A recuperação do Brasil passa pela indústria

Em entrevista publicada na IstoÉ Dinheiro, o presidente da CNI, Robson Braga de Andrade, reforça a necessidade das reformas tributária e administrativa, além de avanços no marco do saneamento básico e do gás

Fortemente afetada pelos efeitos da pandemia do novo coronavírus na economia, a indústria brasileira vem capitaneando, neste semestre, a recuperação do país. Agora, com o nível de emprego e de atividade de volta a patamares pré-pandemia, o setor industrial volta os olhos para a agenda de retomada.

O presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Robson Braga de Andrade, reforça que essa agenda perpassa as reformas tributária e administrativa, além de avanços em medidas capazes de fomentar investimentos, como o marco legal do saneamento básico e o do gás natural. Sobre as lições que a pandemia deixa para o setor industrial, ele afirma:


“O que foi importante neste ano foi que o Brasil e o mundo entenderam a importância de se ter uma base produtiva mais ampla, que não dá para se depender apenas de um fornecedor, ou de um cliente.”


Confira a entrevista completa a seguir:

ISTOÉ DINHEIRO - O Brasil iniciou o ano sinalizando, enfim, a retomada do crescimento. No entanto, veio a pandemia. Qual o balanço o senhor faz agora que estamos chegando ao fim de 2020?

ROBSON BRAGA DE ANDRADE - Este foi um ano completamente inesperado, atípico. Começamos 2020 com expectativa de crescimento de 3% da indústria. Acreditávamos no mercado interno, no aumento do consumo, no ambiente de negócios e também nas exportações, em acordos internacionais.

Tínhamos uma agenda muito densa de negociações para este ano. No início de março, fomos surpreendidos pela pandemia. Houve uma queda brutal no consumo, nas encomendas, com uma consequente dificuldade das empresas de entregar produtos com a logística paralisada no país.

ISTOÉ DINHEIRO - Que perspectivas o setor tem para 2021? Que agendas precisam sair do papel para que o Brasil tenha uma retomada mais sólida da economia?

ROBSON BRAGA DE ANDRADE - O que temos de trabalhar em 2021 é criar condições de um crescimento sustentado. E, para isso, há medidas necessárias urgentes. As prioridades devem ser as reformas tributária e administrativa. A manutenção do teto de gastos públicos também é fundamental, para que se viabilize o equilíbrio fiscal. Outras medidas poderão ajudar na retomada do crescimento econômico. Um exemplo é o novo marco legal do saneamento básico.

O projeto aprovado recentemente pelo Congresso Nacional viabiliza a participação da iniciativa privada em um setor até então dominado por empresas públicas. Se também conseguirmos aprovar o novo marco regulatório do gás natural, este será outro ponto extremamente positivo. São medidas que podem ser alavancadoras do crescimento, independentemente do auxílio emergencial. 

ISTOÉ DINHEIRO - O possível cenário de um auxílio emergencial menor no próximo ano preocupa em relação à recuperação da atividade econômica? 

ROBSON BRAGA DE ANDRADE - Realmente o auxílio emergencial foi muito importante, injetando mais de R$ 250 bilhões na economia. Existe uma grande preocupação de investidores e dos brasileiros com a situação fiscal do país e se espera um auxílio menor para 2021. Isso é um fator de menor injeção na economia o que, por um lado, preocupa. Por outro lado, houve um significativo avanço na discussão da reforma tributária no Congresso Nacional.

Se ela for aprovada no início do ano, como esperamos, o País poderá dar um grande salto para alcançar um crescimento sustentável. Uma ampla reforma, que simplifique e racionalize o sistema tributário é fundamental para melhorar o ambiente de negócios e, consequentemente, atrair investimentos, gerar empregos e aumentar a renda da população. 

ISTOÉ DINHEIRO - Que lições, em sua visão, a pandemia trouxe para a indústria brasileira? 

ROBSON BRAGA DE ANDRADE - O que foi importante neste ano foi que o Brasil e o mundo entenderam a importância de se ter uma base produtiva mais ampla, que não dá para se depender apenas de um fornecedor, ou de um cliente. A gente tem que ampliar nossa base de produção no Brasil. Claro que não para produzir tudo, mas há uma necessidade de reindustrialização e aumento da capacidade industrial do País. Não podemos ser totalmente dependentes de insumos ou de produtos acabados fabricados em outros países. 

ISTOÉ DINHEIRO - O que precisa ser feito para que o Brasil amplie essa capacidade produtiva brasileira? Qual é a complexidade de se fortalecer a base industrial do país? 

ROBSON BRAGA DE ANDRADE - Fácil não é, mas o Brasil tem algumas vantagens. Nós percebemos durante a pandemia a capacidade da indústria brasileira de fazer inovação, de assimilar tecnologia e desenvolver produtos. Veja que, na pandemia, quando houve grande demanda por respiradores, tivemos empresa que desenvolveram equipamentos de última geração e de excelente nível e capazes de competir.

O Brasil teve capacidade inovativa muito grande. Muitas das nossas dificuldades competitivas estão fora das fábricas. Temos a questão da falta de infraestrutura, a oneração das exportações. Por outro lado, o trabalhador da indústria tem capacidade para inovar e trabalhar com processos avançados. Fazendo uma reforma tributária e o Brasil crescendo, nós vamos ter muito mais condições de fazer investimentos em processos avançados.

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