A larva-de-farinha (Tenebrio molitor) é um inseto de poucos centímetros que serve de matéria-prima para farinha proteica, óleo e coprodutos na Biofábrica São Luís, no Maranhão. A empresa desenvolve uma plataforma para produzir proteínas alternativas a partir da criação e do processamento desses insetos. Ela é uma das empresas residentes do Hub SENAI de Inovação e Tecnologia, em São Luís.
A empresa estrutura a produção no modelo de uma biorrefinaria de insetos, que aproveita diferentes componentes da biomassa para obter farinha, óleo, quitina e quitosana. A farinha concentra a fração proteica. O óleo tem potencial de aplicação para além da alimentação, enquanto a quitina e a quitosana abrem possibilidades nas áreas de materiais, agricultura e produtos biodegradáveis.
A proposta é aproveitar praticamente todo o ciclo produtivo. A criação envolve reprodução, alimentação, manejo, processamento e fracionamento da biomassa. Pupas e outros estágios do ciclo biológico também podem encontrar aplicação em diferentes cadeias.
Da escala experimental à produção industrial
O modelo coloca a Biofábrica diante de um desafio comum a empresas de base tecnológica: transformar uma solução desenvolvida em escala experimental em uma operação industrial. É nesse ponto que a empresa encontrou no Hub SENAI de Inovação e Tecnologia uma estrutura para avançar no desenvolvimento do negócio.
Criado pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI), o núcleo funciona como ambiente de inovação aberta e conecta indústrias, startups, estudantes, pesquisadores e parceiros. A proposta é aproximar demandas reais do setor produtivo de conhecimento e tecnologia capazes de gerar soluções aplicáveis.
Para Cláudio Urbano, sócio da Biofábrica São Luís, um dos ganhos dessa aproximação é o acesso ao conhecimento e à estrutura do SENAI-MA, além do contato com outras empresas. A intenção, segundo ele, é aproveitar o ambiente para ampliar as possibilidades de desenvolvimento da tecnologia. “Já identificamos afinidade com pelo menos três iniciativas do ecossistema”, afirma Urbano.
Uma delas é a Cervejaria Dona: o resíduo gerado pela produção de cerveja artesanal pode ser aproveitado na alimentação dos insetos. As outras são a Acerolima, que produz polpa de frutas, e a Sabor da Ilha, que fabrica geleias. Os bagaços e cascas desses processos produtivos podem servir como insumo ou suplementação para os insetos.
O Hub também atua com pesquisa aplicada, prototipagem e desenvolvimento tecnológico. A estrutura oferece laboratórios de fabricação digital e ambientes de experimentação para o desenvolvimento de produtos e soluções.
Uma fábrica dentro da fábrica
A produção de insetos não se resume à obtenção de farinha. O projeto busca criar uma plataforma capaz de separar e direcionar diferentes componentes da biomassa para mercados distintos. A diversificação obtida com a farinha, o óleo, a quitina e a quitosana é relevante para o modelo de biorrefinaria porque amplia as possibilidades de aproveitamento econômico da mesma matéria-prima e busca reduzir perdas.
A tecnologia está na fase de protótipo funcional e validação em escala piloto, com produção ativa de farinha proteica, óleo e coprodutos. A empresa também comercializa tenébrios vivos, que formam a base do sistema produtivo. Na passagem entre o protótipo e a escala industrial, a empresa busca apoio em diferentes frentes. O Hub SENAI organiza suas ações em 6 frentes:
- Transformação digital;
- Aceleração de startups;
- Prototipagem e pesquisa aplicada;
- Capacitação profissional;
- Captação de recursos; e
- Fortalecimento da rede de parceiros.
Para empresas como a Biofábrica, a combinação dessas frentes pode aproximar desenvolvimento tecnológico, mercado e fontes de financiamento. O espaço físico oferecido pelo Hub SENAI e a possibilidade de troca de informações com outras empresas presentes no local também são pontos destacados por Cláudio Urbano.
Resíduos conectam diferentes cadeias produtivas
A economia circular está no centro do modelo da Biofábrica. Em vez de depender exclusivamente de matérias-primas produzidas para alimentar a criação dos insetos, a empresa pode incorporar resíduos orgânicos de outras atividades. A possibilidade de utilizar resíduos de cervejarias e do processamento de frutas cria uma conexão entre diferentes cadeias produtivas e pode reduzir o volume de material destinado ao descarte.
Essa lógica transforma o problema ambiental de uma indústria em oportunidade para outra. O resíduo deixa de ser apenas algo que precisa ser descartado e passa a ter potencial de valor econômico. É uma dinâmica que o Hub SENAI procura estimular ao aproximar empresas, startups e pesquisadores.
A criação de insetos abre uma frente associada à bioeconomia e ao aproveitamento de recursos. O interesse da Biofábrica está em transformar essa possibilidade em processo industrial. Para isso, a empresa precisa validar produtos, aprimorar o sistema produtivo e encontrar aplicações comerciais para cada fração da biomassa. O desafio é transformar biomassa em diferentes produtos, conectar cadeias produtivas e levar uma tecnologia que já funciona em escala piloto para uma operação capaz de competir no mercado.
No caso da criação de insetos, essa indústria pode começar justamente onde outras enxergam apenas descarte: nos resíduos que sobram da produção de cervejas, frutas e outros alimentos. A aposta da Biofábrica é transformar esse material em alimento para insetos, os insetos em biomassa e a biomassa em uma variedade de produtos.





