Mulheres têm grande contribuição na revolução tecnológica, mas são sub-representadas no mercado de trabalho

Na sessão “Mulheres inovadoras: números, fatos e impactos no Brasil e no mundo”, especialistas ressaltaram a importância da mulher para o avanço da indústria na área de inovação
Congresso de Inovação teve painel formado exclusivamente por mulheres para tratar da participação feminina na inovação no Brasil e no mundo

A questão de gênero avança a cada dia no meio científico e invade as empresas. Segundo dados recentes da consultoria McKinsey, 72% dos artigos científicos no Brasil são publicados por mulheres. Elas representam 49% do número de pesquisadores no Brasil e grandes empresas de tecnologia têm mulheres como CEOs nacionais. Apesar dos dados positivos, mesmo quando as mulheres têm um nível mais elevado de acesso à educação, os homens têm índices maiores de empregabilidade e recebem salários mais altos.

O assunto foi tema de debate no 8º Congresso Brasileiro de Inovação da Indústria, que, nesta edição, teve pela primeira vez um painel formado exclusivamente por mulheres executivas para tratar da importância feminina na área de pesquisa, desenvolvimento e inovação (PD&I). As seis integrantes da sessão “Mulheres inovadoras: números, fatos e impactos no Brasil e no mundo”, todas conhecidas pela atuação no setor e por promoverem políticas de igualdade de gênero, ressaltaram a importância da mulher para o avanço da indústria na área de inovação.

A diretora de Inovação da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Gianna Sagazio, alertou que um dos pilares para o Brasil avançar na agenda de inovação é a maior inserção feminina nos postos de trabalho de ciência e tecnologia e em cargos de destaque nas grandes corporações. Segundo ela, apenas 39% dos cargos de gerência são exercidos por mulheres. “Não conseguiremos nos tornar um país inovador e desenvolvido se não avançarmos na questão da igualdade de gênero”, afirmou.

UNIVERSIDADES - Moderadora do painel, a presidente do Conselho de Competitividade dos Estados Unidos, Deborah Wince-Smith, destacou que as mulheres são maioria nos títulos de universidades norte-americanas, mas quando o assunto são as matérias de ciência, tecnologia, engenharias e matemática elas ficam atrás. “Nos EUA, as mulheres representam 67% de todos os títulos da universidade, mas são só 19% nas áreas de tecnologia”, disse.

Deborah destacou que a participação feminina na inovação tem sido importante internacionalmente, mas lamentou o fato de ainda haver no mundo uma enorme diferença entre os gêneros no mercado de trabalho. “As mulheres têm grande contribuição e grande responsabilidade na revolução tecnológica e inovadora. Mas sabemos que as mulheres em todo o mundo são sub-representadas”, enfatizou.

No mesmo sentido, a presidente da Microsoft Brasil, Tânia Cosentino, apontou que mais mulheres se inscrevem e se graduam em universidades, mas observou que tal fator não se traduz em igualdade no mercado de trabalho. Citando dados da Organização das Nações Unidas (ONU), Tânia destacou que no ritmo atual de evolução em relação à igualdade de gêneros, levaremos 100 anos para atingirmos uma igualdade global. “Está claro que trazer mais mulheres será um diferencial para toda a sociedade. Nesse sentido o papel da empresa é superimportante. Se os líderes não estão engajados não há como transformar”, afirmou.
 

POLÍTICA DE VALORIZAÇÃO – Para a vice-presidente de Operações e Logística da Natura, Josie Peressinoto Romero, há alguns anos seria impensável haver um painel só de mulheres em um grande evento como ocorre no Congresso Brasileiro de Inovação da Indústria. Segundo ela, a Natura tem uma política de valorização das mulheres tanto nos cargos internos quanto na relação com consultoras que não têm vínculo direto de emprego com a empresa.

“Na Natura, 56% dos cargos de gerente são mulheres. Da diretoria para cima são 38% e no ano que vem seremos 50%”, disse Josie. Ela mencionou exemplos de sucesso na companhia. “Há mais de 20 anos, a Natura criou o berçário para dar todo o suporte às mães. E no ano passado colocamos a mesma condição para os homens. Esse é um dos benefícios que mais temos orgulho e que não vamos mexer de jeito nenhum. Trabalhamos também com as consultoras, por meio do incentivo a projetos sociais nas comunidades”, detalhou a executiva da Natura.

MULHERES EMPREENDEDORAS – Ex-diretora do Sebrae, a pesquisadora visitante da Universidade de Cornell (EUA), Heloísa Menezes, destacou que as mulheres empreendedoras são 16% mais escolarizadas que os homens no Brasil e são responsáveis por 50% dos negócios abertos no país. Ela contou, no entanto, que as empresas dirigidas por mulheres faturam em geral menos que as comandadas por homens. Heloísa apontou um importante caminho para o avanço das mulheres em relação à inovação e a ocupação de cargos importantes. “Há um movimento pouco visível que merece ser destacado, que vem de mulheres liderando iniciativas fantásticas de apoio a mulheres empreendedoras”, disse.

Para a presidente da SAP, Cristina Palmaka, a tecnologia não só vai trazer a inclusão da mulher para outro patamar, como vai desenvolver o Brasil, que carece de investimentos em pesquisa e desenvolvimento. “O impacto que a tecnologia e a inovação trarão ao nosso país vai muito além da inclusão de novos perfis. As novas competências que a inovação vai trazer são empatia e criatividade, competências muito presentes no universo feminino”, destacou.

De acordo com a diretora acadêmica da Universidade de Cornell (EUA), Lourdes Casanova, recente pesquisa revela que a quantidade de mulheres que se candidatam a vagas em programas de MBA tem diminuído nos Estados Unidos. Lá, os salários de homens e mulheres recém graduados são iguais, mas a situação muda depois de alguns anos de graduação. “Cerca de três a cinco anos depois de formados, o salário da mulher é em média 30% menor que o do homem. E entre aqueles que têm MBA a diferença de salário chega a 50%”, pontuou.

CONFIRA - Acompanhe o especial da Agência CNI de Notícias sobre o 8º Congresso Brasileiro de Inovação da Indústria e saiba mais. Veja também a cobertura fotográfica no Flickr da CNI.

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