Salto tecnológico na educação é obrigatório

Em artigo publicado no O Globo, Rafael Lucchesi destaca que a pandemia mostrou a urgência de adaptar escolas ao ensino on-line e que a tecnologia é essencial à aprendizagem

A súbita necessidade de adaptação à educação on-line, devido à pandemia do novo coronavírus, mostrou a pais, professores e à comunidade escolar que a tecnologia é essencial à aprendizagem. Com jovens conectados e a vida cotidiana mediada por recursos tecnológicos, a escola não pode mais manter o modelo educacional do século passado.

Está claro que o ensino híbrido, com atividades presenciais e à distância, é um avanço e veio para ficar. Para o Brasil, é mais uma gigantesca tarefa que se soma ao já enorme desafio de melhorar a qualidade da formação de nossos estudantes. Mas não há escolha nesse campo. Precisamos buscar soluções para sua viabilidade sob pena de aprofundarmos a desigualdade econômica e social.

A tecnologia, por si mesma, não é uma mágica para melhorar o ensino, mas pode ser poderoso instrumento pedagógico nas mãos de professores capacitados. Com seu uso adequado, é possível tornar o processo educacional mais interativo e dinâmico e expandir o tempo de aprendizado dos alunos.

As escolas de ponta no país, como as da rede do Serviço Social da Indústria (SESI), já aproveitam os benefícios de abordagens inovadoras, que desenvolvem competências e habilidades preconizadas pela Base Nacional Comum Curricular (BNCC). O Brasil precisa assegurar que esses ganhos se estendam a todos os estudantes, especialmente aos mais vulneráveis, para que a tecnologia não seja fonte de exclusão social.

No momento, a deficiência crônica de infraestrutura das redes de ensino impede que o país dê o imprescindível salto tecnológico na educação. Apenas 14% das escolas públicas tinham, em 2019, ambiente ou plataforma virtual de aprendizagem, de acordo com a pesquisa TIC Educação.

Esse percentual avançou em 95% dos estados, segundo o Instituto Unibanco e o Todos pela Educação, devido aos esforços empreendidos durante a pandemia. Mas ainda estamos distantes do que seja bom uso da tecnologia no processo educacional. Na maioria dos casos, as aulas tradicionais apenas foram transpostas para o ambiente virtual, quando é preciso que o conteúdo seja remodelado para falar a linguagem dos novos meios.

É urgente destinar mais recursos à formação dos professores em novas tecnologias educacionais, ao permanente apoio pedagógico, à ampliação da oferta de equipamentos e de acesso à internet banda larga pelos alunos e pelas escolas, assim como à elaboração de material didático digital que dialogue com as diretrizes curriculares da BNCC.

No entanto os recursos disponíveis para a educação são insuficientes para essa missão. O Brasil destina 6,3% do Produto Interno Bruto (PIB) na área, mas ainda aplica 44% abaixo do considerado apropriado por aluno-ano da educação básica. Certamente podemos ter melhores resultados com melhoria da gestão no sistema educacional.

Uma solução viável para elevar o investimento em tecnologias educacionais seria a obrigatoriedade de utilização dos recursos provenientes do Fundo de Universalização das Telecomunicações (Fust) para a ampliação da banda larga em escolas públicas. O total arrecadado com o fundo desde a sua criação supera R$ 21,8 bilhões.

Utilizar esses recursos para um inclusão digital de alta velocidade e plataformas tecnológicas modernas ajudaria muito a implementação da educação hibrida.Essa iniciativa, mais do que nunca, merece atenção especial e mobilização da sociedade para que seja aprovada o mais urgentemente possível pelos parlamentares.

Somente assim teremos condições, a partir de 2021, de investir no ensino híbrido e em novas tecnologias, na tentativa de amenizar os déficits de aprendizagem surgidos com a Covid-19 e que certamente impactarão o futuro da geração atual de nossos alunos.

*O artigo foi publicado no jornal O Globo no dia 14 de novembro.

Rafael Lucchesi é diretor-geral do SENAI e diretor-superintendente do SESI e foi integrante do Conselho Nacional de Educação

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