Para pensar o desenvolvimento da Amazônia, é essencial ouvir as pessoas da região

Prefeitos, empreendedores, lideranças indígenas e especialistas pedem que a cultura, a vida nas cidades e o dia a dia da população amazônica sejam protagonistas do debate sobre a Amazônia Legal
"Queremos que o Brasil avance de forma respeitosa. Não queremos ser vítimas, queremos ser ouvidos" - chefe Almir Suruí, presente no evento preparatório do Fórum Amazônia+21

Mobilidade, acesso a crédito, logística para escoamento da produção, tributação mais inteligente, geração e distribuição de energia limpa para todos são temas que preocupam autoridades, liderenças comunitárias e pesquisadores que vivem na Amazônia Legal, uma região de 5,2 milhões de quilômetros quadrados onde vivem mais de 23 milhões de pessoas. No Brasil e no mundo, é mais comum que a imensidão amazônica seja vista apenas por sua floresta, seus imensos rios, sua fauna e flora exuberantes e fundamentais para todo o planeta.

Mas se os objetivos do país e da comunidade internacional é cuidar do bioma e de sua biodiversidade, mantendo a floresta em pé, é fundamental cuidar para que as pessoas possam ter acesso a serviços básicos de qualidade, como acesso à energia e transporte, vivam sua cultura e sejam capazes de produzir, gerar riqueza e renda a partir da convivência com o ambiente que as cerca. Eis a principal recomendação do quarto encontro preparatório do Fórum Mundial Amazônia+21, realizado nesta quarta-feira (14) e transmitido pelas redes sociais da Confederação Nacional da Indústria (CNI).

“Hoje ouvimos quem vive, trabalha e conhece a Amazônia sem um olhar simplista, apenas focado no meio-ambiente. É preciso conhecer as culturas e compreender que o desenvolvimento econômico é o principal mecanismo de conservação da vida na região”, explicou Marcelo Thomé de Almeida, coordenador do Fórum, presidente da Federação das Indústrias do Estado de Rondônia (FIERO) e da Agência de Desenvolvimento de Porto Velho. Foram quatro painéis de debates com foco em cultura, empreendedorismo e cidades da Amazônia. Em todos eles, participaram homens e mulheres que moram, trabalham e produzem na região.

A primeira sessão, sobre a história e a vida na Amazônia e a diversidade dos povos da floresta, reuniu o Chefe Almir Suruí, o historiador Márcio Souza e o geógrafo Gustavo Rangel. Para o professor Rangel, é possível desenvolver a economia na Amazônia sem desmatar e hoje há vários exemplos de desenvolvimento local com políticas sustentáveis, racionais e eficientes. A geografia da região, assegurou o pesquisador, permite que a economia da região cresça a partir de novos modelos de pecuária e lavoura, com planos de manejo, com extrativismo, sem qualquer necessidade de desmatamento. “Temos que ter vontade e consciência porque a tecnologia para isso já está disponível”, disse Rangel.

"É preciso conhecer as culturas e compreender que o desenvolvimento econômico é o principal mecanismo de conservação da vida na região" - Marcelo Thomé, coordenador do Fórum

O Chefe Suruí reconheceu que já teve uma posição mais radical na defesa da Amazônia, mas hoje quer discutir propostas “sem apontar inimigos". "Queremos que o Brasil avance de forma respeitosa. Não queremos ser vítimas, queremos ser ouvidos. Queremos contribuir com o Brasil, e a questão ambiental está ligada ao equilíbrio econômico”, destacou o líder indígena.

Na segunda sessão da manhã, o coordenador da plataforma Amazoniativa, da IBVRio, Beto Mesquita, contou como uma parceria com o governo de Rondônia tornou possível a criação de um portal de apresentação de produtos sustentáveis da Amazônia que ganhou o mercado em países europeus. A plataforma tem 50 produdores cadastrados para a venda de objetos de decoração, cosméticos e alimentos dos nove estados da Amazônia Legal. Todos os produtos têm valor agregado, promovem a cultura e as relações sociais em toda a cadeia produtiva e têm origem no manejo sustentável da floresta. 

