Embora as mulheres estejam cada vez mais qualificadas, presentes no mercado de trabalho e à frente de negócios, elas ainda ocupam poucos espaços de decisão. Como transformar esse avanço em maior representatividade na alta liderança? Esse foi o ponto de partida da primeira edição do Bate-papo com Elas, realizado pelo Instituto Euvaldo Lodi (IEL), nesta terça-feira (4), em parceria com a Academia de Líderes IEL, no contexto do Programa de Liderança Feminina na Indústria (LiderA).
Com o tema “Acelerando carreiras femininas: preparando mulheres para a alta liderança”, o encontro reuniu executivas para discutir desenvolvimento profissional, cultura organizacional, autoconhecimento, saúde mental e os desafios enfrentados por mulheres que buscam posições estratégicas.
Na abertura, a superintendente nacional do IEL, Sarah Saldanha, destacou que a troca de experiências entre mulheres fortalece trajetórias profissionais e contribui para ampliar a presença feminina em espaços de liderança.
“O Bate-papo com Elas nasceu com uma convicção muito simples: quando nós, mulheres, estamos reunidas e decidimos compartilhar as nossas experiências, desafios e aprendizados, nós crescemos e cresceremos juntas”, afirmou, Sarah Saldanha.
Sarah também lembrou a importância do Agosto Lilás, campanha nacional de enfrentamento à violência contra a mulher e reforçou a necessidade de fortalecer redes de apoio e desenvolvimento feminino. O encontro teve a participação da executiva, pesquisadora e mentora Maiara Liberato, fundadora e CEO da EQWETI, e foi mediado por Danusa Lima, diretora de Governança Interna e Externa da Confederação Nacional da Indústria (CNI).
Ao conduzir o debate, Danusa ressaltou que, apesar dos avanços conquistados pelas mulheres nas últimas décadas, a presença feminina ainda cresce em ritmo lento nos espaços de poder.
"Já temos muitas mudanças que estão visíveis, concretas, consolidadas e constantes. Isso já é uma grande vitória. Mas, quando olhamos para os espaços onde as grandes decisões são tomadas, percebemos que esse avanço acontece em um ritmo muito mais lento do que gostaríamos”, apontou a diretora.
Durante a conversa, Maiara defendeu que ampliar a liderança feminina exige mais do que políticas formais de igualdade. Segundo ela, é preciso transformar a cultura organizacional e compreender como fatores históricos e sociais influenciam comportamentos e oportunidades. Para a especialista, essa mudança beneficia homens e mulheres e fortalece os ambientes de trabalho.
"É necessário saber conduzir as ações e entender como somos estruturados para pensar, sentir e nos posicionar no mundo. Compreendendo esses aspectos, conseguimos transitar melhor e construir ganhos para homens e mulheres”, destacou Maiara.
Com mais de 26 anos de trajetória profissional, Maiara já impactou mais de seis milhões de pessoas por meio de projetos, palestras e mentorias, além de fortalecer pesquisas relacionadas a desenvolvimento humano, gênero e masculinidades.
Mais do que abrir portas, transformar a cultura
Ao longo do encontro, Maiara chamou atenção para um dos principais obstáculos à ascensão feminina, a chamada “cultura invisível”, formada por comportamentos, crenças e padrões sociais que permanecem mesmo quando leis, políticas e discursos já avançaram. Para ela, a mudança não se resume à criação de mecanismos formais de igualdade. É necessário transformar a cultura que influencia as relações dentro e fora das organizações.
A discussão também ampliou o olhar sobre equidade. Para a palestrante, gênero não deve ser tratado apenas como uma pauta de diversidade e inclusão, mas como uma questão que atravessa a cultura das organizações, a liderança, a governança, o clima, a saúde e o bem-estar dos trabalhadores.
Para ela, ao ampliar a participação de mulheres em posições estratégicas, as organizações podem incorporar diferentes experiências, repertórios e formas de enxergar problemas e oportunidades. Maiara explica que “a diversidade, portanto, deixa de ser apenas uma agenda social e passa a integrar uma estratégia de negócios, inovação e desenvolvimento”.
