Gestão deve estar no centro do debate sobre melhoria do aprendizado

Gestores e especialistas avaliaram, durante o Seminário Internacional SESI de Educação, que escolas precisam ter um plano de metas alinhado a objetivos estratégicos para reverter aumento de recursos em qualidade de ensino
O SESI, por exemplo, contratou a Fundação Chile para construção do Programa SESI de Gestão Escolar de Qualidade

A gestão escolar deve ser o centro do debate sobre a melhoria da qualidade da educação no Brasil. A avaliação de gestores e especialistas que participaram do Seminário Internacional SESI de Educação, nesta quinta-feira (12), é a de que é preciso buscar a eficiência no uso dos recursos disponíveis para que o investimento reflita-se em maior aprendizado dos nossos estudantes. Um dos caminhos é dotar cada escola de um plano, com objetivos e metas, para se atingir os resultados previamente definidos. 

O Serviço Social da Indústria (SESI), por exemplo, contratou a Fundação Chile para construção do Programa SESI de Gestão Escolar de Qualidade. O projeto vai ajudar os diretores de cada escola a realizar um diagnóstico de sua realidade, a definir objetivos e elaborar um plano para melhoria com as ações necessárias a serem empreendidas. Além disso, será feito acompanhamento e avaliação externa dos efeitos do planejamento nos resultados esperados. 

“Temos de colocar a gestão como ponto central do debate. Se a gente quer fazer as transformações, precisamos saber aonde queremos chegar, quais são os resultados, para que estamos trabalhando. A escola também precisa ser bem gerida para gerar resultados”, defendeu o diretor de Operações do SESI, Paulo Mól, durante o painel Gestão Escolar com Foco em Resultados: efeito escola nesta quinta-feira.

Todo o projeto passa pela capacitação dos gestores escolares, já que a maioria não tem qualificação específica, explicou o diretor do SESI. De acordo com o Censo Escolar do Ministério da Educação, 80% dos diretores são mulheres com mais de dez anos como professoras (62%) e formação em Pedagogia (40,6%). 

“Temos de pensar que as habilidades requeridas para a gestão da escola não necessariamente são as mesmas para ministrar as aulas, para estar dentro da sala de aula. Obviamente que aquelas professoras que já conhecem bem a escola, estão bem alinhadas com a didática, com o dia a dia escolar têm uma empatia muito grande dentro do ambiente, mas as habilidades requeridas numa direção são um pouco diferentes. Então a gente pode ter excelentes professores que pode ser que não performem tão bem como diretores”, analisou Paulo Mól. 

Aumento do gasto em educação não se refletiu em melhoria do aprendizado

A falta de preparo para a gestão das escolas é um dos fatores que explica o fato de o Brasil ter triplicado o gasto por aluno, mas isso não se refletiu, na mesma proporção, no aumento de aprendizado dos estudantes. “Dado que triplicamos o gasto por aluno, a gente esperaria um aumento maior no aprendizado, especialmente no ensino médio. Parece haver um gargalo nesse ciclo, e eu acredito que grande parte desses gargalos é devido à gestão. Não são todas as redes que têm uma capacidade para usar melhor os recursos, para aplicar melhor os recursos disponíveis de forma a aumentar o aprendizado do aluno”, avaliou o professor do Insper e da FEA-USP, Naércio Menezes durante o seminário. 

Segundo ele, um dos problemas dos gestores é a falta de evidências e informações para implementar medidas, que, muitas vezes, custam pouco e têm resultados importantes. “Parece faltar informação para os gestores sobre quais são as políticas que podem aumentar o aprendizado, quais são as prioridades, o que pode ser feito para melhorar a gestão, e geralmente isso não custa muito dinheiro”, explicou Menezes. “A gente tem o papel de pensar em políticas para melhorar o fluxo de informações para os gestores.”

Outro caminho a ser trilhado pelos gestores nesse campo é buscar os fatores de sucesso de experiências que produziram bons resultados, a fim de construir uma estratégia de ação, defendeu o secretário de Educação de Pernambuco, Fred Amâncio. “Durante um bom tempo, olhávamos para a Finlândia quando buscávamos como fazer a educação avançar. Mas precisamos entender que temos bons exemplos no Brasil, e podemos aprender e identificar os fatores de sucesso para o resultado. O ponto chave é identificar esses fatores, entender o que deu certo, o que não necessariamente envolve um grande volume de recursos”, avaliou. 

Estratégia de melhoria deve estar alinhada em todos os níveis de gestão

Segundo o secretário de Pernambuco, a estratégia de melhoria da gestão deve envolver todos os níveis da rede de ensino para que as medidas estejam tanto alinhadas com uma visão abrangente de objetivos quanto possam se diferenciar de acordo com a realidade de cada escola. “É muito importante ter um alinhamento estratégico do que vai ser desenvolvido nas escolas, articulado com as evidências das avaliações em larga escala, dos resultados para que se possa levar essa reflexão para o dia a dia das escolas”, explicou Amâncio.

“Toda boa estratégia de gestão não pode envolver apenas ou o nível estratégico, o governador ou o secretário de Educação, nem pode envolver apenas só a escola, para que ela não fique desarticulada da rede, tem de envolver todos os níveis, inclusive o tático, das gerências regionais”, complementou. 

Na opinião do chefe de Educação do Unicef no Brasil, Ítalo Dutra, que também participou do seminário, os gestores precisam observar ainda que a escola faz parte de um sistema de proteção social, responsável, muitas vezes, pela garantia da segurança alimentar das crianças, assim como pelo atendimento de necessidades de grupos específicos, como os indígenas.

“A escola está em um contexto em que a comunidade, a família, o sistema de proteção social precisam atuar de forma conjunta e ter competências de gestão para fazer isso acontecer, fazer essa roda rodar. Isso é absolutamente importante para a gente conseguir o desenvolvimento para a vida de nossas crianças e adolescentes e para o país que a gente precisa e merece”, argumentou.

Durante uma semana, o 2º  Seminário Internacional SESI de Educação - Educação para o Tempo Presente reuniu especialistas nacionais e internacionais para debater temas fundamentais da escola do século 21, que estimule o envolvimento ativo dos alunos com experiências da vida real, por meio da solução de problemas, da investigação, da descoberta e da inovação. O evento, que termina nesta sexta-feira (13) com painel sobre o novo ensino médio, é realizado em parceria com a Fundação Roberto Marinho e o Canal Futura, sempre das 17h às 19h no Youtube do SESI

Relacionadas

Leia mais

Formação de professor precisa ter foco na prática, defendem especialistas
Espaço de aprendizado além muros da escola estimula a criatividade dos alunos
Escola deve usar a mídia para desenvolver cidadania nos alunos, sugere educador italiano

Comentários