A Robótica Educacional faz parte da história do Serviço Social da Indústria (SESI) Bahia há 20 anos. Iniciada como uma proposta inovadora de aprendizagem, consolidou-se como marca da instituição, capaz de transformar a relação de estudantes com o conhecimento.
Mais do que ensinar programação, montagem e tecnologia, a robótica criou um ambiente de experimentação, criatividade, colaboração e protagonismo. Alunas e alunos resolvem problemas, lidam com erros, trabalham em grupo, comunicam ideias e creem em suas próprias capacidades.
Fernando Didier, da equipe da Robótica do SESI Bahia, acompanha o projeto desde 2013. Para ele, a transformação pode ser percebida diariamente. “A Robótica Educacional é uma metodologia que desperta o interesse dos estudantes de maneira muito espontânea. A possibilidade de ver as ideias ganhando vida fazem com que eles queiram aprender cada vez mais”, diz.
A evolução do projeto foi acompanhada pelo crescimento dos professores, que passaram a incorporar a tecnologia às práticas pedagógicas. Hoje, a robótica educacional é componente curricular. E, desde o final de 2008, há competições com estudantes que se destacam no interesse e nas capacidades de programação e prototipagem de robôs.
Desses torneios, Didier destaca a classificação da Escola SESI Reitor Miguel Calmon para uma competição internacional na modalidade STEM Racing em Abu Dhabi, em 2019. No mesmo ano, outro capítulo importante foi escrito pela equipe Robolife: primeiro lugar na categoria FIRST LEGO League (FLL) após uma década competindo.
“Aprendi que a inovação exige constante capacidade de adaptação e que o sucesso da Robótica Educacional está diretamente ligado ao compromisso de todos que acreditam no seu potencial transformador”, afirma Didier.
Aprendizagem que vai muito além da tecnologia
A história de Robson Nunes ajuda a traduzir como a robótica também transforma quem está do outro lado da sala de aula. Professor de Biologia e técnico da equipe Sevenspeed, da modalidade STEM Racing, na Escola SESI Retiro, ele chegou à robótica por um caminho que revela a amplitude da área.
“Eu vou começar respondendo a uma pergunta que todo mundo faz nos quatro cantos do Brasil: como é que um biólogo foi parar na robótica?”, brinca. A resposta está na pesquisa, dimensão nem sempre percebida por quem só associa a robótica à construção e à programação de robôs. “Quando cheguei ao SESI, fui procurado por alguns alunos para ajudá-los em uma pesquisa. A pesquisa também faz parte da robótica, é uma parte gigantesca, mas que às vezes as pessoas não veem”, conta.
Passada a primeira experiência, Robson assumiu a função de técnico de uma equipe da FLL. Foi campeão logo na primeira temporada. Também conseguiu uma classificação para a etapa nacional. Depois, mudou de categoria e passou a atuar na Olimpíada Brasileira de Robótica (OBR) e conquistou dois títulos regionais. E acompanhou de perto a consolidação da robótica como disciplina no SESI Bahia.
Na sequência, recebeu outro desafio: atuar em uma nova modalidade, à época conhecida como F1 in Schools (hoje, STEM Racing). Ali, a trajetória ganhou dimensão internacional. A equipe Seven Speed conquistou três títulos nacionais, resultados que abriram as portas para a participação em eventos fora do país.
As conquistas representam apenas uma parte da história. “Eles (alunos) chegam tímidos e inseguros. Ao longo do processo, você vê essa chave virar. Esse aluno passa a se comunicar melhor, a liderar, a trabalhar em equipe, a resolver problemas reais. Isso dá mais orgulho do que troféu e medalha”, diz.
Histórias que continuam depois da escola
A transformação de estudantes pode ser percebida pelas experiências de ex-alunos. Graziele Evelin dos Santos, de 21 anos, iniciou sua trajetória junto ao SESI em 2013, na Escola SESI Candeias. Em 2017, integrou a equipe RoboLife e teve a primeira experiência na FLL. Entre 2020 e 2022, participou das equipes Sputnik e Hydra, no SESI Piatã, competindo na FIRST Tech Challenge (FTC).
As experiências ajudaram Graziele a descobrir uma área que mudaria sua trajetória profissional: a Mecatrônica. Ela cursou formação técnica no SENAI CIMATEC e depois ingressou em Engenharia Mecânica, como bolsista. Para ela, a robótica vai além dos conhecimentos técnicos: “Aprendi a me comunicar melhor, a falar em público, a trabalhar em equipe, a lidar com desafios e, principalmente, a acreditar mais em mim mesma”.
Hoje, Graziela é uma das técnicas da equipe de garagem Black Gold, em Candeias. Aos sábados, das 8h às 12h, acompanha crianças e adolescentes de 9 a 15 anos, de diferentes escolas, que se preparam para a FLL. “Se a robótica mudou a minha história, hoje eu quero ajudar a transformar a história de outras crianças por meio dela”, afirma.
