Como transformar diferentes atendimentos, informações e serviços de saúde em uma jornada contínua, capaz de acompanhar as pessoas antes, durante e após um quadro de saúde? Esse foi o desafio da segunda edição do Conecta Saúde, realizada nesta terça-feira (1º), em São Paulo. Promovido pelo Serviço Social da Indústria (SESI), Conselho Nacional do SESI (CN-SESI), com apoio da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP), o encontro reuniu mais de 500 participantes, entre lideranças empresariais, gestores públicos, representantes do setor de saúde e especialistas.
Na abertura, o diretor-superintendente do SESI, Paulo Mol, destacou que avançar para uma visão integral da saúde exige acompanhar a trajetória do trabalhador ao longo do tempo, conectando informações, atendimentos e diferentes pontos da rede. Para ele, a mudança passa por uma atuação que começa antes do surgimento da doença, com mais prevenção e continuidade do cuidado.
“A saúde é um dos principais ativos do Serviço Social da Indústria, e nós estamos propondo uma mudança de abordagem, que começa antes da doença, com acompanhamento e prevenção. São ações que têm impacto importante na vida do trabalhador e, também, na redução dos custos em saúde. O SESI abraçou essa causa, trabalhando com a saúde integral e com linhas de cuidado contínuas e coordenadas”, afirmou Mol.
Para o presidente do Conselho Nacional do SESI, Fausto Junior, esse avanço depende também da capacidade de conectar diferentes atores do sistema. Segundo ele, o SESI pode contribuir para aproximar empresas, saúde suplementar e Sistema Único de Saúde (SUS), com o objetivo de ampliar uma atuação historicamente ligada à segurança no trabalho.
“Se as empresas de saúde têm o seu papel suplementar, o SESI, assim como outras entidades, complementa o trabalho do SUS. O desafio é integrar os diferentes atores desse sistema, do poder público ao setor privado, e fortalecer uma atuação complementar capaz de ampliar o cuidado e responder melhor às necessidades da população”, ressaltou.
O superintendente do SESI-SP, Alexandre PFlug, chamou atenção para a dimensão econômica do tema. Segundo ele, o crescimento dos gastos com saúde reforça a necessidade de colocar o assunto entre as prioridades da agenda empresarial. “A gente sabe que os custos da saúde têm aumentado muito. É o segundo maior custo após a folha de pagamento e é algo que a gente precisa começar a tratar com mais carinho e mais cuidado”.
Fragmentação do cuidado aumenta custos e riscos para pacientes
A necessidade de transformar atendimentos isolados em uma jornada integrada foi aprofundada pelo economista da saúde André Cezar Medici, que apresentou a palestra “Fragmentação do cuidado e suas consequências”.
Medici traçou um panorama dos efeitos de um sistema em que consultas, exames, internações e tratamentos acontecem como episódios separados, sem que informações e decisões acompanhem o paciente ao longo do tempo. Segundo ele, essa falta de conexão cria “cabos soltos” na assistência e dificulta compreender a saúde de maneira integral. Nesse cenário, os exames e históricos clínicos deixam de circular, os procedimentos podem ser repetidos e o paciente precisa recontar a sua trajetória a cada atendimento.
“Nós podemos dizer que o cuidado é fragmentado quando os serviços tratam de episódios isolados de uma doença, sem compartilhar informação, sem ter um plano de ação estruturado. Para melhorar esse cenário, é preciso adotar decisões prévias e coordenadas que assegurem uma responsabilidade longitudinal sobre o histórico do paciente”, mencionou o especialista.
Mesmo quando cada profissional executa bem sua função, explicou Medici, a ausência de transições adequadas entre uma etapa e a outra compromete o seguimento do paciente. Essa desarticulação tem efeitos clínicos e financeiros. Ele citou duplicidade de procedimentos, perda de informações, diagnósticos e tratamentos tardios, altas sem acompanhamento posterior e reinternações que poderiam ser evitadas com uma linha de cuidado coordenada.
“O principal reflexo desse modelo é o desperdício, que vai muito além dos custos financeiros de cada serviço. Ele se manifesta nas falhas de transição entre os atendimentos. Quando o cuidado é fragmentado, o risco clínico aumenta e gera perda de informação, decisões desconectadas e, fundamentalmente, uma transição insegura para o paciente”, alertou.
Os efeitos da fragmentação, segundo Medici, ultrapassam o sistema assistencial e chegam ao ambiente de trabalho. “Uma doença mal controlada reduz a capacidade funcional do trabalho. Ela aumenta o absenteísmo e o presenteísmo - ou seja, a produtividade cai dentro das empresas - e leva a afastamentos cada vez mais longos e frequentes. Com isso, as empresas perdem em desempenho e valor”, finalizou o especialista.
Quem coordena cuida melhor
No painel “Quem coordena cuida melhor”, o pesquisador do Centro de Inovação do SESI Ceará, Cláudio Patrício, apresentou uma iniciativa voltada a manter as pessoas conectadas à jornada de cuidado. A estratégia utilizou questionários e mensagens enviadas periodicamente pelo WhatsApp para acompanhar mudanças de comportamento e permitir uma reclassificação dos participantes ao longo do tempo.
“Desenvolvemos uma estratégia para engajar e reter o paciente dentro desse circuito do cuidado. A cada dois dias, havia um disparo de mensagem do WhatsApp para eles responderem a algumas questões. O objetivo era classificar os usuários em tempo real e reclassificar a partir da mudança do comportamento”, explicou Patrício.
Para a executiva pública da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), Jacqueline Torres, as bases de dados da saúde suplementar podem ajudar a identificar rupturas na trajetória dos pacientes e orientar medidas para melhorar a coordenação do cuidado.
Em uma análise amostral da ANS apresentada durante o painel, 43% dos beneficiários realizaram os exames solicitados, mas não retornaram ao mesmo profissional, enquanto outros 10% fizeram as avaliações médicas e não voltaram a uma consulta. Jacqueline ponderou que os números não significam necessariamente que houve interrupção do atendimento em todos os casos, mas representam sinais que precisam ser investigados pelas operadoras.
“O primeiro mecanismo para a gente regular um setor de 53 milhões de beneficiários distribuídos em todo o país e atendidos por operadoras de diferentes portes, modalidades e perfis de contratação, é conseguir enxergar qual problema estamos querendo de fato resolver. A partir daí, tornamo-nos capazes refazer perguntas mais qualificadas aos dados que já temos”, afirmou.
Segundo Jacqueline, uma das premissas da coordenação é ter um profissional de referência capaz de orientar o fluxo do paciente e acompanhar sua trajetória. Nesse contexto, saber o que acontece depois da realização de um exame, por exemplo, pode ajudar a identificar pontos de ruptura no cuidado.
“Se eu tenho uma quantidade de exames realizados dentro da operadora e eu não sei o que está acontecendo com esse resultado, não tenho um retorno, não tenho um encaminhamento adequado, isso já é um sinal de fragmentação”, destacou.
A experiência das empresas também entrou no debate. Médico da Motiva, Leonardo Piovesan apresentou a estratégia adotada pela companhia em parceria com as operadoras de saúde para acompanhar os trabalhadores antes, durante e depois de eventos assistenciais.
A atuação envolve o acompanhamento de internações, a identificação de oportunidades de desospitalização, a avaliação de casos que podem retornar para a atenção primária e o monitoramento posterior. “Uma vez que esse paciente está no cuidado terciário, o que eu garanto ali dentro? Que ele volte para a nossa atenção primária”, afirmou Piovesan.



