Como tornar a sustentabilidade uma prática nos museus?

Festival Anual 2026 do SESI Lab reuniu especialistas para debater cultura regenerativa, gestão sustentável e o papel das instituições culturais na construção de futuros possíveis

Os participantes visitaram o Cultiva Lab, sistema agroflorestal que o SESI Lab implantou em junho deste ano, e participaram da primeira colheita: maços de rúcula. Foto: Matheus Leocádio/SESI Lab

Qual o papel de museus na construção de futuros mais sustentáveis, inclusivos e resilientes? Essa é a pergunta que guiou o Festival Anual 2026 do SESI Lab, no dia 19 de agosto. O evento, com apoio da Shell e do Ministério da Cultura, trouxe para Brasília especialistas da área para debates sobre cultura regenerativa, planos de sustentabilidade e a apresentação de uma pesquisa inédita sobre o campo museal. 

A superintendente de Cultura do SESI, Claudia Ramalho, deu as boas-vindas aos participantes lembrando que os museus, além de espaços de preservação da memória, são lugares capazes de ampliar repertórios, provocar reflexões, estimular o diálogo e mobilizar pessoas em torno dos grandes desafios do nosso tempo. “São ambientes que nos ajudam a compreender o presente e, ao mesmo tempo, a imaginar e construir futuros possíveis”, afirmou. 

“No SESI Lab, temos buscado exercer esse papel de forma ativa. Entendemos que promover a sustentabilidade exige mais do que discurso. Exige experimentação, aprender fazendo, compromisso, capacidade de conectar diferentes saberes e muita coragem para demonstrar que outras formas de relação com o mundo são possíveis”, completou Ramalho. 

A gerente de Relações Governamentais da Shell, Mariana Marques, falou sobre a atuação da empresa no patrocínio de diferentes museus ao redor do país e como essas instituições ampliam o acesso a informações e envolvem diferentes públicos em conversas fundamentais para construir o futuro. "A parceria com o SESI Lab está alinhada à nossa estratégia de apoiar iniciativas que integram cultura, ciência e sustentabilidade como ferramentas de transformação social e de fortalecimento da economia criativa", afirmou. 

Os participantes também visitaram o Cultiva Lab, sistema agroflorestal que o SESI Lab implantou em junho deste ano, e participaram da primeira colheita: maços de rúcula plantados próximo à Esplanada dos Ministérios. 

A palestra de abertura do Festival Museus e Sustentabilidade ficou a cargo de Fabio Scarano, curador do Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro. Intitulada “Imaginários da Sustentabilidade”, abordou conceitos diversos ligados à temática - da antecipação ao apocalipse, da eternidade ao paraíso -, apresentando vieses filosóficos e artísticos. Veja abaixo alguns desses conceitos: 

Sustentabilidade: "Há muitas contas e números para dizer o que é sustentável, mas eu sempre me lembro da palavra sustentare, em latim, que significa ‘cuidar’. Sustentabilidade pode ser entendida como a ética do cuidado. Os museus cuidam de pessoas, cuidam da memória e cuidam, também, da imaginação." 

Utopia: “Muitas vezes, essa palavra é tida como negativa, porque a pessoa é sonhadora. Mas a utopia é muito positiva, já que ela nos faz imaginar futuros melhores que o presente. E ela não é exatamente um lugar, ela é um caminho - nesse caminho, se trabalharmos seriamente todos os dias, ganhamos presentes, as graças que a vida nos dá.” 

Esperança: “Outra palavra importantíssima para os museus. Esperança, como Paulo Freire dizia, não é do verbo ‘esperar’, é do verbo ‘esperançar’ - ela é ativa, é algo que nos move para frente e nos leva a fazer as transformações que o mundo precisa. E museus são lugares de esperança. A palavra ‘museu’, que vem do grego, significa um ‘panteão de musas’, um lugar que inspira.”

