91% dos gestores acreditam que empresas aplicam conceitos de economia circular, aponta pesquisa

Levantamento realizado pela Fundação Espaço Eco®, em parceria com a CNI, mostra, no entanto, que maior parte dos esforços vai para recuperação de recursos, como reciclagem, e pouco na mudança da estratégia dos negócios
Davi Bomtempo, da CNI: , é preciso melhorar políticas públicas, o acesso ao crédito e incentivos à inovação

Pesquisa realizada pela Fundação Espaço Eco® (FEE®) em parceria com a Confederação Nacional da Indústria (CNI) aponta que, para 91% dos gestores e especialistas de sustentabilidade, as empresas aplicam conceitos da economia circular, que prevê o aumento de vida útil de produtos e materiais. No entanto, para 71% dos entrevistados, esses esforços concentram-se na recuperação de recursos, como a reciclagem. Outros 14% destacam que há iniciativas de uso de insumos que podem ser ou foram restaurados, 7% disseram que há foco na oferta de serviços por meio de produtos e 7% trabalham com inovações que aumentam a vida útil dos produtos.

O levantamento, que também contou com o apoio do Centro de Inovação em Economia Circular da Universidade de São Paulo (USP) e do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (Ibict), ouviu profissionais de 22 indústrias e organizações que tratam do tema. Os resultados foram apresentados durante o Diálogo sobre Economia Circular, realizado nesta quarta-feira (26), em São Paulo. O evento reuniu 50 representantes da indústria, governo, academia e da sociedade civil para trocar experiências e identificar desafios e oportunidades desse novo modelo para o Brasil.

De acordo com o gerente-executivo de Meio Ambiente e Sustentabilidade da CNI, Davi Bomtempo, a economia circular não deve se restringir apenas à reciclagem, pois é uma agenda estratégica que deve mudar o modelo de negócios e promover a inovação. “Esse novo modelo é uma alternativa importante para solução à mudança climática, redução de resíduos e produção mais eficiente”, disse Bomtempo. “Para a alavancagem da economia circular, é preciso considerar melhorias em políticas públicas, no acesso ao crédito e em incentivos à inovação.”

Rodolfo Viana, da Fundação Espaço Eco: é preciso mudar a mentalidade para a adoção da economia circular na estratégia dos negócios

A opinião é compartilhada pelo presidente da  FEE, Rodolfo Viana. Para ele, ainda há pouco enfoque na concepção de produtos com maior ciclo de vida e mudança na mentalidade para a adoção do conceito na estratégia dos negócios. “A pesquisa detectou também que a grande motivação para a adoção desse novo modelo é econômica, mas há  também uma preocupação genuína com os impactos ambientais e a escassez de recursos”, destacou. 

Viana afirmou ainda que a pesquisa é um termômetro para começar a aquecer o debate da economia circular e da gestão do ciclo de vida dos produtos na sociedade. “É preciso tangibilizar essas questões para contabilizarmos efetivamente o retorno pelo uso mais eficiente dos recursos”, assinalou.

Sérgio Monforte, da CNI: retorno de materiais à cadeia produtiva é oportunidade para criação de novos negócios e geração de emprego e renda

PROPOSTAS – No evento, o especialista em Políticas e Indústria da CNI Sérgio Monforte apresentou o estudo Economia Circular: o uso eficiente de recursos, que a entidade entregou aos candidatos à Presidência da República. Entre os desafios apontados no documento estão a cumulatividade tributária em produtos reciclados e remanufaturados e as barreiras no transporte de resíduos pela necessidade de notas fiscais que detalham o valor dos bens e os impostos a serem recolhidos. No debate, participantes do evento falaram sobre a necessidade de regulamentar questões específicas, como a remanufatura e desonerar a doação de alimentos, por exemplo.  “É preciso alavancar esse novo modelo, pois incentivar o retorno de materiais à cadeia produtiva é oportunidade para criação de novos negócios e geração de emprego e renda”, destacou Monforte.

O professor Aldo Ometto, do Centro de Inovação em Economia Circular da USP, ressaltou que negócios em economia circular não se focam em produtos e serviços, mas na oferta de maior valor a todas as partes interessadas. “É geração de valor por mais tempo e para mais stakeholders. É preciso não só desenhar produtos e serviços, mas negócios a partir das experiências que as pessoas querem ter”, pontuou. “Por isso, esse novo modelo precisa de muita inovação e, principalmente, estar focado em um forte propósito.”

Segundo Ometto, empresas que nascem com essa visão estão obtendo maiores lucros no presente, já veem consumidores como parceiros de longo prazo. “Trata-se de uma necessária mudança de mentalidade para a focada na efetividade do sistema e não apenas na busca de resultados a qualquer custo.” 

Aldo Ometto, da USP: é preciso desenhar negócios a partir das experiências que as pessoas querem ter

CICLO DE VIDA – Pensando nisso, os participantes debateram a importância de as empresas incorporarem a prática de gestão do ciclo de vida dos produtos. De acordo com a pesquisa da FEE® e CNI, 90% conhecem o conceito de gestão de ciclo de vida (GCV) e 86% conhecem a metodologia de avaliação de ciclo de vida (ACV), que consideram e mensuram variáveis sobre o tempo de vida útil de produtos e materiais. “Essa percepção, bastante significativa, dos colaboradores da pesquisa sobre os conceitos de GCV e ACV é um ótimo indicador de que já existe uma visão sistêmica dos processos produtivos, das responsabilidades de fornecedores, transformadores e consumidores. Assim, a circularidade se torna mensurável, transparente e muito mais eficiente nos sistemas produtivos e no uso dos recursos naturais,” avaliou Thiago Rodrigues, pesquisador do programa ACV do Ibict. 

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