Encomendas tecnológicas são essenciais para estimular o desenvolvimento da inovação

Tema foi debatido durante o Diálogos da MEI, em São Paulo. Modelo de compra pública voltado para solucionar desafios tecnológicos tem sido amplamente usado nos países mais inovadores
Gianna Sagazio: 29% dos gastos do governo em compras públicas podem ser destinados a estimular a inovação pelo lado da demanda.

A diretora de Inovação da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Gianna Sagazio, afirmou que as encomendas tecnológicas são imprescindíveis para o desenvolvimento da inovação no Brasil. Esse foi o tema da 24ª edição do Diálogos da Mobilização Empresarial pela Inovação (MEI), realizada na manhã desta segunda-feira (15), no escritório da CNI em São Paulo.

As encomendas tecnológicas são tipos especiais de compras públicas destinadas a solucionar desafios específicos por meio do desenvolvimento de produtos, serviços ou sistemas que ainda não estão disponíveis no mercado ou que ainda não existem. Na medida em que pouco se sabe sobre o real desempenho da solução frente ao problema enfrentado, trata-se de uma compra pública com elevado nível de incerteza tecnológica.

“O poder de compra do Estado e as encomendas tecnológicas têm sido amplamente utilizados em outros países para criar mercados e, consequentemente, estimular o desenvolvimento de tecnologias emergentes e de inovações”, afirmou Gianna Sagazio. Ela mencionou, durante a abertura da reunião, dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, segundo o qual 29% dos gastos do governo em compras públicas podem ser destinados a estimular a inovação pelo lado da demanda.

Em 2012, o Brasil gastou R$ 637 bilhões em aquisições públicas. “Se uma parcela desse montante, mesmo que pequena, fosse direcionada para a busca de solução de problemas estratégicos, o potencial de impacto no ecossistema nacional de inovação seria significativo”, frisou a diretora de Inovação da CNI.

Diretor de desenvolvimento tecnológico da Embraer, Daniel Moczydlower, pontuou que o Brasil deve tratar a inovação como política de longo prazo.

VIRAR O JOGO – Para o diretor de desenvolvimento tecnológico da Embraer, Daniel Moczydlower, a encomenda tecnológica é um instrumento importante para o país “virar o jogo” na agenda da inovação. Ele observou que os recursos para investimentos, embora sejam limitados, existem e precisam ser acessados em prol do desenvolvimento da ciência e tecnologia. O executivo pontuou que o Brasil deve tratar a inovação como política de longo prazo.

“Reconhecemos a limitação de recurso, mas se utilizarmos os mecanismos corretos temos muito a avançar nessa agenda da inovação no Brasil. Precisamos usar o poder de compra do governo como grande estímulo à inovação, como ferramenta para o país ter papel de relevância”, enfatizou Moczydlower.

O coordenador de estudos em estratégias de crescimento das firmas do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), André Rauen, destacou que as encomendas tecnológicas por natureza envolvem riscos. Segundo ele, nesse sentido, o investimento dos governos nessa agenda é essencial, uma vez que, em geral, empresas privadas não têm condições de assumir isoladamente riscos para realização de pesquisas e desenvolvimento tecnológico.

RISCO TECNOLÓGICO – “O ponto de partida da encomenda tecnológica é o risco tecnológico. Se não tem incerteza não é para fazer encomenda, pois dará problema. Outro ponto importante é que não dá para falar em encomenda tecnológica se você não tem tecnologia, mas só ciência”, disse Rauen. “Se o governo não entrar na jogada não vai existir vacina para a zika por exemplo”, completou.

Presente ao Diálogos da MEI, o secretário de empreendedorismo e inovação do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC), Paulo Alvim, classificou de fundamental a incorporação de instrumentos de encomenda tecnológica para que o país supere seus desafios na área de inovação. “Precisamos incorporar a encomenda como política continuada. A nossa expectativa é que haja expansão de empresas parceiras do governo e de institutos de ciência e tecnologia”, observou Alvim, que se comprometeu a encaminhar à MEI a lista dos principais desafios tecnológicos do país que está sendo produzida pelo MCTIC.

Para Gianna Sagazio, a única forma de o Brasil avançar na agenda da inovação é a partir de parceria entre governo, empresas privadas e academia. “Vamos trabalhar de maneira cada vez mais próxima, pois infelizmente o país está caminhando na contramão do mundo em relação à inovação. Precisamos juntar esforços para sermos um país mais inovador”, destacou a diretora da CNI.

PROJETO SIRIUS – O diretor do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), Antonio José Roque, apresentou o projeto Sirius, maior equipamento científico já produzido no Brasil. Voltado para alavancar o desenvolvimento tecnológico, o Sirius é um acelerador de partículas do Laboratório Nacional de Luz Síncrotron, construído em Campinas (SP) para revolucionar a pesquisa brasileira e internacional.

O gerente de Pesquisa e Inovação da empresa WEG, Sebastião Nau, por sua vez, fez um relato sobre o fomento à inovação na multinacional catarinense, que participa da primeira fase de operação do Sirius. O equipamento, que será utilizado para estudar problemas em áreas como energia e meio ambiente, contou com componentes da WEG na sua construção.

O assessor do Departamento de Ciência e Tecnologia do Exército junto ao MCTIC, General Carlos Roberto Pinto de Souza, e o diretor do Complexo Industrial e Inovação em Saúde, do Ministério da Saúde, Thiago Rodrigues Santos, também participaram do Diálogos da MEI. Eles falaram respectivamente sobre encomendas tecnológicas para a defesa e para a saúde. “As encomendas gerarão muitos ganhos diretos e indiretos para o Brasil. Seria muito importante usar essa ferramenta para desenvolver uma vacina para a dengue por exemplo”, afirmou Santos.

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