Educação profissional ajuda jovens e adultos a entrar no mercado de trabalho

Na sétima reportagem, a série especial do site Poder 360, com apoio da CNI, Caminhos da Indústria - desafios e oportunidade, mostra que o ensino técnico aumenta empregabilidade e que o Brasil se destaca na Worldskills, a maior competição mundial de educação profissional
Estudantes do curso de eletricista veicular do SENAI de Belém realizam atividade prática

O estudante paraense Carlos Wesley, de 17 anos, começará no próximo mês a cursar faculdade de engenharia mecânica em Belém. O jovem sempre se interessou pela área automotiva e decidiu fazer cursos técnicos ainda durante o ensino médio.

Aluno da turma de eletricista veicular do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI), Carlos acredita que a certificação técnica ajudará na busca por um emprego que possa conciliar com as atividades da graduação. “Estou fazendo esse curso porque é um requisito. Já fui [menor] aprendiz em uma concessionária e eles me indicaram fazer curso de elétrica veicular antes de levar meu currículo para outras empresas”.

De acordo com dados de levantamento feito pelo SENAI, Carlos terá grandes chances de entrar no mercado de trabalho. O Mapa do Trabalho Industrial 2019-2023 mostra que o setor automotivo é um dos que mais demandará profissionais capacitados nos próximos anos.

A pesquisa aponta que entre 31% e 50% das empresas do setor abrirão vagas de mecânico de veículos híbridos, mecânico especialista em telemetria, programador de unidades de controles eletrônicos e técnico em informática veicular.

Colega de turma de Carlos, Jesus Alves Custódio, de 58 anos, decidiu fazer o curso no SENAI para atualizar conhecimentos e para obter certificado que comprove as suas habilidades. Jesus trabalha há mais de 3 décadas consertando veículos e barcos –tipo de transporte fundamental na região amazônica–, mas nunca obteve educação profissional formal.

“Aprendi tudo o que sei fazendo, colocando a mão na massa. Mas hoje os sistemas de todas as máquinas são elétricos, e alguns amigos que trabalham comigo recomendaram que eu voltasse a estudar”, explica Jesus, que foi apelidado de “coroa” pelos colegas mais novos.

Carlos e Jesus são exemplos de um perfil profissional que cresce no país: técnicos habilitados para atuar em áreas específicas e com domínio das tecnologias que caracterizam a chamada Indústria 4.0. Os cursos técnicos têm carga horária entre 800h e 1200h, com duração média de 18 meses e foco em atividades práticas.

Para se inscrever, é necessário ter diploma de ensino médio –ou estar matriculado, como foi o caso de Carlos. Os estudantes que concluem o curso recebem certificado reconhecido pelo Ministério da Educação (MEC) e aumentam as chances de ingressar no mercado de trabalho. Pesquisa do SENAI com egressos mostrou que 7 em cada 10 estudantes que concluíram cursos em 2017 estavam empregados até o fim de 2018. Em algumas áreas, a taxa de empregabilidade foi ainda maior: 86,8% dos formados na área de meio ambiente foram contratados após a conclusão do curso.

Em 2019, cursos nas áreas de eletrotécnica, eletromecânica, mecânica, automação industrial e manutenção automotiva foram os mais buscados por estudantes que se matricularam em unidades do SENAI – são 587 fixas, 457 móveis e 2 barcos-escola que atendem comunidades ribeirinhas da região amazônica. Esse movimento está em sintonia com as demandas identificadas para a indústria brasileira nos próximos anos.

O Mapa do Trabalho Industrial aponta que o país deverá qualificar 10,5 milhões de profissionais até 2023. As áreas com maior carência de profissionais são:

  • metalmecânica (1,6 milhão);
  • construção (1,3 milhão);
  • logística e transporte (1,2 milhão);
  • alimentos (754 mil);
  • informática (528 mil);
  • eletroeletrônica (405 mil); e
  • energia e telecomunicações (359 mil).

Na avaliação do gerente-executivo de educação do SENAI, Felipe Morgado, as diferentes modalidades de educação profissional oferecidas pela entidade são uma opção para os 11,9 milhões de brasileiros que estão desempregados. “Um aluno que sai do SENAI, que conclui um curso no SENAI, ele está 100% preparado para atuar no mercado de trabalho. Ele tem atividades teóricas e práticas e a convivência com a empresa”.

Felipe destaca que, além da capacitação técnica, o SENAI busca formar profissionais habilitados para gerenciar equipes e avaliar de forma crítica novos problemas. “Nós elencamos 7 competências socioemocionais que estão ganhando relevância e incorporamos em todos os cursos do SENAI o seu desenvolvimento, dependendo do nível de aprofundamento e das características do setor”.

