Sim. Em Brasília, temos indústria!

Indústria brasiliense aposta em inovação, sustentabilidade e resiliência para desafiar visão caricata da capital federal

Fotos: Gabriel Pinheiro / CNI 

Nem só de avenidas largas, traçados modernos e política efervescente é feita a capital federal. No coração do Planalto Central, também se escutam os barulhos de máquinas e trabalhadores que desafiam a visão caricata da cidade. Sim. Em Brasília, temos indústria. 

A pouco mais de dez quilômetros da agitada Praça dos Três Poderes, a Zero Impacto promove uma transformação silenciosa. A indústria de logística reversa recicla cerca de 60 toneladas de resíduos eletroeletrônicos, como celulares, tablets e computadores, por mês, impedindo o descarte incorreto desses materiais no meio ambiente, explica Felipe Ferreira, sócio fundador da empresa. 

“Quando não tratados do jeito certo, esses resíduos representam um risco à saúde humana e ao meio ambiente, devido à presença de metais pesados e componentes tóxicos. Nosso trabalho contribui diretamente para evitar a contaminação do solo e da água, além de reduzir a emissão de gases de efeito estufa, em especial o CO₂, por meio da reinserção de materiais na cadeia produtiva e da diminuição da extração de matérias-primas”, pontua. 

Além de coletar os resíduos eletrônicos de pessoas físicas e empresas, a Zero Impacto tem dezenas de pontos de entrega voluntária espalhados pelo Distrito Federal. A indústria brasiliense quer inspirar iniciativas semelhantes em outros estados do país. 

“Quando a gente abriu a Zero Impacto, em 2010, as pessoas não tinham onde descartar lixo eletrônico. Fomos a primeira empresa a fazer isso no DF. Pela facilidade logística, dá para a gente fazer um trabalho de excelência em Brasília. Nós queremos ser referência para o país”, projeta. 

A empresa não tem compromisso apenas com a sustentabilidade. A Zero Impacto tem um laboratório de recondicionamento de eletroeletrônicos, voltado à inclusão social. “A realidade das escolas públicas do DF assusta. Como os alunos têm acesso à informática se não tem máquinas? Até o momento, doamos computadores para cinco escolas e três administrações regionais. A nossa meta é doar 400 computadores, conta o empresário. 

Nome mineiro, sabor brasiliense 

A Ouro Preto Chocolates, que fabrica brownie, alfajor e outros quitutes, pode até ter nome de cidade mineira, mas nasceu na varanda de um apartamento em Águas Claras, bairro da capital federal. A pequena indústria surgiu como um negócio familiar, tocado pelos dois irmãos de Tiago Nishiyama, 29, que hoje administra a empresa. 

“Meus irmãos vendiam pão de mel em algumas escolas e me chamaram para participar do negócio. Eu não quis entrar com o dinheiro, mas topei ajudar a vender. Eles vendiam 20 por semana. Um dia, levei 40 unidades 
para vender antes da aula do cursinho, e vendi tudo. No intervalo, vendi mais. Foi aí que decidi entrar no negócio”, conta o empresário. 

Menos de seis meses depois, os irmãos foram obrigados a alugar um novo espaço, graças ao crescimento repentino da empresa. “Chegou um momento que a gente estava usando não só a varanda, mas a cozinha, a sala e até os quartos de casa. A minha mãe disse: ‘vocês têm uma semana para sair daqui e arrumar um local para produzir’. Ela não estava fazendo isso para nos mandar embora, mas via que estava na hora de darmos um passo maior”, lembra Tiago.  

Deu certo. Se você é de Brasília, Goiânia ou até mesmo de Salvador, provavelmente já se viu tentado a comprar um doce da marca, que está em lojas de conveniência, hotéis, padarias, escolas e hospitais. Hoje, a Ouro Preto Chocolates fabrica cerca de sete mil unidades de doces por dia. A empresa, que começou com um aporte de R$ 300 reais, fatura cerca de meio milhão de reais e emprega 14 pessoas, contribuindo com a economia local. 

A meta dessa pequena indústria é ser reconhecida nacionalmente como “encantadora e excelente em tudo o que faz” até 2028. “Temos dois mil clientes em Brasília, mas quantas pessoas a gente consegue atingir no Brasil? Dá para melhorar”, projeta Tiago. 

Pilar do desenvolvimento 

O presidente da Federação das Indústrias do Distrito Federal (FIBRA), Jamal Jorge Bittar, destaca como a indústria é importante para a economia local. Apostar no setor, ele diz, é o melhor caminho para desenvolver Brasília. 

“O DF tem uma indústria que emprega mais de 128 mil trabalhadores e que participa do PIB local com mais de R$ 11 bilhões por ano. O setor, com apoio do Sistema Fibra, tem evoluído em tecnologia, inovação e em competitividade, e a consequência é demonstrada no crescimento da participação da indústria na economia local. Com uma política de Estado, de longo prazo, a indústria tem capacidade de ser o grande pilar do desenvolvimento econômico e social do Distrito Federal”, afirma. 

Procompi impulsiona competitividade das MPEs do DF

E o que não falta é gente querendo estimular todo o potencial da indústria brasiliense. O Programa de Apoio à Competitividade das Micro e Pequenas Indústrias (Procompi), iniciativa da CNI em parceria com o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), por exemplo, capacitou a Zero Impacto e a Ouro Preto por meio de uma mentoria com foco em transformação digital. 

O projeto orientou as empresas a implementarem ou melhorarem seus canais de venda online, estratégias de marketing digital, presença em redes sociais e uso de ferramentas tecnológicas para gestão e monitoramento de desempenho. 

Cada empresa passou por um diagnóstico detalhado e por uma trilha de capacitação prática, adaptada às suas necessidades, com o objetivo de fortalecer sua atuação no ambiente digital e ampliar sua competitividade. 

Ao final do projeto, representantes da Confederação Nacional da Indústria (CNI), da FIBRA e do Sebrae visitaram as duas indústrias e puderam ver como a mentoria tem contribuído para o crescimento dos negócios. 

“A visita às empresas do Distrito Federal foi uma oportunidade valiosa e inspiradora ao ouvir os empresários da região. Além disso, conhecer de perto um modelo de negócio inovador e sustentável implantado na capital reforça que é possível construir uma empresa desde o início com responsabilidade, agregando valor à economia local e impulsionando práticas industriais mais modernas e conscientes”, afirma Clarissa Garcia, analista de Políticas e Indústria da CNI. 

“A mentoria nos mostrou uma ferramenta de licitações pela qual podemos pesquisar onde há processos para conseguir mais resíduos e aumentar nossa produtividade. É o que a gente estava precisando”, diz Vanessa Oliveira, assistente administrativa da Zero Impacto. 

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