As cores da educação: inclusão e diversidade segundo as alunas transexuais do SESI e SENAI

O direito básico à educação ainda é um desafio para pessoas transexuais. As histórias de Niara, Ruby, Patrícia e Soraya mostram como uma rede de apoio abre caminhos na vida das pessoas

“Educação não transforma o mundo. Educação muda as pessoas. Pessoas transformam o mundo.” – Paulo Freire

Educação, comida na mesa, casa para morar. Necessidades básicas de todo ser humano, mas que parecem privilégios para muitas pessoas, principalmente aquelas que vivem em meio ao preconceito e à exclusão social.

Há 13 anos no topo da lista, segundo a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), o Brasil é o país que mais mata mulheres transexuais e travestis no mundo.

Falta de emprego, preconceito e vulnerabilidade social são as barreiras mais comuns enfrentadas por mulheres trans ao tentar entrar no mercado de trabalho. E os problemas começam na formação educacional. Hoje, segundo um estudo da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), 82% das pessoas trans sofrem com evasão escolar ainda na educação básica.

Para mudar esse quadro, o Serviço Social da Indústria (SESI) e o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI) têm ações e parceria com governos estaduais e municipais para promover o acesso à educação e a inclusão da comunidade trans no mercado de trabalho. 


"O mercado de trabalho ainda enfrenta um desafio na contratação de pessoas trans, por conta da visão errada de normalidade, que não existe. Segundo dossiê de 2020, a dificuldade das pessoas trans em conseguir emprego acontece porque ainda há reforço de padrões heteronormativos. É preciso criar inciativas que capacitem e promovam a inclusão de pessoas do grupo de LGBTQIAP+. O SENAI tem uma premissa de escola para todos, sem excluir nenhum grupo. Nesse contexto, o Programa SENAI de Ações Inclusivas (PSAI) trabalha para superar barreiras e promover o acesso, a permanência e o êxito de todos os públicos, em especial do grupo LGBTQIAP+", ressalta Adriana Barufaldi, gestora do PSAI. 


Por isso, no mês do Orgulho LGBTQIAP+, a Agência de Notícias da Indústria traz as histórias de Niara, Ruby e Soraya, mulheres trans que, por meio da educação, estão conseguindo transformar suas vidas e sua comunidade.

Essa é a Ruby

Depois de uma hora e meia de caminhada, Ruby Oliveira não sabia exatamente quantos passos já tinha dado ou o quanto andara até então. Saindo do bairro de Centenário, onde vive até hoje, até o Distrito Industrial de Campina Grande, onde fica o Centro de Inovação e Tecnologia Industrial (CITI/CAM-SENAI), são 6,5 quilômetros de distância. De carro, não daria 20 minutos. Mas Ruby a percorreu a pé por um motivo bem bom: se inscrever no curso técnico do SENAI para trabalhar com moda.

Hoje com 25 anos, já faz dois que Ruby Oliveira encarou o mundo oficialmente como uma mulher. Aos 23, começou a transição, mas a história de luta e resistência são bem mais antigas. Aos 18 anos e socialmente percebida como homem, o primeiro episódio de preconceito aconteceu dentro de casa. Ao se assumir gay, foi expulsa de casa pelo pai. Ela lembra de não ter para onde ir, o que comer ou qualquer apoio familiar.


“Esperei terminar o Ensino Médio pra poder me assumir. Eu sabia que a reação do meu pai seria ruim, mas não queria parar de estudar, então esperei para falar com ele”, recorda.


Em 2020, ela decidiu assumir para todos que, na verdade, sempre se sentiu mulher. Assim, a pequena cidade de Esperança, no brejo paraibano, ganhou mais uma habitante. Nascia Ruby.

A transição pacificou um conflito interno, mas inaugurou um outro tipo de batalha. Viver em um país transfóbico, ela descobriria bem rápido, não é nada fácil.


“Distribuí mais de 60 currículos, saía todos os dias em busca de uma oportunidade, e enfrentei muito preconceito. Quando me chamavam para entrevistas presenciais e me identificava como transexual, eu não ia adiante no processo seletivo. Percebia um certo receio dos recrutadores em me contratar”, conta.


Ruby perseverou. Deixou a pequena Esperança e seus 33 mil moradores pra trás rumo à Campina Grande, cidade com 12 vezes mais habitantes.

No aniversário de 23 anos, em 20 de janeiro de 2021, o presente veio em forma de oportunidade. Por meio de um cadastro no Centro de Ações e Políticas para a População LGBTQIAP+ da Secretaria Municipal de Assistência Social (SEMAS) de Campina Grande, Ruby conseguiu uma vaga no curso de Costureiro Industrial do Vestuário, no SENAI.

É dentro do arraiá que encontro meu lar

As festas de São João são ícones da identidade da Paraíba. Como uma paraibana raiz, Ruby sempre amou as festas e a dança. Por 12 anos, disputou troféus com sua quadrilha. Ela tinha 14 anos quando começou a desenhar figurinos.


