Tecnologias devem gerar 700 mil empregos na indústria de transformação nos próximos 10 anos

Em dois anos, a diferença entre a demanda e o número de profissionais disponíveis para 14 novas profissões do setor chega a 74%. Operador digital e especialistas em digitalização e manufatura aditiva são destaques

Nos próximos dois anos, a demanda será de 401 mil profissionais, porém só haverá 106 mil disponíveis, o que representa uma lacuna de 74%

O estudo Profissões Emergentes na Era Digital: Oportunidades e desafios na qualificação profissional para uma recuperação verde identifica tendências e 14 carreiras em ascensão no curto (2 anos), médio (5 anos) e longo prazo (10 anos) na Indústria de transformação e nos serviços produtivos. Essas novas profissões, relacionadas com a digitalização do setor, poderão ser responsáveis por 767,5 mil oportunidades de trabalho, das 14,9 milhões de vagas, nos próximos 10 anos.

Os números chamam atenção para a importância da formação de mão de obra. Nos próximos dois anos, a demanda será de 401 mil profissionais, porém só haverá 106 mil disponíveis, o que representa uma lacuna de 74%. A pesquisa é realizada pelo Núcleo de Engenharia Organizacional (NEO) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e pela Agência Alemã de Cooperação Internacional (GIZ - Deutsche Gesellschaft für Internationale Zusammenarbeit GmbH), em parceria com o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI).

De hoje até quinta-feira (15), a Agência CNI de Notícias publica quatro matérias com os dados por setor analisado, começando pela Indústria de transformação e serviços produtivos – os próximos são Agricultura, Tecnologia da Informação e Software e Saúde. Na indústria, à medida que processos manuais repetitivos são automatizados, há um aumento no número de vagas com maior valor agregado. Por exemplo, um operador de máquina que passa a exercer a função de operador digital ou se torna responsável pela instalação e a manutenção das máquinas.

Esse processo deve se intensificar e tornar-se realidade de pequenas, médias e grandes indústrias. Além das mudanças nos empregos existentes, as novas tecnologias habilitadoras da Indústria 4.0 – como internet das coisas (IoT), computação em nuvem (cloud), big data e inteligência artificial – têm o potencial de reduzir a desigualdade social e os recursos utilizados, e aumentar a participação das mulheres e dos jovens, a eficiência e a competitividade do país.

Sendo assim, contribuem para que, no pós-pandemia, o país tenha uma recuperação verde – modelo de desenvolvimento que concilia fatores sociais, ambientais e econômicos. “Consideramos o cenário brasileiro atual e o impacto da transformação digital para mostrar a importância de determinadas profissões na definição de uma estratégia nacional de desenvolvimento econômico sustentável”, explica o assessor Técnico da GIZ Martin Studte.

Conheça as tecnologias

São as tecnologias habilitadoras que permitem o desenvolvimento de soluções avançadas em quatro grandes áreas de aplicações industriais:

  1. Manufatura inteligente, que integra aspectos como robótica avançada, impressão 3D e tecnologias digitais para a fábrica;
  2. Cadeia de suprimentos inteligente e conectada (smart supply chain), que considera plataformas de conectividade da fábrica com fornecedores e clientes;
  3. Oferta de produtos e serviços conectados (smart products and services), que considera novos modelos de negócios, como o Product-as-a-Service ou serviços baseados na oferta de dados;
  4. Utilização do trabalho suportado por tecnologias (smart working) para a oferta de serviços produtivos.

O estudo destaca ainda que existe uma migração do trabalhador chão de fábrica para os serviços produtivos, que, por sua natureza intangível, demandam profissionais nos locais onde os serviços devem ser executados, favorecendo assim a distribuição geográfica de empregos qualificados.

Em curto prazo, a maior lacuna é para a função de operador digital – em dois anos, vamos ter formados 39,4 mil profissionais, enquanto a demanda é de 345 mil (déficit de 89%). Porém, nos próximos 10 anos, esse gap deve cair para 57%. Também chama atenção o profissional de manufatura aditiva, que pode manter a diferença entre oferta e demanda laboral em 75% – em uma década, estão previstos 2,7 mil egressos e a demanda será de 11 mil.

Vale lembrar que, apesar de serem empregos de alto valor agregado, o que presume anos de formação, experts em digitalização industrial, por exemplo, podem ser formados em um período de 18 a 24 meses através de especializações e mediante a reformulação de cursos já existentes.

Qualificação e requalificação estão entre as recomendações

As estimativas de quantos profissionais serão necessários e as lacunas entre a demanda e a oferta – ou egressos de cursos – mostram como o setor educacional brasileiro pode reagir e desempenhar um papel fundamental na recuperação verde.


“O SENAI, que acompanha as transformações do mercado de trabalho por meio de observatórios técnicos setoriais, avalia que o estudo é mais um norte para o país assumir uma posição dianteira, em comparação com outros países que também precisam atualizar sua mão de obra. Essas tendências devem ser consideradas pelas instituições de ensino profissional na formação inicial e na requalificação dos trabalhadores”, ressalta o diretor geral do SENAI, Rafael Lucchesi.


O diretor do NEO, Alejandro G. Frank, completa a lista de recomendações: apostar na imediata formação e requalificação de profissionais; investir na formação de professores, na atualização constante dos currículos e na criação de novos cursos; incentivar a interdisciplinaridade; e desenvolver políticas de inclusão digital a médio prazo.

“Para longo prazo, é importante criar um plano de atualização dos cursos no Brasil, aproximar o estudante do ensino médio da formação técnica e aumentar a oferta de cursos e de capacitação de professores em áreas menos favorecidas do país”, observa Alejandro Frank. Lucchesi lembra que a oferta do curso técnico no ensino médio está prevista no modelo do Novo Ensino Médio.

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