Com pouco mais de 10 mil habitantes, o município de Mara Rosa, a 350 km de Goiânia, responde por quase ¼ da produção do açafrão no país. Também conhecida como cúrcuma, a planta originária da Ásia tem o selo de indicação geográfica na região norte do estado, que não só garante a qualidade e origem do produto, como o sustento de cerca de 250 agricultores.
Em 2015, a biotecnologista Iara Mendes não tinha ideia de que passaria os próximos 10 anos entre testes de laboratório, teses acadêmicas e rodadas de negócio para revelar o potencial de aplicação do “ouro goiano” na indústria.
Como boa parte dos recém-formados, Iara tinha dúvidas de qual trajetória seguir, até que sua mãe, depois de assistir uma matéria do programa Pequenas Empresas Grandes Negócios sobre uma empresa de produtos para peles maduras, fez a provocação: “por que você não trabalha no setor de cosméticos?”.
Sabendo das propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias da cúrcuma e com um propósito profissional muito claro de valorizar os produtos e produtores do seu estado, Iara decidiu olhar para o setor de cuidados pessoais e beleza, segmento que coloca o Brasil entre os cinco maiores mercados do mundo.
Nanotecnologia para reverter a maldição de Midas
O primeiro desafio com o qual Iara se deparou foi como utilizar a cúrcuma, que tem um amarelo super pigmentado, para cosméticos. “Eu sou goiana do pé rachado, então pensei, por que não usar as riquezas da minha terra para produzir cosméticos? O desafio do açafrão era a pigmentação, ninguém quer passar um produto e ficar da cor de um minion, né?”, brinca Iara.
Para contornar a maldição do Rei Midas - personagem da mitologia que transforma tudo o que tocava em ouro -, a biotecnologista voltou para a Universidade Federal de Goiás (UFG) para desenvolver um método inovador que reduzisse características indesejáveis, como odor, coloração e irritações, e protegesse os ativos, ou seja, as propriedades boas do açafrão.
Para alterar essas características, ela apostou na nanotecnologia, que consiste na manipulação da matéria em escala nanométrica - nível atômico e molecular. Isso porque, em nanoescala, os materiais podem se comportar de maneira diferente, o que permite o aprimoramento de propriedades para finalidades específicas.
Em dois anos de pesquisa, Iara conseguiu tirar o pigmento da cúrcuma. “Mas, quando terminei o mestrado, me deparei com um novo desafio. Por falta de conhecimento industrial mesmo, não conseguia aumentar a solução. Podia fazer 10 mL, mas não conseguia produzir 10 litros, era um processo muito caro. Além disso, usava polímero de origem animal, e eu sou vegetariana desde os meus 13 anos, era contra os meus princípios”, lembra.
Doutorado vira a chave do negócio
Foi no doutorado entre 2017 e 2023, sob orientação do professor Caio Pinho Fernandes, doutor em Ciências e pós doutor em Inovação Farmacêutica, que ela desenvolveu o método capaz de aumentar a solução. Com uso de menos energia que o método atual de nanoestruturação, Iara conseguiu aprimorar a absorção, aumentar a eficácia e proteger da degradação externa os ativos da cúrcuma.
No doutorado, ela comprovou não só os benefícios da NanoCurcuma nos cosméticos - melhora a elasticidade e reduz cravos, espinhas, rugas e linhas de expressão -, como também descobriu outras possibilidades de uso da plataforma tecnológica. Fundada a deep tech Nanoterra, ela e o sócio Joaquim Araújo perceberam que, apesar dos percalços do caminho, tinham um novo negócio com mais potencial de mercado que a ideia inicial: o de nanoestruturação de matérias-primas da biodiversidade.
“Foi nesse momento que a gente mudou o nosso modelo de negócio. Em vez de pegar o material vegetal, fazer o extrato, todo o processo de nanoestruturação, a formulação cosmética e colocar no mercado como um produto, concorrendo com mais de 3 mil empresas de cosméticos que temos no Brasil; nós produzimos para outras empresas matérias primas nanotecnológicas sustentáveis. Otimizei e diminui minha cadeia produtiva, ampliando meu mercado. Porque hoje consigo atender indústria agropecuária, pet, têxtil, alimentos, entre outras”, comemora Iara.
Hoje, a Nanoterra tem 11 pessoas no quadro, que trabalham no laboratório instalado na UFG. A empresa, que acumula vários prêmios e recursos de editais e subvenções econômicas, tem capacidade para fornecer 200kg de matéria prima. A plataforma tecnológica já tem pedido de patente e está sendo testada com outros insumos da biodiversidade do Cerrado e da Amazônia, como a casca de pequi. A missão da Nanoterra é ser um agente de transformação de cadeias não só da indústria de cosméticos, mas de outros segmentos industriais.
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