Novo ensino médio é inclusivo para a juventude, diz diretor do SESI e do SENAI

Rafael Lucchesi participou do seminário Educação 360 Jovem Tech, nesta sexta-feira, no Rio de Janeiro. Evento é realizado paralelamente ao Festival SESI de Robótica na cidade
Lucchesi lembrou que a falha na educação repercute na produtividade do trabalhador brasileiro

A implementação do novo ensino médio foi o tema central do seminário Educação 360 Jovem Tech, evento promovido pelo jornal O Globo em parceria com o Serviço Social da Indústria (SESI) e Colégio P.H. As quatro mesas de debates, formadas por especialistas em educação e estudantes, ocorreram na sexta-feira (15), no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro.

Embora o novo ensino médio esteja em implementação em algumas escolas brasileiras e já tenha normativas do Ministério da Educação (MEC), como a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e as diretrizes curriculares, ainda há dúvidas e resistências. Principalmente, em relação ao modo de condução das discussões sobre o modelo e como se dará a aplicação para realidades educacionais tão diferentes existentes no Brasil - das sociais às territoriais.

Representando o SESI e o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI), Rafael Lucchesi foi enfático em defender a mudança nessa fase de ensino brasileiro durante a sua participação no painel Formação para o Trabalho. Segundo Lucchesi, que foi o relator da reforma do ensino médio no Conselho Nacional de Educação (CNE), o ensino médio brasileiro da forma atual contribui para o crescimento da geração dos “Sem-sem” no Brasil - os jovens sem estudo e sem trabalho. O termo é uma derivação da geração “nem-nem”, jovens que não trabalham, nem estudam. 

Ainda de acordo com Lucchesi, que é diretor-superintendente do SESI e diretor-geral do SENAI, a escolaridade brasileira média de 8 anos é baixa, em comparação com outras nações. Essa escolarização mínima brasileira foi atingida apenas no início do século XXI, quando em nações desenvolvidas, o índice foi alcançado no século anterior.

Ele destacou ainda que 80 milhões de brasileiros não têm, sequer, o ensino médio, e, com isso não conseguem ingressar no mercado de trabalho de forma eficiente, o que contribui para a baixa produtividade do trabalhador. São necessários quatro trabalhadores para fazer o mesmo serviço de um norte-americano, por exemplo. “O ensino médio brasileiro da forma como está é elitista, anacrônico e precisa dessa transformação inclusiva, sobretudo, para a juventude”, ressaltou.

Ana Inoue destaca que a baixa aprendizagem no ensino médio é indicativo da necessidade de reforma

Ana Inoue, assessora de Educação do Itaú, seguiu a linha de raciocínio de Lucchesi. Segundo ela, foi necessário repensar o ensino médio brasileiro, uma vez que os dados mostram que 92,7% dos alunos não têm o desempenho adequado em matemática. Em português, o índice é de 72,8%. Além disso, no Brasil, 83,2% dos concluintes do ensino médio não entram na universidade. Por isso, ela defende a inclusão do itinerário de formação profissional no ensino médio, conforme prevê a reforma.

“A gente não tem vaga para todo mundo. O que o Brasil está oferecendo para os 83% de estudantes que não entram na universidade?”, questionou. “Precisamos desapegar dessa ideia rançosa que falar de trabalho para o jovem é diminuir o exercício de cidadania. É o contrário. A gente defende um ensino médio emancipatório”.

DESIGUALDADES- A diretora do Instituto Inspirare, Ana Penido, acredita que os itinerários formativos no novo ensino médio são um ganho para a formação do ensino médio. No entanto, ela tem dúvidas sobre como o texto das normativas será aplicado em um país como o Brasil, com tantas desigualdades sociais, econômicas e territoriais. “Eu costumo dizer que o diabo mora na implementação. O papel aceita tudo. Nós temos que ser criteriosos na hora de implementar”, argumentou.

Ana Penido lembrou que as escolas podem ter dificuldades de executar os itinerários: existem municípios que têm apenas uma escola de ensino médio e que não terão condições de oferecer todas as possibilidades previstas em lei. O mesmo pode ocorrer em escolas públicas em regiões mais carentes. Essa situação pode manter a desigualdade no ensino.

Público acompanha os debates no auditório do Museu do Amanhã

Priscila Cruz, presidente-executiva e cofundadora do movimento Todos pela Educação, afirmou que o ensino médio da forma como está não faz mais sentido para o país. “O ensino médio virou um puxadinho do ensino fundamental 2”. Assim como Penido, ela tem dúvidas quanto à aplicação. “O meu receio é que os itinerários deixem de garantir outras aprendizagens. Isso é um perigo. Mas eu acredito que podemos aproveitar a oportunidade e transformar a reforma em algo bom”.

O aluno de ensino médio Abner dos Santos disse que há aspectos positivos na reforma, entretanto, vê dificuldades em sua implementação por conta da Emenda Constitucional 95, que fixou um teto de gastos públicos, o que atinge a educação. A estudante do SESI-AM Valesca Mendes comenta que já estuda no novo modelo de ensino médio e que está se adaptando à integração de conteúdos. “É interessante ver uma aula com vários professores, eles estão aprendendo a conviver, antes, cada um cuidava da sua aula”. A sua principal crítica ao modelo é que ela acha precoce a escolha de uma área de conhecimento para se aprofundar, uma vez que a escolha é feita no primeiro ano.

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