Jovem dá aulas de educação financeira para refugiados de graça

Ex-aluna do colégio SESI Internacional foi voluntária e deu um workshop em Boa Vista (RR). Para Beatriz Gardolinski, ter conhecimento sobre o uso do dinheiro é tão importante quanto aprender um novo idioma
Beatriz foi convidada por uma professora que deu aula para ela de educação financeira

Já pensou em como seria entrar em outro país sem nada? Sem comida, sem casa e sem dinheiro? Deixar quase tudo pra trás em busca de uma vida melhor... Uma dura realidade, vivida por milhões de pessoas, em todo o mundo. Inclusive aqui na América do Sul. Nos últimos anos, milhares de venezuelanos precisaram deixar o país vizinho em busca de melhores condições de vida. Muitos vieram para o Brasil.

A difícil realidade dos refugiados chamou a atenção de Beatriz Antoniazzi Gardolinski, 19 anos. Ela queria ajudar àquelas pessoas e encontrou uma maneira: dividindo conhecimento, com aulas sobre finanças para refugiados. 

Parte do conhecimento nesta área, foi adquirida no colégio SESI Internacional, em Curitiba – conhecido por oferecer os conteúdos do ensino fundamental e médio de forma integrada, em português, inglês e espanhol – durante o ensino médio. Lá, além da grade normal, ela também fez o curso  extracurricular na área de finanças duas vezes. Na primeira, cursou sozinha e na segunda, participou como tradutora de um refugiado sírio. Foi assim que a jovem percebeu a importância de alguém realizar o trabalho de ensinar o assunto para refugiados. 

“O Colégio do Serviço Social da Indústria (SESI) me deu a base, desde o conhecimento técnico até formas de apresentação, tudo. Foi lá que tive contato com intercambistas do mundo inteiro e entendi que tem estilos diferentes: um francês é diferente de um refugiado sírio, por exemplo”, conta a jovem.

Beatriz acredita que a educação financeira é tão necessária quanto aprender um novo idioma. “Você conseguir se estruturar, por exemplo, é mais importante do que ir para uma aula de português, até porque você precisa de dinheiro para pegar o ônibus”, afirma a paranaense. 

Estudante de Relações Internacionais, Beatriz foi convidada para ser voluntária e ministrar dois cursos sobre o assunto durante o Inspira Boa Vista em agosto de 2019 - evento apoiado pela ONU, por meio do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) e o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR) - em Roraima, estado que mais recebeu refugiados venezuelanos. 

“Foi uma experiência incrível. Nas turmas que eu dei aula, quase todas as meninas estavam grávidas ou já têm filhos. Então foi uma dinâmica bem diferente. Apesar de a maioria não falar o mesmo idioma, dei o workshop em português para que eles conhecessem os termos como cheque especial e empréstimo. Eles precisam saber disso agora que estão no Brasil”, explica ela, que fez uma vaquinha para passar cinco dias na cidade.

De acordo com dados do Cômite Nacional para os Refugiados (CONARE) na 4ª edição do relatório “Refúgio em Números”, o ano de 2018 teve o maior número de solicitações de reconhecimento de refugiados. Isso porque o fluxo venezuelano de deslocamento aumentou exponencialmente. No total, foram mais de 80 mil solicitações no ano passado, sendo 61.681 de venezuelanos. E é para essas pessoas que a paranaense está criando projetos para ensinar o que ela aprendeu.

Beatriz com o grupo de voluntários em Boa Vista. Ela voltou para cidade onde mora, mas continua conversando com os amigos que fez durante o trabalho

“Em Boa Vista dei aula para duas turmas e me conectei bastante com eles. No final do segundo dia, eu passei uma dinâmica em que eles deveriam escrever o que desejavam para um futuro próximo em uma folha em branco. Um deles não escrevia nada e quando fui conversar, ele disse que não podia sonhar enquanto o irmão dele estivesse na Venezuela. Sugeri que colocasse como sonho trazê-lo de lá e quando terminou, ele levantou, me abraçou e chorou”, relata Beatriz sobre a experiência transformadora que viveu.

Apesar de já ter retornado para Curitiba (PR), onde mora, ela não se desligou dos amigos que fez em Roraima. Muito pelo contrário. Ela conversa diariamente com os amigos e fica por dentro de tudo que acontece nos campos de refugiados. Entre o trabalho e a faculdade, nos tempos livres, gosta bastante de conhecer lugares novos. Entre os livros e textos de Relações Internacionais, a jovem também assiste a séries e vai ao cinema.

Nos objetivos da estudante, está conseguir apoio para levar o projeto para mais pessoas. “Meu plano é conseguir institucionalizar todo esse conhecimento e conseguir apoio para que isso fique maior. Estou redesenhando o curso para os refugiados curitibanos e procurando parceiros específicos pra que isso aconteça, porque eles não têm culpa. Mas apesar de tudo eles mantém a esperança. Vieram para cá tentar uma vida melhor e eu quero ajudar”, explica a paranaense.

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