A sucessão empresarial segue como um dos principais desafios para famílias que comandam negócios no Brasil. A ausência de planejamento pode comprometer a continuidade das empresas, gerar conflitos internos e fragilizar a governança construída ao longo de décadas. É justamente para evitar cenários de dificuldade que cresce, cada vez mais, a busca por preparação antecipada para conduzir a transição entre gerações de forma estruturada.
Esse foi o caminho escolhido por Amanda Costa, CEO da Costa Real Laticínios. À frente de um negócio familiar, ela encontrou na Jornada de Sucessão Empresarial do Instituto Euvaldo Lodi (IEL) o suporte necessário para organizar o processo sucessório, alinhar expectativas entre sucessores e preservar não apenas a empresa, mas também os valores e a história da organização.
História que inspira
“Meu grande objetivo é receber esse legado com responsabilidade e, no futuro, poder entregá-lo à próxima geração com o mesmo orgulho e confiança com que meu pai hoje o entrega a mim”, conta Amanda. Durante a primeira etapa do programa Jornada de Sucessão, ela passou a compreender a complexidade do processo sucessório.
“O que mais me marcou foram justamente as estatísticas. Quando se entende que apenas cerca de 30% das empresas familiares sobrevivem à transição para a segunda geração, você passa a enxergar a sucessão com outro nível de responsabilidade”, completou Amanda.
A Costa Real Laticínios carrega uma trajetória marcada pela atuação do fundador, que conciliou crescimento empresarial com compromisso social e cuidado com os colaboradores. Hoje, diferentes membros da família ocupam funções estratégicas na empresa, o que reforça a importância de regras claras e de um planejamento estruturado.
Formada em Direito, com mestrados em Direito Internacional cursados na França e na Escócia, Amanda iniciou sua trajetória profissional em uma multinacional europeia. A mudança de rota ocorreu durante a pandemia, quando o trabalho remoto permitiu o retorno ao Brasil e uma aproximação maior com a família.
“Nesse período, surgiu uma oportunidade de negócios internacionais para a empresa, e, ao conversar com meu pai sobre o tema, me ofereci para ajudar. Acabei me envolvendo diretamente no processo, e foi uma experiência muito positiva, que despertou em mim um interesse genuíno pelo negócio”, afirma.
O envolvimento inicial se transformou em decisão estratégica quando o fundador da empresa a convidou para ingressar oficialmente como sócia. A partir desse momento, a CEO passou a construir sua trajetória dentro da indústria de laticínios.
O desafio da sucessão nas empresas familiares
Para Amanda, um dos principais desafios da sucessão empresarial está no encontro entre gerações. Diferenças de visão, de ritmo e de tomada de decisão fazem parte do processo, mas podem gerar conflitos quando não há diálogo estruturado.
No ambiente familiar, a complexidade se amplia. As relações extrapolam o espaço da empresa e exigem equilíbrio entre os papéis de filha e de executiva. “Conciliar esses dois lugares talvez seja um dos pontos mais delicados e, ao mesmo tempo, mais importantes de todo o processo sucessório”, avalia.
Ela explica que o planejamento sucessório costuma ser adiado por exigir renúncias. “O planejamento sucessório exige abrir mão de controle, de posição e, muitas vezes, de uma identidade construída ao longo de toda uma vida.” Mudança que para ela ocorreu de forma gradual. Segundo a executiva, nunca houve imposição familiar para que os filhos seguissem o caminho empresarial. “Me enxergar como parte do futuro da empresa veio depois, quando percebi o quanto eu estava envolvida, apaixonada pelo setor e, principalmente, quando conquistei a confiança dos colaboradores,” expõe.
Assumir a responsabilidade de construir e dar continuidade à história da família foi um dos reconhecimentos pessoais que ela teve e tem durante a sua trajetória.
“Dar continuidade a essa história, para mim, é muito mais do que assumir uma posição — é carregar valores que eu vi sendo praticados a vida inteira e ter a oportunidade de dar sequência a isso, do meu jeito, mas com a mesma essência”, destaca a empresaria.
Aprendizado coletivo e troca de experiências
Integrante da Academia de Líderes IEL, o programa Jornada de Sucessão do IEL tem como base a articulação entre teoria e prática, com interesse no desenvolvimento do pensamento crítico, de competências de liderança e de influência estratégica. A iniciativa busca apoiar empresas industriais familiares na construção de um plano de ação voltado à longevidade organizacional, com correalização da Cambridge Family Enterprise Group.
Para a Amanda Costa a decisão de participar do programa surgiu da necessidade de transformar conversas informais em um processo estruturado. A credibilidade do IEL foi determinante para envolver a família na iniciativa, ela explica que o processo só ganhou estrutura e direcionamento a partir da sua participação no programa, o que levou mais clareza sobre os caminhos, possibilidades e abriu espaço para tratar de temas importantes de forma objetiva.
O programa funciona no formato híbrido, com encontros presenciais e remotos, e é organizado em três etapas: embarque, workshop e formação. Ao final, os participantes recebem certificado de conclusão. A metodologia é voltada a novos líderes industriais e membros de empresas familiares interessados em planejar a sucessão.
O ambiente de troca com outros empresários e herdeiros também teve papel central na experiência. “Ouvir histórias de outras famílias e empresas, muitas vezes passando por desafios semelhantes, traz aprendizado e faz entender que essas dificuldades fazem parte do processo”, conta Amanda. Segundo ela, a diversidade de realidades amplia a visão estratégica e contribui para decisões mais maduras, baseadas não apenas em acertos, mas também em erros já vivenciados por outros participantes.
Nas próximas etapas do programa, Amanda espera aprofundar sua atuação como líder, equilibrando respeito ao legado do fundador e construção de uma identidade própria à frente do negócio. O objetivo é conduzir a transição com maturidade, preservar a essência da empresa e preparar o caminho para as próximas gerações. “Sucessão não é um indicador de falha, é um sinal de maturidade e visão de futuro”, finaliza.