“Comecei a criar croquis juninos quando eu nem sabia o que era isso. Com 17 anos, fiz o primeiro croqui para uma competição e tiramos nota 10 com o figurino. Foi quando pensei: ‘nossa, eu sou realmente do São João.’”


No vocábulário de Ruby, lá no começo, ela era um “damo”, pois ainda era vista como homem. Hoje, ela não só é dama junina, como é Rainha da Diversidade de uma quadrilha da cidade de Guarabira.

Quando o talento encontra a técnica

O curso de Costureiro Industrial do Vestuário foi um passo para o desenvolvimento e concretização do seu talento. Em 2020, a turma do curso tinha 16 alunos, sendo 3 transexuais.

Na sala de aula, Ruby brilhou e então chegou o convite para participar do Grand Prix SENAI de Inovação, um evento que desafia os participantes a resolver problemas da indústria.

“Ruby é uma aluna super dedicada, muito criativa e tem potencial. Ela tem conseguido motivar outras mulheres da turma a serem fortes e empoderadas”, afirma Fablicia Lima, instrutora do curso.

Nas passarelas da diversidade

Em maio de 2022, o curso acabou com chave de ouro. Por sugestão de Ruby, a turma organizou um desfile com as coleções dos alunos no auditório do SENAI Distrito Industrial, em Campina Grande. O tema: moda sem gênero.

“O SENAI abraçou essa causa e está percebendo que a qualidade não está no gênero, nem na orientação sexual e nem na diversidade de gênero. O SENAI está simplesmente assumindo um papel de inclusão produtiva, que é uma das metas da nossa coordenação, para pessoas que têm competência e, muitas vezes, são desprezadas por conta da sua identidade de gênero, principalmente em relação as pessoas transexuais”, enfatizou Mário Fernandes, coordenador de Ações e Políticas para a População LGBTQIAP+ da Secretaria Municipal de Assistência Social (Semas)

Formada, Ruby quer crescer como influenciadora digital. Já são mais de 23,5 mil seguidores no Instagram. Só que nesse novo capítulo, Ruby tem uma aliada: a mãe.

“O futuro é ser uma digital influencer, de moda, variedades, maquiagem, criar conteúdo ligados à cultura. Quero criar uma marca que chame atenção de mulheres e homens transexuais, uma moda sem gênero. Quero influenciar pessoas transexuais a serem quem são, sem medo e com força”, afirmou.

Essa é a Niara

Nos corredores do SESI Reitor Miguel Calmon, em Salvador (BA), Niara Costa está numa roda de conversa com as amigas. Na escola, todo mundo chama a estudante de 16 anos pelo nome que ela escolheu. Niara é seu nome social.

Faz pouco mais de um ano que as coisas são assim. É que, apesar de ser uma mulher trans há bastante tempo, a vontade de mudar o nome definitivamente veio depois que o auge da pandemia passou e as aulas voltaram ao presencial. Pra tomar a decisão, Niara contou com o apoio da família.

Ela queria seu verdadeiro nome escrito no sistema, nas provas e no crachá. E ela tem esse direito: o Decreto nº 8.727, sancionado em 2016, garante o direito ao nome social, que é a designação pela qual a pessoa travesti ou transexual se identifica e é socialmente reconhecida. Em 2018, uma portaria do MEC autorizou o uso do nome social nos registros escolares da educação básica.


“A gente vê tanta coisa por aí, sabe... Eu lembro que andei pelos corredores até a coordenação muito nervosa. Não sabia se iam deixar, se teria dificuldades ou se teria que mostrar algum documento. De verdade, eu imaginei muitos cenários ruins”, diz.

Me chame pelo meu nome

Às vezes, é muito bom quando a realidade contraria a expectativa. Não só Niara não encontrou obstáculos na direção da escola, como a coordenadora ofereceu a mudança da foto do crachá.


“No SESI, tive apoio e muito respeito. A secretária foi incrível, já foi mandando e-mail para os professores. Eu não esperava que fosse ser tão tranquilo, de verdade”.


Dentro da sala de aula, novas surpresas. Boas. Vários professores a cumprimentaram pela coragem e a apoiaram. Amigos, colegas e professores, todos passaram a chamá-la de Niara e a usar pronomes femininos para se referir a ela.

“Todo o processo foi libertador, sabe? Poder ser quem eu sou sem medo. Abraço todas minhas versões. Eu sei que precisei passar por esse processo para descobrir quem era e para me tornar a mulher que sou hoje”.

Essa é a Soraya

No último dia 8 de junho, vestindo uma blusa vermelha do SENAI, calça jeans e cabelos soltos, Soraya Sobreiro, 27 anos, discursava para amigos, familiares e colegas de classe na cerimônia de encerramento do curso de Eletricista.


