Condefesa propõe maior engajamento da indústria no combate a covid-19

O impacto da pandemia sobre a indústria brasileira de defesa e a necessidade do engajamento do setor industrial no combate à doença foram os principais temas da quinta reunião
Insumos farmacêuticos e de produção de medicamentos se tornaram produtos estratégicos de defesa

A indústria brasileira assumiu importante protagonismo no combate à pandemia e deve assumir papel cada vez mais relevante nesse enfrentamento. A afirmação é de Glauco Côrte, presidente do Conselho Temático da Indústria de Defesa e Segurança (Condefesa) da Confederação Nacional da Indústria (CNI), durante a quinta reunião do conselho, realizada no dia 27 de maio.

Ele destacou a demanda do governo e da sociedade para a indústria brasileira e mencionou a iniciativa Mais Manutenção de Respiradores da Rede do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI), que já entregou mil respiradores ao sistema público de saúde.

"Para esses resultados é importante destacar a parceria com o Ministério da Defesa, Ministério da Saúde, a Anvisa, o Ministério da Economia, a Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI) e a Associação Brasileira de Engenharia Clínica (Abeclin)", listou.

Côrte informou ainda que o Sistema Indústria está desenvolvendo estudo para mensurar a base industrial e uma pesquisa quantitativa com a base industrial de defesa, que ajudarão a aperfeiçoar a atuação do setor nesse contexto. "Um resultado já alcançado de uma dessas parcerias são os cenários prospectivos e um conjunto de mini cenários prospectivos pós-pandemia para o mundo e o Brasil, que são fruto da cooperação técnica com o Centro de Estudos Estratégicos do Exército", destacou.

De acordo com o secretário de Produtos de Defesa do Ministério de Defesa, Marcos Degaut, a pandemia trouxe a necessidade de fortalecer a indústria para garantir o suprimento em insumos e produtos e reduzir a dependência externa. “Estamos no início de um período de desglobalização, com disrupção das cadeias globais para reduzir a dependência de insumos e fortalecer a base industrial nacional”, declarou.

Degaut relatou que, com o reconhecimento do estado de calamidade pública causado pela pandemia, o Ministério da Defesa foi acionado pelo governo para envolver as Forças Armadas no enfrentamento à pandemia. Entre as primeiras iniciativas desenvolvidas pelo órgão foi se aliar ao setor empresarial nacional. “Precisamos resgatar habilidades estratégicas não só do ponto de vista de defesa, mas industrial. O Ministério de Defesa é uma das principais canais de diálogo do governo com as empresas”, afirmou.

"Sistema Indústria está desenvolvendo estudo para mensurar a base industrial e uma pesquisa quantitativa com a base industrial de defesa" - Glauco Côrte

Entre os setores que estão nesse grupo estão os de insumos farmacêuticos e de produção de medicamentos, que se tornaram produtos estratégicos de defesa.

De acordo com o presidente do Grupo FarmaBrasil, Reginaldo Arcuri, é importante fortalecer essas cadeias não só pelos riscos de desabastecimento, mas para segmentos não ficarem fragilizados com variações cambiais abruptas.

“É impossível o Brasil continuar dependente de princípios ativos de outros países e a indústria farmacêutica nacional, que já é forte e competitiva, pode evoluir para a produção de medicamentos de maior custo e com tecnologias mais avançadas”, disse. Para isso, o setor entregou propostas para fortalecimento dessa cadeia produtiva.

O chefe da divisão de Produtos de Defesa do Ministério de Relações Exteriores, Thiago Carneiro, destacou a necessidade de se repensar a relação entre estados, indústria e academia para que o Brasil possa desenvolver uma base industrial de defesa robusta e competitiva.

A tendência de desglobalização apontada por Degaut é um dos três prováveis cenários entre 2021 e 2025 apontados por estudo desenvolvido por área de inteligência do Serviço Social da Indústria (SESI), SENAI e Instituto Euvaldo Lodi (IEL), entidades ligadas à CNI.

No cenário de desglobalização, chamado de Sociedades muradas, haveria escassez de crédito, alto endividamento dos Estados, predominância de políticas de curto prazo, estagnação da transferência de tecnologias para economias menos avançadas e baixo investimento dos países em saúde pública.

Estudo aponta cenários de manutenção da globalização

Em um segundo cenário, nomeado Um mundo sem fronteiras, haveria manutenção do processo de globalização e das cadeias globais de valor, mas com mudança da produção para outros mercados asiáticos. Outros aspectos desse cenário seriam aumento dos acordos de cooperação entre países, aumento da percepção de importância da ciência, diminuição da distância tecnológica entre países desenvolvidos e emergentes, pressão do mercado de trabalho para maior flexibilização e aumento no orçamento para políticas de combate a endemias e saúde pública.

"É impossível o Brasil continuar dependente de princípios ativos de outros países" - Reginaldo Arcuri

A terceira possibilidade seria o que chamou-se Globalização Chinesa, com processo de globalização mais limitado e liderança comercial da China e manutenção da importância relativa das cadeias globais de valor, com pequenos movimentos de regresso de alguns elos da cadeia produtiva para países de origem e deslocamento de empresas para outros países asiáticos.

Outras características dessa linha seria o aumento da percepção da ciência, crescimento moderado do número de desempregados e crescimento no número de subempregados, além de aumentos no orçamento das políticas de combate a endemias e dos sistemas públicos de saúde em vários países, incluindo alguns emergentes.

"Esses cenários foram apresentados com o intuito de provocar uma reflexão sobre os redirecionamentos necessários na estratégia do Condefesa para enfrentar a pandemia no curto e médio prazo e fortalecer a indústria no médio e longo prazo num cenário de restrições", explicou o diretor-adjunto do SENAI, Sérgio Moreira.

Cenários para o Brasil pós-pandemia

O estudo trouxe ainda dois cenários possíveis para o Brasil pós-pandemia. No primeiro, chamado de Mar revolto, haveria recessão econômica, falta de reformas estruturantes, baixa atividade industrial, aumento dos níveis dos níveis de desemprego e subemprego e baixo investimentos na área de saúde.

No segundo cenário, chamado Céu de Brigadeiro, haveria crescimento moderado após 2020 – entre 3% e 5% ao ano –, obtenção de pacto político para aprovação de reformas, pequena melhoria do Sistema Nacional de Inovação e estratégias de longo prazo para melhoria dos sistemas públicos de saúde.

Durante o encontro, os presidentes dos Condefesa nos estados apresentaram propostas de engajamento da indústria brasileira de defesa no esforço nacional de combate à epidemia no curto, médio e longo prazo. As propostas servirão de base para a elaboração, pelo Conselho, de um plano de trabalho para coordenar as diversas ações do setor nessa direção.

A Indústria contra o coronavírus: vamos juntos superar essa crise

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