Se a transformação cultural é necessária, a preparação também tem papel central. Ao longo do encontro, as participantes destacaram que chegar a uma posição de liderança exige mais do que conhecimento técnico. Autoconhecimento, repertório, comunicação, capacidade de relacionamento e segurança para se posicionar são competências que precisam acompanhar a trajetória profissional.
Para Maiara, programas de capacitação contribuem justamente para esse processo ao ajudar mulheres a reconhecerem suas competências, identificarem lacunas, compreenderem barreiras e desenvolverem ferramentas para agir de maneira mais estratégica.
"Se não compreendermos que tudo está interligado e como o desenvolvimento humano acontece nas esferas social, familiar, subjetiva, corporativa, educacional e em tantas outras, não conseguiremos promover uma mudança estrutural profunda, contínua e duradoura. Precisamos ampliar esse entendimento e desenvolver um olhar mais crítico dentro das organizações, para que a mudança deixe de ser pontual e se torne um legado”, explicou.
Ao conduzir a conversa, Danusa compartilhou experiências da própria trajetória e afirmou que essas habilidades são fundamentais para que mulheres ocupem espaços de decisão com segurança e legitimidade.
"Em alguns fóruns, chamamos isso de soft skills, que são competências emocionais para que, diante dessas situações desafiadoras, a mulher possa se expressar, demonstrar o que conhece, apresentar seu posicionamento e marcar sua presença, sem rivalidade ou agressividade, mas como uma conquista legítima daquele espaço. Esse ainda é um desafio”, apontou.
Danusa destacou que a liderança feminina não está associada à rivalidade, mas à ocupação legítima dos espaços e ao fortalecimento de outras mulheres ao longo do caminho. Segundo ela, quem alcança posições estratégicas também inspira novas lideranças.
"Hoje, percebo que muitas mulheres que galgaram certas posições estão incentivando e puxando outras mulheres para esses lugares, e isso é muito importante. A mulher precisa entender que é possível, que ela é capaz e que aquele espaço também pode ser dela, se ela quiser”, afirma Danusa.
As participantes também reforçaram que construir uma carreira de alta liderança exige equilíbrio. Além de competências técnicas e comportamentais, saúde mental, autocuidado e momentos de descanso foram apontados como fatores essenciais para sustentar o desempenho e o desenvolvimento profissional a longo prazo.
Liderar em um mundo cada vez mais tecnológico
Outro ponto abordado foi o impacto das transformações tecnológicas no perfil das lideranças. Para Maiara, o avanço da inteligência artificial torna ainda mais relevantes as habilidades humanas, como empatia, adaptabilidade e leitura de contexto.
"A mudança precisa acontecer em vários níveis. Para exercermos essa capacidade de liderança, nós, mulheres que estamos à frente de indústrias, empresas, negócios ou equipes, precisamos desenvolver adaptabilidade e a capacidade de interpretar contextos, mudanças e pessoas. Em uma época em que falamos da Indústria 4.0 e de tantos avanços tecnológicos, principalmente da inteligência artificial, mais do que nunca precisaremos compreender o ser humano e desenvolver habilidades emocionais, relacionais e comportamentais”, explicou Maiara.
Sobre o Bate-Papo com Elas e LiderA
O Bate-papo com Elas integra a Academia de Líderes IEL e o eixo de Gestão Empresarial do LiderA, iniciativa do Fórum Nacional da Mulher Empresária (FNME), coordenado pela CNI. A ação fortalece a liderança feminina na indústria por meio da troca de experiências, do desenvolvimento de competências e da conexão entre mulheres em posições estratégicas.
Com encontros bimestrais, a iniciativa passa a integrar o portfólio nacional do IEL ao lado do Programa Liderança Feminina Global de Educação Executiva, do curso de Liderança Feminina e do Programa de Mentoria para Mulheres. A próxima edição será realizada em outubro de 2026.









