia Regenerativa, destacou que não há outra opção para os países senão investir na economia circular. Ela fez a palestra de abertura do evento. “O encontro da CNI foi bem importante em dois sentidos: para integrar pessoas de diferentes setores em torno do assunto e para compartilhar experiências”, avaliou Lorraine.

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