Momento de parar e pensar em produtividade é agora, na crise

A experiência ensinou a Marcos Kawagoe a nunca subestimar o desperdício

A experiência ensinou a Marcos Kawagoe a nunca subestimar o desperdício. Os danos provocados por ele aparecem em empresas de todos os portes. Kawagoe está habituado a receber olhares de certa descrença quando diz a empresários, gerentes e trabalhadores que é possível produzir mais e com mais qualidade com o que as fábricas já têm. E que isso, chamado de produtividade, é o resultado da busca contínua por melhorias - a epítome da filosofia do lean manufacturing -, obtidas, diversas vezes, por mudanças simples. E as pessoas só acreditam vendo. Foi assim quando ele liderou o processo de mudança de produção na Embraer, responsável por dar uma guinada na trajetória da empresa e que a tornou um case de eficiência. 

Kawagoe lembra que, assim como agora, os tempos eram difíceis. Mas foi a mudança na produção que ajudou a tirar a Embraer da crise. Então, a interpretação que ele dá às turbulências é que elas são uma oportunidade para que as empresas revejam a produção e minimizem os desperdícios. "Quem já passou por momentos assim, sabe que agora é a hora de ser mais produtivo. Antes da crise, as empresas diziam que não poderiam parar, que tinham de produzir. Agora, elas devem otimizar seus processos. O que vemos com a experiência é que as empresas que fazem essa reflexão no momento de crise chegam à recuperação mais preparadas", afirma. Depende, sobretudo, da liderança da empresa fazê-lo. 

Essa tem sido uma das lições que ele tem levado às indústrias com quem trabalha. Entre elas, estão as empresas que participam do projeto Indústria+Produtiva, iniciativa da Confederação Nacional da Indústria (CNI) em parceria com o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI), que busca ajudar o setor produtivo a ganhar produtividade com mudanças simples e baixo custo. A seguir, confira os principais trechos da entrevista que ele concedeu à Agência CNI de Notícias.

AGÊNCIA CNI DE NOTÍCIAS - Por que a produtividade das empresas brasileiras é considerada baixa? 

MARCOS KAWAGOE - Tem a ver com várias coisas. Entre elas, a liderança. No dia a dia, às vezes a empresa está tentando apagar tantos incêndios que não para para olhar os seus processos e ver onde pode melhorar e ter mais produtividade. E tudo tem processo, não só o industrial, mas logístico, administrativo. Este é um ponto que deveria ser mais observado. Outro aspecto é o treinamento das pessoas. Falamos muito do lean manufacturing, mas as pessoas precisam ser treinadas para fazer isso. É preciso pegar os conceitos do lean e praticá-los. É isso que vai resultar na melhoria contínua.

AGÊNCIA CNI DE NOTÍCIAS - O que você chama de desperdício? 

MARCOS KAWAGOE - A Toyota, quando criou a filosofia do lean, identificou sete desperdícios: defeitos, excesso de produção, espera, transporte, movimentação, processamento inapropriado e estoque. Quando identificamos os problemas, tornamos a produção mais eficiente. O operador não tem de fazer correndo, diminui o retrabalho, se cansa menos. Na verdade, ele faz mais tranquilo e produz mais. Tudo isso faz com que o trabalho seja mais produtivo.

AGÊNCIA CNI DE NOTÍCIAS - Agora que muitas empresas estão lutando para não fechar as portas, onde se encaixa a discussão da produtividade?

MARCOS KAWAGOE - O momento é ideal. Muita gente olha e diz que a crise está em todo lugar. Na verdade, quem já passou por períodos assim, sabe que que esse é o momento que ele precisa ser mais produtivo mesmo. Antes da crise, as empresas diziam que não poderiam parar, que tinham de produzir. Agora é hora de otimizar. Se não, elas nunca terão a chance de parar e otimizar seus processos. O que vemos com a experiência é que as empresas que fazem essa reflexão durante a crise chegam à recuperação mais preparadas.

Conduzi o programa de excelência empresarial da Embraer. Em 2007, 2008, a situação era ruim para a indústria aeroespacial. Pensamos que tínhamos de melhorar naquele momento. Mexemos em todos os processos e quando voltamos, voltamos melhor e mais enxutos. A própria liderança, a alta direção da Embraer, reconhece que o programa de melhoria, que ficou conhecido com P3E, teve suma importância para atravessar a crise nos últimos anos. Tivemos de produzir aviões que nunca havíamos feito, não podíamos contratar. Resolvemos mexer nas linhas de produção, tiramos pessoas das linhas e as deslocamos para as linhas novas, de aviões militares e executivos. Rearranjamos 3 mil pessoas dentro da empresa. Foi muito importante para a Embraer, na época.