“O que é ser uma pessoa trans? Ser uma pessoa trans é muito mais que uma transição da identidade de gênero. Ser trans é lutar contra o preconceito, a falta de oportunidade, é a luta contra a violência, a exclusão, contra as estatísticas do país que mais mata pessoas trans. É a luta pela vida, pelo respeito, pela dignidade e pela empatia. E é a luta de todos os dias para sermos quem somos e ter os mesmos direitos de qualquer ser humano”


Enquanto Soraya discursava, muitos colegas se emocionaram. O momento representou muito mais que uma formação. Foi um passo à frente na luta contra o preconceito e a exclusão.

Soraya ao lado do instrutor, de azul, à esquerda

A turma foi aberta exclusivamente para pessoas trans por meio de uma parceria entre o SENAI do Espírito Santo e a EDP, distribuidora elétrica do estado. Ao longo de três meses, os 9 integrantes da primeira edição da parceria passaram por 550 horas de formação no SENAI Civit, na Serra.

Durante a pandemia de Covid-19, seis em cada 10 pessoas da comunidade LGBTQIAP+ perderam emprego ou tiveram uma diminuição de renda, segundo estudo de 2021 da plataforma #VoteLGBT. Um outro levantamento, da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), mostra que a comunidade trans enfrenta as maiores barreiras no mundo do trabalho: 88% dos trans entrevistados acreditam que as empresas não estão preparadas para contratar pessoas trans.


“Fomentar a educação, a partir de ações intencionais e propositivas, é fundamental para criar oportunidades às pessoas mais vulneráveis. Ao promover uma jornada de desenvolvimento e capacitação profissional, a escola será um passo em direção à cidadania, empregabilidade e acolhimento da população trans”, afirma a vice-presidente de Pessoas e ESG da EDP no Brasil, Fernanda Pires.

Soraya costumava assinar as provas com seu nome de batismo, porque ela ainda não fez a troca do nome social. “Um professor me questionou. Expliquei que ainda não tinha trocado o nome nos meus documentos. Ele disse: ‘Como você se apresenta para as pessoas? É como Soraya, né? Então, aqui, você pode assinar com seu nome de verdade.’ Eu sei que parece algo simples, mas isso nos deixa mais confortável em sermos quem somos”, relembra Soraya.

Não apenas Soraya e Ruby, mas muitas

Tanto Soraya quanto Ruby nasceram em cidades pequenas e, quando se assumiram, não tiveram apoio da família. Mas as duas, como tantas outras pessoas da comunidade LGBTQIAP+, encaram as adversidades de cabeça erguida.

Educação transforma vidas e muda números

Garantir os direitos e abrir portas para a inclusão começa pela educação. E o SENAI tem sido um parceiro muito importante nesse sentido.

O Ceará é o segundo estado mais perigoso para pessoas trans e travestis, segundo a Antra. Como educação e emprego são fundamentais para diminuir os índices de violência no estado, o Centro Estadual de Referência LGBTQIAP+ Thina Rodrigues se juntou ao SENAI para oferecer cursos de especialização para o público trans.

Até junho, mais de 50 pessoas concluíram os cursos de Cozinheiro Industrial e Moda Praia, Corte e Costura em Lingerie Feminina. O programa ofereceu também outras 90 vagas, que não foram concluídas. No site do Thina Rodrigues há informações completas sobre como participar.

O Centro Thina Rodrigues é uma iniciativa do Governo do Ceará para acolher, levantar dados e prestar assistência psicológica e jurídica à comunidade. Só em 2022, a iniciativa fez mais de 800 atendimentos.

Neta Honorato Batista também é uma mulher trans e trabalha como assistente administrativa do Centro. Ela conta que com a parceria do SENAI e do programa Doritos Rainbow, tem sido possível oferecer oportunidades de emprego para as pessoas da comunidade.


“Converso com eles/elas/elus e percebo como o nome do SENAI abre portas. Já teve aluna que chegou falando que quando apresentou o currículo com certificado do SENAI, ela foi contratada.”, conta.


A assistência está a um número de você! Os atendimentos do Centro são agendados e podem ser presenciais, de segunda a sexta-feira, das 8h às 17h, ou por meio eletrônico. A população pode buscar mais informações no e-mail cerlgbt@sps.ce.gov.br e no telefone (85) 98993-3884.

Atendimento por todo o país! O Programa de Ações Inclusivas do SENAI (PSAI) está preparado para receber pessoas em vulnerabilidade social, pessoas com deficiência e da comunidade LGBTQAP+. O SENAI promove acessibilidade em todo o processo educacional, além de promover parcerias com diferentes instituições. Em 2021, foram mais de 6 mil pessoas atendidas pelo PSAI e, ao longo de três anos, quase 18 mil pessoas inscritas em cursos de especialização no SENAI.

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