As luvas do maestro: como a inovação devolveu o dom de um dos maiores pianistas brasileiros

O produto inovador permitiu que o Maestro João Carlos Martins voltasse a tocar piano. Projeto foi desenvolvido por um designer industrial do interior de São Paulo
Maestro João Carlos Martins conseguiu voltar a tocar piano usando as luvas criadas por Bira

Fevereiro de 2019. Noite de domingo. O programa Fantástico, da TV Globo, mostrava a despedida do maestro João Carlos Martins do piano, antes passar por mais uma cirurgia. Em casa, assistindo a reportagem, o designer industrial Ubiratan Bizarro Costa, se comoveu com a situação. “Eu só pensava: isso é muito ruim. Um dos maiores pianistas do mundo ficar sem tocar. Deve ter um jeito pra resolver isso! Não deve ser tão difícil criar alguma coisa que o ajude a voltar a fazer o que mais gosta”, se recorda Bira, como é chamado.

No dia seguinte, começou a pesquisar. Pegava imagens do pianista tocando e congelava, para poder analisar os movimentos. Foram quase três meses de trabalho até o primeiro protótipo ficar pronto. “Esse era pra ele tocar com as mãos fechadas, tinha uma espécie de extensor”, conta o designer. Um amigo de Bira tinha o contato da produção do maestro João Carlos Martins e conseguiu que eles se encontrassem rapidamente, antes de uma apresentação.

“Ele foi muito receptivo. Olhou, meio estranho mas colocou a luva na mão. Depois de uns cinco dias, o maestro me ligou para a gente se encontrar", lembra Bira.

No encontro, João Carlos Martins explicou para Bira o problema das mãos. “Aí consegui desenvolver um novo protótipo. Os dois primeiros eram pra mão fechada. O terceiro era algo bem voltado pra ele. Este que ele usa agora já é a 6ª versão”, explica Bira. 

Maestro João Carlos Martins ajudou o designer Ubiratan Bizarro Costa mostrando as melhorias que poderiam ser feitas nas luvas

Inovação sempre fez parte da vida do designer  

Criar. Inovar. Palavras que fazem parte da vida do Bira desde a infância. Ele sempre gostou de pensar em novos produtos e designs.

Bem jovem começou a trabalhar. Na época, eram poucas as faculdades de desenho industrial no Brasil, então ele começou a fazer cursos de desenho para se aprimorar. Foi quando um professor deu a dica: “faz um curso técnico porque é o jeito de melhorar a qualificação mais rapidamente”. Bira foi para o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI) de Sumaré (SP), onde fez desenho técnico-mecânico. “Eu sabia que queria continuar com meus inventos. No começo dos anos 1990, abri meu próprio escritório de design, na área de design gráfico. No meio dos projetos, desenhava produtos”, relembra.  

Hoje Bira divide o tempo entre o escritório Bizarro Design, a escola de desenho Traço Bizarro e a oficina onde faz as criações.

Suas inovações buscaram resolver problemas nas áreas esportiva, automotiva e inclusiva. Antes das luvas extensoras que fez para o maestro, já tinha desenvolvido um exoesqueleto e uma cadeira elétrica para pessoas com dificuldade de locomoção. “Quis criar aparelhos mais acessíveis porque os que existem no mercado são poucos e caros. A maioria dos cadeirantes não vai poder comprar”, explica Bira.

As luvas que produziu para o maestro também podem ser adaptadas para outros casos e atender outras pessoas. Bira acredita que tem público grande para o produto, como pacientes que tiveram AVC.

Inovação e design devem ser mais valorizados

Para Bira, a área de design é um “oásis para quem tem boas ideias”. Mas ele acha que é um setor, assim como a inovação, que deveria ser mais valorizado no Brasil.

“As indústrias no Brasil precisam olhar bem pra isso. Muita indústria fica presa no que está fazendo e não se arrisca em ir atrás de coisas novas. Pequenas e médias indústrias não sabem muito bem como funciona o design industrial, pensam que só serve pra estética. Baixar custo e aumentar benefício é a principal função de um design. Fazer muito mais com muito menos”, avalia ele.

Parceria que deu certo! Maestro João Carlos Martins durante um dos encontros para fazer ajustes nas luvas

Luvas extensoras deram visibilidade ao trabalho de Bira   

As luvas extensoras desenvolvidas para o maestro João Carlos Martins não são eletrônicas, mas mecânicas. Elas não substituem os movimentos das mãos. As luvas ajudam a movimentar os dedos para cima e para os lados, as principais dificuldades do maestro, adquiridas após alguns acidentes. “Cada haste em cima dos dedos é um sistema de molas. Projetei tudo em sistema CAD e fiz em impressora 3D”, explica sobre a criação. Bira gastou R$ 2 mil no projeto. Mas não cobrou nada do maestro. Foi presente, ele faz questão de frisar. 

Quando o maestro apareceu tocando piano por causa das luvas, o trabalho de Bira ganhou destaque. “Antes, ninguém me ouvia. Eu tinha vários projetos inovadores e não conseguia apoio. Agora já apareceu até um interessado em investir na produção dessas luvas. Preciso alguém que tenha a fábrica, preciso passar para a indústria. Antes eu levava os produtos e as pessoas não valorizavam muito. Tô um pouco mais otimista”, revela Bira.

A luva ainda precisa de ajustes finais. Nesse processo, o próprio maestro se tornou parceiro de Bira para melhorar o produto, com sugestões de usuário.

Considerado um dos maiores pianistas do mundo, o retorno de João Carlos Martins ao piano ganhou as manchetes da imprensa de vários países. Um atestado de como precisamos, cada vez mais, da inovação.   

 

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