Dá para melhorar fazendo coisas rebuscadas? Dá, claro. Com máquinas mais novas, provavelmente, a produção será mais eficiente. Mas, primeiro, as empresas precisam aprender a melhorar a produtividade com coisas simples, sem grandes investimentos. O que vemos nas fábricas é que ainda há muitas coisas básicas a fazer. E cada vez que fica mais sofisticado, há outras oportunidades de melhoria. Se a empresa internaliza o espírito da mudança, acaba se transformando. Sobretudo agora, que ninguém quer ter mais gastos, as pessoas precisam explorar a inteligência, a criatividade que têm.

AGÊNCIA CNI DE NOTÍCIAS - Para empresas, ganhar produtividade tem benefícios óbvios. Mas e para o trabalhador?

MARCOS KAWAGOE - O que falo sempre é que o trabalho tem que ser bom, lógico, para a empresa, mas principalmente para quem faz, quem executa os processos. A pessoa vai trabalhar mais facilmente, perderá menos tempo, se cansará menos e focará mais no trabalho sem ter de perder tempo com outras coisas. Mexemos muito com ergonomia. Procuramos eliminar o carregamento de peso, movimentos bruscos, movimentação desnecessária.

AGÊNCIA CNI DE NOTÍCIAS - O que as pequenas e médias empresas podem aprender com as grandes empresas, como Embraer e Toyota, que são conhecidas pelas estruturas de produção?

MARCOS KAWAGOE - Já trabalhei com empresas fornecedoras da Embraer, que são menores, de 50 a 200 funcionários. E sempre digo a elas que a filosofia do lean, da produção enxuta, não tem a ver com o tamanho do negócio. Por menor que ela seja, a empresa tem processo e processo tem desperdício. É totalmente aplicável para qualquer porte de empresa. Importante é a liderança. Para fazer qualquer tipo de melhoria, a liderança tem que estar bem engajada. Tanto na alta administração, nos donos da empresa, quanto na liderança intermediária, com supervisores e gerentes. E, por incrível que pareça, é o líder intermediário que mais tem problemas com a mudança.

O trabalho não é só técnico, mas uma questão estrutural, que mexe com as pessoas. Mexer com as lideranças intermediárias resulta em grandes mudanças. É natural a resistência. A gente precisa romper isso porque estamos propondo uma nova forma de fazer. Questionamos muitas coisas porque vemos desperdícios. Por isso, projetos como o Indústria+Produtiva são importantes, porque mostramos na prática e em um piloto.

O QUE É LEAN MANUFACTURING?

A mentalidade enxuta é uma filosofia operacional ou um sistema de negócios, uma forma de especificar valor; alinhar, na melhor sequência, as ações que criam valor; realizar essas atividades sem interrupção; sempre que alguém as solicitar; e realizá-las de forma cada vez mais eficaz, ou seja, fazer cada vez mais com cada vez menos. Também é uma forma de tornar o trabalho mais satisfatório e de eliminar desperdícios, e não empregos.

O termo "lean" surgiu originalmente no livro “A Máquina que Mudou o Mundo” ( The Machine that Changed the World ), de Womack, Jones e Roos, publicado nos Estados Unidos em 1990. Trata-se de um abrangente estudo sobre a indústria automobilística mundial realizada pelo Massachusetts Institute of Technology (MIT). Nesse trabalho, ficaram evidentes as vantagens do desempenho do Sistema Toyota de Produção, que traziam enormes diferenças em produtividade, qualidade, desenvolvimento de produtos etc., e explicava, em grande medida, o sucesso da indústria japonesa.


Fonte: Lean Institute Brasil
REPRODUÇÃO DA ENTREVISTA - As entrevistas publicadas pela Agência CNI de Notícias podem ser reproduzidas na íntegra ou parcialmente, desde que a fonte seja citada. As opiniões aqui veiculadas são de responsabilidade do autor. Em caso de dúvidas para edição, entre em contato pelo e-mail imprensa@cni.org.br.

 

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