Para debater com Mesquita, três empreendedores da Amazônia contaram como é produzir de forma sustentável na região. Maria Jaqueline Freire fundou há três anos a Saboaria Rondônia, que fabrica sabonetes e cosméticos a partir dos frutos da floresta. O capital inicial da empresa foi de R$ 152. “Não temos acesso a crédito”, ela reivindicou. E a tributação da produção não leva em conta os benefícios socioambientais do trabalho. “Sou tributada igual um posto de gasolina”, explica Freire.

No estado de Mato Grosso e também em Rondônia, a Rede Floresta, representada por Saulo Gomes, alcança três mil pessoas em diferentes comunidades indígenas para a produção de castanha, borracha e açaí, sob a lógica de serviços socioambientais. “Precisamos de mais treinamento para aprimorar nossos produtos, de mais tecnologia, de conhecimento sobre marketing digital”, pediu Gomes.

Atuando na franja do chamado arco de desmatamento, na divisa entre Mato Grosso, Amazônia e Rondônia, a Cooperativa dos Agricultores do Vale do Amanhecer (Coopavam), de Paulo Nunes, compra castanhas junto a produtores de quatro territórios indígenas e os remunera pagando praticamente o dobro do preço do mercado para gerar mais riqueza no local. A cooperativa investe ainda no beneficiamento da produção, em formato de óleo e farinhas para agregar valor aos produtos da floresta. “A logística é um enorme gargalo para nosso trabalho. É muito caro escoar nossa produção. Temos que desatar esse nó”, pediu Nunes.

Em Boa Vista (RR), a prefeitura tem instalado pequenas usinas fotovoltaicas em comunidades indígenas que vivem na cidade

O papel das cidades amazônicas

No período da tarde, os debates tiveram como foco o papel das cidades na promoção do desenvolvimento sustentável da Amazônia, que tem 772 cidades onde vivem 80% da população da região, assim como a média nacional. Mas essas cidades são muito pouco lembradas quando se debate o desenvolvimento da Amazônia, por exemplo, como garantir acesso à energia elétrica e mobilidade urbana.

Em Boa Vista (RR), a prefeitura tem instalado pequenas usinas fotovoltaicas em comunidades indígenas que vivem na cidade. O município também tem economizado muitos recursos com a instalação de painéis fotovoltaicos na sede da prefeitura, no teatro e no mercado municipal e no terminal de ônibus, que passou a ser totalmente climatizado apenas com o uso dos painéis.  "A mudança se deu a partir de uma decisão política. Hoje, Boa Vista é a cidade que mais investe em energia limpa e renovável do país", afirmou a prefeita Teresa Surita.

Para o diretor regional da ONU-Habitat para América Latina e o Caribe, Elkin Velásquez, estar atento os desafios da região e as soluções mais viáveis para cada cidade é fundamental para que não se deixem pra trás as populações mais vulneráveis. "Em toda a região amazônica temos 42 cidades com mais de 100 mil habitantes. São espaços que precisam de um olhar diferente", destacou Velásquez. Para o secretário-executivo da Frente Nacional de Prefeitos, Gilberto Perre, os governos locais são parceiros essenciais para se pensar o desenvolvimento sustentável da região.

Também presentes ao debate, os prefeitos de Macapá (AP), Clécio Vieira, e de Porto Velho (RO), Hildon Chaves, chamaram a atenção para a diversidade presente na região e para a concentração populacional nas capitais dos estados. “Vivemos em um país continental onde temos vários ‘brazis’. Dentro da Amazônia temos ‘amazônias’ distintas”, destacou Vieira. “Por isso é tão importante que sejamos ouvidos. Não adianta só discutir a Amazônia em Paris ou em São Paulo, temos que incluir o povo da região e pensarmos como geramos mais riqueza, ganhamos mais mercados criando valor para a floresta em pé”, afirmou Chaves.

Crédito, logística, tributação, busca de novos mercados são desafios para produção sustentável na Amazônia

Amazônia+21 busca soluções para a região

O Fórum Mundial Amazônia+21 tem como objetivo mapear perspectivas e buscar soluções para o desenvolvimento sustentável da região. O Fórum acontece entre 4 e 6 de novembro de forma totalmente virtual.

A iniciativa é uma realização da Federação das Indústrias do Estado de Rondônia (FIERO), da Agência de Desenvolvimento de Porto Velho e da Prefeitura de Porto Velho, com apoio da CNI e do Governo do Estado de Rondônia.

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