AVALIAÇÃO MUNDIAL DE COMPETÊNCIAS - Em 2015, o estudante paulista Paulo Fratta decidiu abandonar um curso que fazia na área de informática para se dedicar a uma paixão antiga: veículos automotores. Em janeiro daquele ano, ele entrou no curso de aprendizagem industrial – mecânica automobilística do SENAI de São Paulo. Ofertada gratuitamente, a modalidade aprendizagem industrial é voltada para estudantes que concluíram o ensino fundamental e buscam já entrar no mercado de trabalho.

Paulo gostou tanto da área que, em 2017, ingressou no curso técnico de manutenção automotiva. “Nos primeiros 6 primeiros meses do curso, fui convidado para participar da Olimpíada do Conhecimento”, lembra Paulo, hoje com 19 anos. Começava ali uma trajetória que o levaria ao maior torneio de educação profissional do mundo, a WorldSkills.

Nos últimos 2 anos, Paulo participou de vários torneios técnicos nacionais e, em agosto do ano passado, ele viajou para a Rússia – sede da edição mais recente da WorldSkills – com o título de melhor profissional do país na área de manutenção automotiva de veículos pesados.

O jovem de São Paulo superou concorrentes de mais de 60 países e levou a medalha de ouro na categoria manutenção de veículos pesados. “É uma experiência única, não trocaria por nada. É um pouco intimidador quando você vê um coreano, um suíço, um americano, um canadense, pessoas de países de primeiro mundo que têm bastante infraestrutura, bem mais do que a gente. Conseguir disputar de igual para igual é um sinal de que a gente tem plenas capacidades, por mais que tenhamos algumas dificuldades”.

Paulo Fratta celebra vitória na categoria manutenção de veículos pesados da WorldSkills 2019, em Kazan, na Rússia

Após a competição, Paulo recebeu propostas de trabalho de empresas automobilísticas, mas acabou contratado como trainee do SENAI Ipiranga (SP). Ele brinca ao dizer que acredita estar treinando os próximos medalhistas do país na WorldSkills. “É um processo único participar do torneio, eu não aprenderia o que aprendi em nenhuma oficina, nem se eu trabalhasse muitos anos ou fizesse muitos cursos. Foi um processo de crescimento exponencial, tanto pessoal, quanto técnico”.

O treinamento do jovem para participar da WolrdSkills foi intenso: por meses ele fez o ensino técnico de manhã, assistiu às aulas do ensino médio de tarde e realizou testes práticos no turno da noite. Além disso, Paulo passou algumas semanas treinando no SENAI de Belém, o mesmo onde estudam Carlos e Jesus, isso porque a unidade do SENAI paraense é referência nacional e internacional em mecânica pesada.

“Todos nós ganhamos. A instituição ganhou e também o estado do Pará. Acredito que o próprio Paulo também ganhou muito com a experiência, foi um grande diferencial na vida dele, na carreira dele. Ele saiu da casa dele, saiu da zona de conforto, veio para um estado novo. Ficou cerca de 3 meses lidando com a nossa umidade, com o calor paraense. Todas as nossas equipes se empenharam no treinamento dele, desde os serventes até o diretor da unidade. Também fizemos parcerias com empresas para nos ajudar com equipamentos que não tínhamos aqui”, detalha Davis Siqueira, gerente executivo de educação profissional do SENAI no Pará.

O Brasil ficou em 3º lugar na WorldSkills 2019, com medalhas em 13 categorias – duas de ouro, 5 de prata e 3 de bronze. O 1º lugar ficou com a China, que sediará o torneio em 2021, e o 2º lugar ficou com a Rússia, país anfitrião. O melhor resultado do Brasil no torneio foi em 2015, quando foi o vencedor da WorldSkills realizada em São Paulo. Na edição seguinte, realizada em 2017 em Abu Dabi, o país ficou em 2º lugar. A WorldSkills testa habilidades técnicas de jovens de até 22 anos, em atividades individuais ou coletivas.

Alunos do SENAI na WorldSkills 2019, em Kazan (Rússia): 3º lugar na maior competição de educação profissional do mundo

O diretor-geral do SENAI, Rafael Lucchesi, lembrou que uma das principais agendas da instituição é a educação profissional. “Ela vai ser uma ponte importante na transformação do sistema educacional brasileiro”. Para ele, o Brasil precisa melhorar a gestão dos recursos destinados à educação e, com isso, empurrar a produtividade na educação e, consequentemente, do trabalho. Lucchesi lembrou ainda que 83% dos jovens não vão para a universidade e, dos que vão, metade não concluem o curso.

Dos que fazem o ensino superior, a maioria não opta por “ciências duras”, como matemática, engenharia e física. “Precisamos de uma agenda de educação que impulsione o trabalho no Brasil”, reforçou.

A série Caminhos da Indústria – desafios e oportunidades é produzida pelo Poder360, com apoio da Confederação Nacional da Indústria (CNI).

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