Um estudo da Confederação Nacional da Indústria (CNI) mostra que a indústria química como fundamental para o desenvolvimento industrial. Os dados revelam que o setor combina alto encadeamento produtivo, salários 55% acima da média da indústria de transformação nacional e cerca de 320 mil empregos gerados na economia brasileira. Mas apesar dessa relevância estrutural, o setor enfrenta desafios de competitividade e inserção internacional.
O estudo aponta que, nos últimos 20 anos, o saldo da balança comercial da indústria química apresentou queda média anual de 11,5%, culminando, em 2025, em um déficit de US$ 42 bilhões, o segundo maior do período analisado. Conforme a Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim), o redirecionamento de excedentes produtivos da Ásia, da América do Norte e do Oriente Médio para o mercado brasileiro, muitas vezes em condições predatórias de comércio, figura entre os principais fatores associados ao aumento das importações no setor.
Rodrigo Luis Comini Curi, analista da CNI, explica que o Brasil perdeu competitividade em alguns produtos químicos que, em geral, são de maior sofisticação industrial. Segmentos importantes da química fina e da petroquímica são exemplos disso. Esses são produtos que usualmente necessitam de aplicação de alta tecnologia e inovação para transformar matérias-primas básicas em produtos químicos de maior valor agregado.
“A queda sinaliza não apenas a perda de mercado externo, mas a erosão das capacidades produtivas e tecnológicas acumuladas ao longo dos anos”, afirmou Curi.
Diante de desafios de competitividade, estudo da CNI aponta que rotas verdes podem apoiar a modernização do setor, com efeitos positivos sobre eficiência e diversificação produtiva.
A descarbonização para o crescimento da indústria química
O estudo mostra que a transição energética é uma grande oportunidade para reconstruir a competitividade do setor. Segundo a OCDE, a redução de 1% nas emissões da química pode resultar na queda de 0,17% nas emissões totais da economia, devido ao forte encadeamento produtivo do setor.
Para o superintendente de Política Industrial da CNI, Fabrício Silveira, a indústria química brasileira poderia ser mais competitiva caso o gás natural fosse ofertado a baixos custos, cenário em que seria utilizado tanto como fonte energética quanto como matéria-prima.
Além do gás natural, outros insumos sustentáveis também oferecem alternativas importantes para reduzir emissões na indústria química. Destacam-se, por exemplo, o etanol (utilizado nas cadeias do açúcar, álcool e alcoolquímica), a biomassa (para produção de biocombustíveis e insumos em biorrefinarias), óleos vegetais (empregados na oleoquímica), e a bionafta obtida pelo hidrotratamento de biomassas como óleos vegetais e gorduras.
Apesar das possibilidades, o estudo alerta para desafios como altos custos de capital, volatilidade de preços da biomassa, gargalos na coleta seletiva e a ausência de mecanismos regulatórios e de incentivo que estimulem o mercado a absorver produtos com green premium.
Para enfrentar os desafios, a CNI, em conjunto com a Abiquim, elaborou propostas para o desenvolvimento da indústria química brasileira. Entre elas, está a necessidade da implementação do Programa Especial de Sustentabilidade da Indústria Química (Presiq), que recentemente foi aprovado pelo Congresso Nacional e aguarda sanção do Presidente da República.
O Presiq cria incentivos voltados à modernização de plantas industriais, substituição de matérias-primas fósseis, uso de insumos recicláveis e biomassa, aumento da eficiência energética e redução da pegada de carbono. Os estímulos estão condicionados à manutenção de empregos e ao cumprimento de metas vinculadas à sustentabilidade, inovação e eficiência tecnológica. Segundo a Abiquim, o Presiq tem potencial para gerar R$ 112 bilhões ao PIB até 2029, criar até 1,7 milhão de empregos diretos e indiretos, recuperar R$ 65,5 bilhões em arrecadação tributária, reduzir em 30% as emissões de CO₂ por tonelada produzida.
“Entre outras medidas também solicitamos crédito especial para o uso de biometano e etanol como insumo industrial, a avaliação criteriosa dos mecanismos de ajuste de carbono na fronteira como barreira não tarifária e como meio de viabilização de concorrência leal do Brasil com países que não sigam padrões de sustentabilidade, e o financiamento climático para instalação de unidades de reciclagem, plantas de químicos renováveis e biorrefinarias. É preciso fomentar também rotas de futuro, como o hidrogênio sustentável e sistemas de Captura, Utilização e Armazenamento de Carbono (CCUS)”, destacou Silveira.
O estudo conclui que a indústria química brasileira pode ser um dos vetores centrais da neoindustrialização do país. Para isso, será fundamental integrar políticas industriais, ambientais e tecnológicas. “Reverter a perda de capacidades produtivas e aproveitar a janela da transição energética são movimentos essenciais para recolocar o Brasil no mapa da química global”, ressaltou o superintendente da CNI.



