Há uma alienação bacharelesca e academicista no Brasil, afirma diretor-geral do SENAI

Durante evento no jornal Correio Braziliense, o Lucchesi defendeu a reforma do ensino médio, a Nova EJA e a inserção da educação como um projeto de país
Na análise do diretor-geral do SENAI, a inserção do ensino profissional como caminho no ensino médio faz-se urgente para resolver questões como o alto desemprego entre os jovens

Um dos principais desafios do Brasil é educar jovens para o mundo do trabalho, capacitar a mão-de-obra e torná-la mais qualificada a ponto de aumentar a sua produtividade e, consequentemente, a do país. A afirmação foi feita pelo diretor-geral do SENAI, Rafael Lucchesi, durante o Correio Debate: A importância da indústria para o desenvolvimento do Brasil.

O evento foi promovido pelo jornal Correio Braziliense em parceria com o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI) nesta segunda-feira (17). Lucchesi defendeu a mudança de mentalidade sobre a educação brasileira. “Há uma alienação bacharelesca e academicista no Brasil”, ressaltou. 

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Na análise do diretor-geral do SENAI, a inserção do ensino profissional como caminho no ensino médio faz-se urgente para resolver questões como o alto desemprego entre os jovens - a média entre 18 e 24 anos é o dobro da geral, ou seja, quase 30%. Além disso, é preciso pensar em políticas mais amplas de profissionalização, uma vez que o Brasil possui 77 milhões de adultos sem ensino médio e índice de 83% de jovens que estão nas escolas que não irão para uma universidade.

“A gente tem um problema em relação à nossa matriz educacional. Ela está torta. Ela é extremamente bacharelesca para uma situação em que um pequeno contingente populacional de jovem vai para a universidade”, destacou. Diante deste quadro, Lucchesi reafirmou a importância da reforma do ensino médio, matéria em que foi relator no Conselho Nacional de Educação.

Pelas novas regras, a educação profissional passa a ser um dos cinco itinerários oferecidos aos alunos, que farão 1.800 horas de formação geral básica, e 1.200 horas de itinerários formativos como aprofundamento de estudos. Cada município terá de oferecer pelo menos dois dos cinco itinerários previstos.

Para inserir o estudante brasileiro nas rápidas mudanças tecnológicas vividas no século XXI que repercutem no ambiente de trabalho, como a Indústria 4.0, Lucchesi lembrou que é preciso constante formação. “As novas tecnologias vão criar novas oportunidades, não mais essas que estão aí”.

André Portela afirmou que a formação deverá centrar-se em habilidades socioemocionais, como criatividade

Seguindo o raciocínio, André Portela, professor titular de políticas públicas da Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getulio Vargas, ressaltou que a capacitação será recorrente e que as políticas educacionais terão que pensar nos jovens e também naqueles que estão no mercado de trabalho. “Estamos vendo uma inversão muito rápida no Brasil do número de jovens e de população mais velha. O processo, portanto, será de uma constante requalificação”. 

Portela lembrou ainda que a formação deverá centrar-se em habilidades socioemocionais, como criatividade. “Temos que preparar um jovem na perspectiva de um imigrante que não sabe o que vai encontrar, por isso, precisa ser, entre outras coisas, criativo, inovador e com capacidade de trabalhar em grupo”, destacou. 

Na opinião do economista e especialista em educação Cláudio de Moura Castro, o SENAI tem feito um importante trabalho em relação à formação profissional no Brasil. Ele afirma que, embora as novas tecnologias forcem a uma mudança mais abrupta nos currículos dos cursos profissionais, sempre têm que estar presente o intelecto, o uso das mãos e a valorização da ocupação.

“O que a gente vê é que ainda falta esse lado mais religioso’ da formação profissional. Da pessoa sentir orgulho da profissão e do próprio empresário brasileiro valorizar mais esta mão de obra”. 

Para Cláudio de Moura Castro, embora as novas tecnologias forcem a uma mudança mais abrupta nos currículos dos cursos profissionais, sempre têm que estar presente o intelecto, o uso das mãos e a valorização da ocupação

POLÍTICA PRIORITÁRIA - Os participantes do Correio Debate destacaram ainda a falta do engajamento da população brasileira com a educação como maneira de alavancar e desenvolver o país. “70% dos pais de alunos acham que a educação está boa. O que está ocorrendo?”, questionou Cláudio de Moura Castro. Já Portela destacou que a sociedade brasileira precisa colocar a educação como um problema, para de fato, conseguir resolver a questão. 

Lucchesi seguiu o mesmo raciocínio. “O Brasil precisa inserir educação dentro de um projeto de país. Seguramente este é um caminho chave decisivo se nós queremos construir uma agenda de competitividade que seja sustentável”, afirmou Lucchesi. “A educação não tem que ser um debate apenas de educadores, a educação tem que ser um debate da sociedade porque ela molda os elementos de futuro”, complementou.

ABORDAGENS EDUCACIONAIS - O uso da metodologia STEAM (sigla em inglês para denominar as matérias de ciências, tecnologia, engenharia, matemática e artes), que enfatiza as matérias das áreas de exatas, também foi defendida por Lucchesi. A abordagem já é utilizada na rede de escolas do Serviço Social da Indústria (SESI) há mais de dez anos e vem trazendo resultados positivos, como o bom desempenho em português e matemática dos alunos do 5º ano do ensino fundamental na Prova Brasil - as médias foram superiores a dos alunos da rede privada.

Lucchesi também saiu em defesa da implementação de uma Educação de Jovens e Adultos mais conectada à realidade do trabalhador que procura essa modalidade de ensino. Para ele, este é um dos caminhos para melhorar os baixos índices de escolaridade brasileiros, mesmo com o aumento de recursos para a educação - atualmente, cerca de 6% do Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil.

“O país ainda precisa resolver o contingente com baixa escolarização e não é com a tortura sádica que a gente estruturou a EJA no Brasil, onde você coloca o adulto para refazer o que ele já abandonou no passado, com infraestrutura e pedagogia pensada para crianças”, ressaltou. “No SESI, nós estamos trabalhando com reconhecimento de saberes, voltado para o mundo adulto, aproveitando o que ele já sabe. Mas, infelizmente, essa experiência ainda é pequena para transformar o país”, complementou.

FOTOS - Acesse as fotos do evento no perfil da CNI no Flickr.

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