Dados de uma pesquisa inédita sobre aprendizagem e bem-estar de crianças na pré-escola foram apresentados nesta terça-feira (12), em Brasília. O estudo analisou crianças de cinco anos matriculadas em escolas de três estados brasileiros e é considerado um dos primeiros levantamentos em larga escala no país sobre o tema. O evento ocorreu no auditório da Confederação Nacional da Indústria (CNI), com apoio do Serviço Social da Indústria (SESI) e de outras instituições da coalizão responsável pela iniciativa.
Trata-se de uma iniciativa internacional idealizada pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que vem realizando o Estudo Internacional das Aprendizagens e Bem-estar na Primeira Infância em diversos países do mundo. E o Brasil se tornou o único da América Latina a participar do projeto, a partir de uma coalizão de instituições públicas e privadas que contou com o envolvimento direto do SESI, da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, do Ministério da Educação, entre outros.
Ao longo de quatro anos, as diversas etapas da pesquisa foram realizadas no Ceará, no Pará e em São Paulo, o que incluiu coleta de dados em 210 escolas, com a participação de 2.598 crianças de diferentes perfis étnicos, de gênero e socioeconômicos. A pesquisa também ouviu pais, mães e profissionais de educação que acompanham essas crianças na primeira infância. A proposta foi construir um diagnóstico mais amplo sobre aprendizagem, desenvolvimento e condições de atendimento, identificando desafios que possam orientar políticas públicas e melhorias nas práticas educacionais.
O resultado de todo esse trabalho foi um documento de 158 páginas que mapeia questões como literacia e numeracia (a capacidade das crianças de lidar com a leitura e com os números, respectivamente) e mais oito categorias (memória de trabalho, controle inibitório, flexibilidade mental, identificação de emoções, atribuição de emoções, comportamento pró-social, confiança e comportamento não disruptivo) que foram observadas durante as visitas a campo, que contou com o envolvimento de pesquisadores de pelo menos cinco universidades brasileiras.
O professor Fausto Augusto Junior, presidente do Conselho Nacional do SESI, classificou o estudo como uma “empreitada bastante significativa”. Segundo ele, por se tratar de uma primeira pesquisa dessa natureza, ainda não há séries históricas que permitam comparações, mas os dados já oferecem elementos relevantes para qualificar o debate sobre a primeira infância no país.
Fausto, entretanto, enfatiza que a ideia do estudo não é realizar um ranqueamento sobre a educação no Brasil, mas, diferente disso, o estudo vai servir para que o país possa “analisar trajetórias e identificar deficiências”.
Fausto também destaca avanços registrados pelo país desde a Constituição de 1988. Ele cita a queda expressiva da mortalidade infantil, a ampliação do acesso à escola e o fortalecimento de políticas públicas voltadas ao enfrentamento da fome e da pobreza.
“O país passou por um processo civilizatório gigantesco, que criou condições para que hoje possamos discutir primeira infância e qualidade da educação. Porque não dá para discutir essas questões se não temos comida, se não temos moradia, se não temos escola. O Brasil pós-Constituição avançou justamente nesse sentido", explicou.
Com essas bases estabelecidas, o momento, segundo os participantes, é de analisar os dados levantados pela pesquisa e discutir caminhos para novos avanços educacionais. Para Paulo Mól, diretor-superintendente do SESI Nacional, o estudo deve ultrapassar o campo acadêmico e contribuir para mobilizar a sociedade. “Desejo que o que estamos apresentando aqui não seja apenas uma pesquisa acadêmica sobre a educação no Brasil, mas que mobilize, de fato, as pessoas para a transformação do país”, afirmou.
Segundo Mól, o desafio é transformar as evidências reunidas pela pesquisa em políticas e práticas capazes de ampliar a dignidade da população. “Não acredito em um país forte, rico e próspero se ele não investir em educação. E a educação na primeira infância é a base de tudo”, completou.