Geovane: metade da vida dedicada à robótica
Aos 24 anos, Geovane de Souza Santos olha para trás e percebe que a robótica já ocupa metade de sua vida. Ex-aluno da Escola SESI Reitor Miguel Calmon, ele entrou na instituição em 2014, no sétimo ano, e teve o primeiro contato com a robótica nas aulas de Ciência e Tecnologia. “Ali eu me apaixonei”, resume.
No final daquele ano, ingressou na primeira equipe, a TecSab. Depois, passou pela TecGold e pela LoveTech, até criar, em 2019, ao lado de cinco amigos, a Seven Speed. Naquele ano, a equipe foi campeã nacional na modalidade STEM Racing (à época, F1 in Schools) e pôde representar o Brasil em uma competição mundial, em Abu Dhabi. Foi o ponto alto de uma trajetória que também inclui títulos na Olimpíada Brasileira de Robótica e participações em torneios nacionais da FLL e na Olimpíada do Conhecimento.
Para Geovane, porém, o maior legado não está apenas nos resultados competitivos. Depois da pandemia, ingressou na Universidade Federal da Bahia (UFBA), onde cursa Licenciatura em Matemática. Paralelamente, transformou a experiência acumulada como competidor em atuação profissional na educação tecnológica.
Hoje, trabalha com formação e acompanhamento pedagógico, atendendo escolas da Bahia, além de atuar como juiz, chefe de juízes e apresentador em competições de robótica. “A percepção do impacto que a robótica pode ter na vida do estudante fez com que eu quisesse levar esse impacto para um aluno, para dez, para vinte alunos que pudessem ser impactados também”, explica.
Da sala de aula ao trabalho no SESI
João Vitor, 21 anos, ingressou no SESI em 2013, no terceiro ano do ensino fundamental. Ali, conheceu a robótica. “Foi paixão à primeira vista”, lembra. No sexto ano, passou a integrar as equipes extracurriculares e continuou acompanhando a Robótica Educacional em sala de aula até a terceiro série do ensino médio.Ao concluir a trajetória como estudante, ele imaginou que teria de se afastar daquele universo, mas um estágio no SESI mudou essa história. Na Sala Maker do SESI Retiro, pôs em prática e aperfeiçoou competências desenvolvidas nos anos de robótica.
“Olhar para toda essa trajetória e perceber que aquilo que começou lá no ensino fundamental hoje faz parte da minha profissão é algo muito especial para mim”, afirma João Vitor, que foi efetivado pela instituição e continua a trabalhar na área.
Um legado que continua a ser construído
As histórias de Graziele, Geovane e João Vitor representam diferentes caminhos possíveis a partir da experiência com a robótica. As trajetórias explicam por que, para Fernando Didier, a Robótica Educacional não é medida só por torneios, medalhas ou troféus.
“Cada vez que encontro um ex-aluno compartilhando suas conquistas, ingressando em uma universidade, iniciando uma carreira de sucesso ou simplesmente relatando o quanto a robótica contribuiu para sua formação, tenho a certeza de que todo o esforço vale a pena”, afirma.
Para Armando Neto, diretor superintendente do SESI Bahia, o investimento e esforços contínuos valem a pena porque a aprendizagem ultrapassa a formação escolar. “Não tenho dúvida do ganho na vida de cada um para as escolhas profissionais e sucesso na vida, na escolha que fizeram”, diz.
A superintendente de Educação e Cultura do SESI Bahia, Clessia Lobo, está presente na prática da robótica desde o início e foi a responsável pela primeira turma de formação de professores, quando ainda era assessora de Educação.
Ela se recorda da insegurança dos educadores diante do então novo desafio. “A pergunta que fizeram quando abriram os kits com mais de mil peças da LEGO, sensores, engrenagens, cabos e o bloco programável era se não precisariam de formação em Engenharia Elétrica ou Eletrônica para saberem mediar os estudantes. Respondemos que não. Teriam que aprender junto e logo dominariam conceitos básicos”, recorda. O protagonismo caberia aos estudantes.
Robótica é uma questão de identidade
A Robótica Educacional tornou-se parte da identidade do SESI Bahia. Está na sala de aula, nos projetos, nas equipes, nas competições e nas histórias de quem passou por ela. São 20 anos de uma história construída por professores, estudantes, famílias, equipes e profissionais que acreditaram — e continuam acreditando — que aprender também pode significar experimentar, criar, errar, insistir e transformar uma ideia em realidade.
No fim, o maior resultado talvez esteja justamente nas vidas que seguem adiante levando consigo aquilo que aprenderam com a robótica. Como resume Robson Nunes, é nessa transformação que está a verdadeira conquista do educador: enxergar potencial em um estudante, ajudá-lo a acreditar em si mesmo e acompanhar o momento em que essa confiança se transforma em autonomia.