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19/08/2026 - Festival Anual do SESI Lab

Cultura regenerativa 

O primeiro painel do festival reuniu representantes de três instituições que têm trabalhado com a cultura regenerativa para o presente e para o futuro, com mediação de Carolina Vilas Boas, coordenadora de Exposições e Ações Culturais do SESI Lab.  

Gilson Gomes, do Instituto Terra, apresentou o trabalho realizado pelo fotógrafo Sebastião Salgado (1944-2025) na Bacia do Rio Doce, entre Minas Gerais e Espírito Santo, para a restauração da Mata Atlântica, principalmente após o desastre de Brumadinho, em 2015. São três frentes principais de atuação: restauração florestal, educação ambiental e desenvolvimento rural sustentável. 

A Fazenda Bananal, em Paraty (RJ), representada por Jorge Ferreira, investe na integração entre patrimônio, agrofloresta, educação ambiental e experiência cultural para atrair turistas e fortalecer as comunidades locais. 

Já Lucas Van de Beuque, do Museu do Pontal, no Rio de Janeiro, contou a história da instituição que guarda a memória da arte e de artistas das camadas populares do país. O museu ficou mais de 40 anos na mesma localidade, mas precisou construir uma nova sede após o desenvolvimento imobiliário na região deixar o imóvel exposto a alagamentos. O novo prédio foi pensado como um museu-praça, com programação voltada à integração entre as pessoas, a arte e os artistas, além de contar com práticas sustentáveis como reuso de água e energia solar. 

Do discurso à prática 

Na parte da tarde, o painel “Do discurso à prática: planos de sustentabilidade em museus” reuniu gestoras para apresentar iniciativas bem-sucedidas, com mediação de Cândida Oliveira, gerente de Desenvolvimento Institucional do SESI Lab. Lucimara Letelier, fundadora da Regenera Museu e vice-presidente do ICOM Sustain (Comitê Internacional sobre Museus e Desenvolvimento Sustentável), abordou pontos importantes nessa missão e mostrou uma rica bibliografia que pode apoiar as instituições nessa missão. 

Graziele Giacomo, gerente técnica do Museu do Jardim Botânico (RJ), explicou que a sustentabilidade deve ser tratada como transversal, perpassando todas as áreas do museu, com critérios de medição dos impactos. Por fim, Renata Passos, coordenadora-geral de Sistemas de Informação Museal do Ibram (Instituto Brasileiro de Museus), apresentou as ações do órgão governamental na temática, com destaque para o Guia de Autoavaliação em Sustentabilidade, que reúne 55 indicadores. “Sustentabilidade não é uma ação a mais para o museu realizar, é uma forma de orientar suas escolhas, relações e gestão”, afirmou. 

Revisitando Vozes 

Fechando o Festival Museus e Sustentabilidade, o ICOM Brasil lançou os resultados da pesquisa Revisitando Vozes, que nesta segunda edição apresentou pela primeira vez perguntas – tanto para equipe dos museus quanto para o público dessas instituições - sobre mudanças climáticas e sustentabilidade. A pesquisa teve apoio do SESI Lab. 

“A pesquisa buscou entender qual a situação atual dos museus e o que esperam do futuro. Pesquisamos dois temas específicos: as mudanças climáticas e as transformações digitais. A pesquisa mostra um entendimento muito grande de que as mudanças são reais, mas ainda uma falta de conhecimento de caminhos sobre como atuar. É fundamental que os museus promovam, por meio da sua função social e do seu capital cultural, debates sobre o tema”, afirmou Diego Bevilacqua, presidente do ICOM Brasil. 

O painel contou também com a participação de Carlos Paiva, assessor especial do Ministério da Cultura, e Fernanda Castro, presidente do Ibram, que comentaram os resultados da pesquisa, além de Mariana Várzea, conselheira do ICOM Brasil, e Clara Azevedo e Julio Talhari, da Tomara!, empresa responsável pela execução da pesquisa Revisitando Vozes.

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