Vice-diretora de Educação e Habilidades da OCDE, Lucia Dellagnello participou do evento como a primeira brasileira a ocupar um cargo de direção na área educacional da organização. Em sua fala, destacou o pioneirismo do Brasil na formação de uma coalizão capaz de reunir instituições de diferentes setores em torno da primeira infância. “Essa é uma prática que não se vê em outros países. Temos muito o que ensinar ao resto do mundo”, disse.
Ao comentar a pesquisa, Lucia afirmou que dados reunidos pela OCDE em diferentes países mostram que as desigualdades de aprendizagem entre crianças de diferentes perfis tendem a se ampliar ao longo dos anos. Por isso, segundo ela, enfrentar esse problema exige olhar para a primeira infância, etapa decisiva para reduzir diferenças antes que elas se tornem mais difíceis de reverter. “Temos que ser capazes de identificar essas desigualdades para construir uma nação de adultos saudáveis, preparados e felizes”, destacou.
Ela pondera que o estudo não pretende representar o país como um todo, mas apenas apontar a realidade em cada um dos territórios analisados. Ainda assim, ela defende que a pesquisa conseguiu produzir dados que, para ela, são relevantes para se pensar políticas públicas para a educação infantil no Brasil.
Leonardo Hocoya, CEO interino da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, também ressaltou o caráter coletivo da iniciativa. Segundo ele, a pesquisa resultou de um “esforço conjunto” e de uma “longa jornada”, e seus dados indicam caminhos para novos avanços na primeira infância. “Temos os dados da pesquisa, temos também o farol, que é o Plano Nacional de Educação, e agora é o momento de definir o que a gente faz a partir disso. É o momento da gente reforçar o nosso compromisso com a educação infantil pública de qualidade. De um olhar integral para a primeira infância. De um compromisso com as múltiplas infâncias”, defendeu.
Se Leonardo Hocoya apontou a necessidade de transformar os dados em compromisso público com a educação infantil, a secretária de Educação Básica do Ministério da Educação, Kátia Schweickardt, chamou atenção para um desafio específico desse processo, o de garantir mais equidade e representatividade nas instituições de educação infantil. Para ela, a ampliação do acesso precisa vir acompanhada de reconhecimento e pertencimento.
“Estamos colocando mais gente nas creches, e a maior parte dessas vagas está sendo ocupada por crianças pretas e pardas. Mas elas chegam a esses espaços e não se reconhecem. Os dados mostram esse desafio, e essa realidade precisa mudar”, afirmou.
Um pouco mais sobre a pesquisa
Os dados do estudo realizado no Ceará, no Pará e em São Paulo mostram que as crianças avaliadas alcançaram média de 502 pontos em literacia emergente, dois pontos acima da média internacional usada como referência pelo IELS. Em numeracia emergente, a média foi de 456 pontos, 44 abaixo da referência internacional. A própria publicação ressalta, porém, que esses dados não devem ser usados para ranqueamento ou comparação estrita entre países, já que as amostras têm desenhos distintos.
A pesquisa também indica que desigualdades socioeconômicas e raciais já aparecem ao final da educação infantil. Crianças de nível socioeconômico mais alto tiveram médias superiores em literacia e numeracia, e os resultados também apontam diferenças associadas à cor ou raça, especialmente em numeracia emergente. O estudo relaciona esses resultados a fatores como acesso a oportunidades de aprendizagem, estímulos no ambiente doméstico e condições de oferta da educação infantil.
Outro ponto relevante é a baixa frequência de leitura compartilhada. Apenas 14,4% das famílias nos três estados relataram ler livros para as crianças ao menos três vezes por semana, enquanto 50,4% das crianças usam dispositivos digitais todos os dias. Segundo o estudo, o uso diário de telas está associado a pontuações mais baixas em literacia e numeracia emergentes, embora a pesquisa não tenha medido o tempo diário de exposição.







