Empresários seguem à espera de um sinal do novo governo

Em entrevista à revista Exame, o presidente da CNI fala que o governo Jair Bolsonaro deve atrair investimentos para o Brasil, mas antes precisa mostrar o que de fato vem pela frente
"Discussões relevantes de política de desenvolvimento industrial deixarão de ser feitas" - Robson Braga de Andrade.

A entrevista com o presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Robson Braga de Andrade, foi publicada nesta quinta-feira (8), na revista Exame.

REVISTA EXAME: Os empresários parecem animados com o presidente eleito, Jair Bolsonaro. Como o senhor avalia o entusiasmo inicial?

ROBSON BRAGA DE ANDRARDE: De fato, existe uma animação grande com a eleição de um governo liberal, capaz de continuar as reformas iniciadas com o presidente Michel Temer. E vejo que há disposição de antecipar a aprovação dessa pauta ainda neste ano. Agora, investimento mesmo, para valer, só depois que vierem sinais mais concretos.

REVISTA EXAME: A rotina do governo, que costuma ser bem complicada, pode minar essa euforia inicial?

ROBSON BRAGA DE ANDRADE: Muita gente acha que só o desejo de mudança seria capaz de fazer um milagre no Brasil. Isso não é verdade. Não vislumbramos ainda como será o relacionamento do governo Bolsonaro com as diferentes esferas do poder. É verdade que é um governo eleito há pouco mais de uma semana. Por essa razão, não sabemos como será na prática. É ainda uma incógnita.

REVISTA EXAME: O que acha da ideia de fusão do Ministério da Fazenda com as pastas do Planejamento e da Indústria e Comércio Exterior?

ROBSON BRAGA DE ANDRADE: Sou contra a junção porque um planejamento independente é que é capaz de levar para o presidente da República contrapontos importantes. Se tudo ficar centralizado na Fazenda - e nada contra a figura do Paulo Guedes - , discussões relevantes de política de desenvolvimento industrial deixarão de ser feitas.

REVISTA EXAME: Quais discussões são essas?

ROBSON BRAGA DE ANDRADE: Não estou falando de incentivos fiscais e subsídios, mas o Brasil é um país continental e há muitas diferenças regionais. Como levar investimentos ao Nordeste sem um diferencial competitivo?

REVISTA EXAME: Paulo Guedes tem falado numa abertura comercial gradual. Como analisa essa proposta?

ROBSON BRAGA DE ANDRADE: Não temos medo da abertura comercial nem medo dos acordos internacionais. O que não podemos é reduzir alíquotas de importação sem criar um ambiente de negócios adequado às empresas brasileiras. Temos muitos impostos escondidos na cadeia produtiva devido à nossa burocracia e à complexidade tributária.

REVISTA EXAME: O Mercosul deve ser prioridade nas relações exteriores?

ROBSON BRAGA DE ANDRADE: Não podemos abandonar o Mercosul. Argentina e Paraguai são parceiros comerciais importantes. É verdade que nos atrapalham algumas vezes, retardam o processo de negociação, mas os pontos negativos são menores do que os positivos. Dos produtos manufaturados exportados, 25% vão para Argentina, Paraguai e Uruguai. É preferível consertar o que está errado a abandonar.

REVISTA EXAME: Qual o maior problema que Bolsonaro deve atacar?

ROBSON BRAGA DE ANDRADE: A grande discussão hoje é a da geração de emprego.  Fala-se muito em criar vagas, mas o perfil do emprego está mudando e os governos parecem não se dar conta. Não existe mais o investimento numa grande siderúrgica ou mineradora. Deveríamos incentivar startups e empresas médias. Elas geram emprego quase imediato, muitas vezes com baixo investimento, e são capazes de inovar. É a agenda da tecnologia e da indústria 4.0.

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