A intensidade é fraca, mas os sinais são de recuperação, afirma diretor da CNI

Para José Augusto Fernandes, o balanço de 2017 mostra que o pior já passou e que os avanços regulatórios superam as expectativas, mas diz que o governo ainda pode fazer reformas microeconômicas que não passam pelo Congresso
O diretor de Políticas e Estratégia da CNI considera que o endividamento das empresas limita a recuperação da economia

Dar continuidade às reformas econômicas já realizadas é fundamental para manter a recuperação da economia nos próximos anos. A opinião é do diretor de Políticas e Estratégia da Confederação Nacional da Indústria (CNI), José Augusto Fernandes. “Quanto mais tivermos continuidade das reformas microeconômicas voltadas para a melhoria do ambiente de negócios e as reformas com impacto fiscal, como a da Previdência Social, maior vai ser o impacto para esse processo de recuperação”, diz o dirigente. Segundo ele, ainda existe muita capacidade ociosa na indústria e isso é um limitador para decisões de investimentos, notadamente de ampliação de capacidade de produção.

REVISTA INDÚSTRIA BRASILEIRA - Do ponto de vista econômico, qual a expectativa para 2018?

JOSÉ AUGUSTO FERNANDES - A expectativa é de continuidade da recuperação da economia. A intensidade ainda é fraca, mas todos os sinais disponíveis indicam tanto a recuperação do consumo quanto uma progressiva recuperação do investimento. Em resumo, saímos da recessão. Obviamente, quanto mais tivermos continuidade das reformas microeconômicas, voltadas para a melhoria do ambiente de negócio,s e das reformas com impacto fiscal, como a da Previdência Social, maior vai ser o impacto para esse processo de recuperação. É fundamental que evitemos ruídos ao longo do percurso. Como já teremos o ruído eleitoral, é importante que evitemos os ruídos na área econômica porque isso poderá prejudicar a economia e colocar em risco a queda da taxa de juros, o que não gostaríamos que ocorresse.

REVISTA INDÚSTRIA BRASILEIRA - A quais reformas microeconômicas você se refere?

JOSÉ AUGUSTO FERNANDES - Eu me refiro às reformas no âmbito do Executivo, que não dependem do Congresso Nacional. Há um conjunto de reformas regulatórias que podem afetar positivamente o ambiente de negócios, desde as reformas associadas ao modelo do sistema elétrico à questão do gás ou de propriedade de terras de estrangeiros e licenciamento ambiental. Algumas dessas reformas atingem setores importantes para o processo de recuperação da economia, como é o caso do setor de infraestrutura. 

REVISTA INDÚSTRIA BRASILEIRA - Os dados mais recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que a indústria começou a ter uma pequena recuperação. Qual a expectativa para o próximo ano?

JOSÉ AUGUSTO FERNANDES - Na medida em que todas as condições atuais da economia se mantiverem, como taxa de juros e inflação baixas, a indústria vai se beneficiar desse cenário. Espero que não haja uma inversão desse cenário benigno na área macroeconômica. 

REVISTA INDÚSTRIA BRASILEIRA - Embora ainda esteja baixo, o investimento começou a se recuperar, como mostram os dados do terceiro trimestre de 2017, correto?

JOSÉ AUGUSTO FERNANDES - Ainda existe muita capacidade ociosa na indústria e isso é um limitador para decisões de investimentos, notadamente de ampliação de capacidade de produção. Mas as empresas são obrigadas a se modernizar, a buscar eficiência por força da competição. Portanto, mesmo com capacidade ociosa, as empresas são obrigadas a fazer investimentos para melhorar processos, melhorar produtos. Esse tipo de investimento começa a ocorrer na economia. É normal, também, que haja uma certa heterogeneidade entre os diversos setores. Há alguns com excesso de capacidade de produção e outros que terminaram um ciclo de investimento há mais tempo e podem estar iniciando um novo ciclo de investimentos. Então, os setores vão se posicionando. Eu diria que os grandes investimentos ainda são feitos com uma certa cautela.

REVISTA INDÚSTRIA BRASILEIRA - Em relação à taxa de juros, qual sua expectativa?

JOSÉ AUGUSTO FERNANDES - Continuamos trabalhando com um cenário benigno, em que a taxa se aproxima dos 7%. Nesse cenário, teremos tanto a recuperação do consumo, com famílias menos endividadas, quanto a recuperação para as empresas, que passaram por um processo doloroso de resolução dos seus problemas de dívidas, criando limites para a recuperação. Um caso que mostra claramente a dramaticidade do nível de endividamento que se passou na economia brasileira é a Petrobras. A empresa paga, hoje, juros anuais superiores a US$ 6 bilhões. A média das empresas equivalentes é próxima de US$ 1 bilhão. Com isso, a capacidade de investimento da Petrobras fica muito limitada. Isso explica, inclusive, seu processo de venda de ativos. 

REVISTA INDÚSTRIA BRASILEIRA - O emprego também mostra sinais de recuperação. O que devemos esperar para 2018?

JOSÉ AUGUSTO FERNANDES - A tendência é de redução progressiva do nível de desemprego. Não será uma queda rápida, mas sempre que há capacidade ociosa elevada, o emprego é o último a se recuperar. Felizmente essa recuperação já começou.

REVISTA INDÚSTRIA BRASILEIRA - Há algum outro fator importante a ser destacado no cenário para 2018?

JOSÉ AUGUSTO FERNANDES - Não tenho dúvidas de que começaríamos melhor 2018 se tivéssemos ultrapassado a questão da Previdência. O déficit da Previdência é praticamente o déficit do setor público. Se houver mais segurança sobre a trajetória do endividamento brasileiro no longo prazo, haverá um ambiente mais propício até mesmo para uma nova rodada de redução da taxa de juros e de aumento da confiança dos investidores. Um cenário que indique continuidade das reformas permitiria caminhar para um processo importante de recuperação da economia brasileira nos próximos quatro anos.

REVISTA INDÚSTRIA BRASILEIRA - Qual a sua avaliação do ano de 2017?

JOSÉ AUGUSTO FERNANDES - O ano trouxe surpresas positivas. Houve um conjunto de avanços na área regulatória. Na área fiscal é positivo, talvez tenhamos tido mais reformas do que imaginávamos há um ano e talvez menos reformas do que se precise. É um balanço positivo. E terminamos o ano com uma notícia de dados mais consistentes de recuperação da economia. 

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