Melhorar a saúde pode ser mais simples

Projetos inovadores de estudantes do SESI revelam soluções inteligentes que poderiam ter preparado a saúde do país no enfrentamento do Covid-19, mas que ainda podem ajudar durante a pandemia
Equipe capixaba desenvolveu aplicativo que ajuda a fazer a gestão da gravidade de atendimentos presenciais em tempos de pandemia, evitando consultas presenciais desnecessárias e novas contaminações

Em 1637, o filósofo francês René Descartes, conhecido pela famosa frase “Penso, logo existo”, publicou o livro Discurso do Método, no qual desenvolve uma forma universal de investigação científica. O método, utilizado até hoje, estabelece a necessidade de questionamentos, estudos e evidências claras para elaborar conclusões visando à solução de problemas.  

Foi justamente com muitas indagações, pesquisas e conversas com especialistas que cinco estudantes de Vila Velha, no Espírito Santo, desenvolveram um projeto que, se estivesse em funcionamento, poderia amenizar um dos principais problemas mundiais da atualidade: a superlotação dos hospitais provocada pela pandemia do novo coronavírus.

Os alunos do SESI Araçás, que têm entre 14 e 16 anos, foram desafiados a pensar em soluções para cidades inteligentes e sustentáveis bem antes da pandemia começar, em agosto de 2019. Competidores do Torneio de Robótica FIRST LEGO League, promovido pelo Serviço Social da Indústria (SESI), não imaginavam que aquela ideia poderia ser tão demandada meses depois, e em todo o planeta.

“Quando apresentamos o projeto, algumas pessoas disseram que ele era muito simples, mas quando a crise da covid-19 começou, percebemos a importância daquilo. O aplicativo que criamos poderia ser facilmente adaptado e impedir a superlotação em hospitais, evitando consultas presenciais desnecessárias e a contaminação de milhares de pessoas”, explica a estudante do 2º ano do ensino médio Camille Freitas Borges, de 16 anos.

O projeto elaborado por ela e seus colegas surgiu depois de ouvir profissionais da saúde. “O aplicativo mostra todos os hospitais e postos de saúde e de pronto atendimento a partir da localização da pessoa e informa quais serviços são oferecidos em cada unidade ou, de acordo com os sintomas da pessoa, para onde ela deve se dirigir”, explica Camille.  

O ensino voltado para a resolução de problemas, para a estudante, é um diferencial. “O SESI nos dá mais oportunidades de fazer coisas diferentes e nos estimula a criar coisas novas”, diz a jovem, que, influenciada pelas pesquisas dos últimos meses, agora planeja cursar a faculdade de Medicina. 

Alunos de escola pública de Porto Alegre desenvolveram projeto de apoio às equipes do SAMU

"O aluno enxerga o mundo diferente e se torna um agente transformador dentro da comunidade, onde o conhecimento faz sentido” Bruno Santos  professor da Escola Municipal de Ensino Fundamental Saint Hilaire, de Porto Alegre

Metodologia acertada

Estimular a inovação dentro da sala de aula é uma constante há muito tempo na rede SESI, que possui 501 escolas, e a metodologia ganhou outras proporções com a inserção da robótica nos currículos escolares, em 2006. Com torneios, o SESI tem provocado uma revolução em escolas de todo o país, influenciando mudanças nas redes pública e particular de ensino.

Que o diga o professor Bruno Santos, da Escola Municipal de Ensino Fundamental Saint Hilaire, de Porto Alegre. Localizada na periferia da capital gaúcha, a escola, segundo ele, assistiu a mudanças significativas no desempenho dos estudantes.

“Essa metodologia de ensino, por meio da robótica, dá significado. Tudo que o aluno aprende está orientado à busca do conhecimento, e ele consegue enxergar a aplicabilidade disso. Não é somente uma repetição de fórmulas, uma leitura para responder a perguntas do professor. Ele enxerga o mundo diferente e, consequentemente, se torna um agente transformador dentro da comunidade, onde o conhecimento faz sentido”, afirma.

Segundo ele, a participação de seus alunos, todos de baixa renda, só é possível graças a uma parceria da escola pública com o SESI. Esse papel de agente transformador, citado por Bruno, foi colocado em prática na atual temporada do Torneio de Robótica do SESI.

Após uma profunda investigação, os jovens da equipe da qual ele é técnico, a Construtores SH, averiguaram que um dos principais problemas no atendimento do SAMU na capital gaúcha era a falta de ambulâncias. “Descobrimos que a cidade tem apenas 16 unidades para atender a mais de 2 milhões de pessoas, entre habitantes, turistas e visitantes, sem falar no grande número de trotes recebidos”, explicou.

Para encontrar o problema, os estudantes conversaram com diversos profissionais da saúde, uma arquiteta e até fizeram um curso de primeiros socorros no SAMU. Daí surgiu o Totem Interativo com Sistema Inteligente de Primeiros Socorros.

O equipamento pode ser colocado em parques, escolas e supermercados e é acionado por biometria – um sistema conectado com o cadastro no Tribunal Regional Eleitoral (TRE) – com o objetivo de evitar trotes. Na tela interativa aparece o passo a passo sobre como proceder em diferentes situações de emergência, como cortes pequenos, parada cardiorrespiratória e convulsão. Assim, é possível que a população possa oferecer os primeiros socorros e até salvar vidas.

“Quando apresentamos o projeto no SAMU, vimos a felicidade dos profissionais que viram que alguém pensou neles. Ver os alunos engajados no aprendizado, enxergando a construção do conhecimento dando resultado, faz com que a gente tenha a nossa missão enquanto professor cumprida”, completa Bruno.

Para a pedagoga e consultora em desenvolvimento organizacional e coach, Zuldene Cipriano, esse estímulo à resolução de problemas reais, desde cedo, prepara melhor para os desafios da vida. “A criatividade é latente. Então, quanto mais o cérebro é estimulado, mais criativa a pessoa fica. E uma pessoa criativa sabe resolver problemas. Se ela começa a exercitar isso desde o ensino fundamental, ela terá muito mais condições de melhorar o que já existe”, pontua a especialista. 

"Essa metodologia de ensino é estimulante, pois nos dá liberdade de expressão, o que nos ajuda a sermos mais críticos” André Vinícius  12 anos estudante da Escola SESI/SENAI Carlos Guido Ferrario Lobo

Equipe de Maceió. André Vinícius (de óculos) e os colegas desenvolveram bioadesivos contra bactérias

Potencial humano

Em Maceió, o estudante do 7º ano do ensino fundamental André Vinícius Barros Loureiro, de 12 anos, desenvolveu, junto com seus colegas, um bioadesivo para pisos com propriedades capazes de eliminar a proliferação de fungos e bactérias. Segundo ele, aliar a teoria com a prática é essencial.

“Essa metodologia de ensino é estimulante, pois nos dá liberdade de expressão e existe uma interação do professor com o aluno a todo momento, o que nos ajuda a sermos mais críticos”, detalha André, que estuda na Escola SESI/SENAI Carlos Guido Ferrario Lobo.

Essa opinião é compartilhada pela professora da Escola SESI Aparecida do Taboado, no Mato Grosso do Sul, Luciana Cavalcante. “A robótica desperta curiosidade e desenvolve o raciocínio lógico. Fico fascinada de ver o quanto ela estimula o potencial do ser humano e desenvolve as competências socioemocionais, o autocontrole, a liderança e o empreendedorismo”, destaca. 

A Indústria contra o coronavírus: vamos juntos superar essa crise

Acompanhe todas as notícias sobre as ações da indústria no combate ao coronavírus na página especial da Agência CNI de Notícias.

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